segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

NUM CERTO NATAL

                                                  Foi num certo natal: lembro-me bem,
                                                  quando uma árvore nasceu na sala!
                                                  Esse tanger de sino como quem embala,
                                                  lembrava o nascimento de ALGUÉM,

                                                  que numa manjedoura, lá em Belém,
                                                  veio trazer a paz que não se cala,
                                                  no gesto do homem, na sua fala,
                                                  na vida desses que praticam o bem...

                                                  Mesmo num tempo pra lá de longínquo,
                                                  sinto-o de mim, cada vez mais propínquo,
                                                  por esparzir amor no hemisfério...

                                                  Nada de festas, nem de guloseimas,
                                                  por que será, meu Deus, que o homem teima,
                                                  se o vosso nascimento é algo sério?!

                                                                             Miguel de Souza

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

SÓ FLORES

                                                "No meio do caminho tinha uma pedra
                                                 tinha uma pedra no meio do caminho."

                                                                                     Carlos Drummond de Andrade

Nada de pedras pelo meu caminho!
Só quero flores ladeando a estrada
da minha vida, sem conter a entrada,
ao ignóbil e devastador espinho,

a deixar-me os cabelos em desalinhos...
Nada de pedras pela vil calçada
das minhas horas todas malsinadas,
sem os acordes maviosos de um pinho...

Nada de pedras, eu só quero flores,
pra amenizar, um pouco, os dissabores
que esta vida me impôs, sem dó, nem pena!

Magnólias, Hortênsias, Margaridas...
Só quero flores pela minha vida,
p'las minhas horas vividas, apenas!

                           Miguel de Souza

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

FLANATISMO

                                                  Entra em campo, o mais querido
                                                  Inunda-se o tempo de fumaça
                                                  Todo o tempo fica colorido
                                                  Soam gritos vindos da massa:

                                                  Mengô, Mengô, Mengô...

                                                  Explodem-se fogos de artifícios
                                                  Sobem-se a pino com grande afã
                                                  À partida, dá-se início

                                                  E rola a bola no Maracanã...

                                                                            Miguel de Souza

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

VÉSPERA

São tristes esses dias de novembro,
a se arrastarem plenos para o natal!
Em outros tempos, se bem eu me lembro,
não era assim, com essa forma fatal,

a perdurar intacto por novembro
a dentro... Havia outros ares, afinal,
para a chegada, enfim, de dezembro...
E, sem essa tristura tão banal!

Havia em cada face, uma possível
ternura, pela data tão incrível,
a se tornar cada vez mais propínqua...

Não essa tristeza a perdurar agora,
-antônimo dos tempos idos de outrora-,
a se perder em estrada tão longínqua!

                               Miguel de Souza

domingo, 17 de novembro de 2013

ANÁLISE DE ELEMENTOS POÉTICOS

     A linguagem num poema é trabalhada como se fosse um produto de um "designer" (projetista). O poeta faz com que cada unidade mínima de sua obra expresse um significado. Assim, não só as palavras carregam um sentido como também outros elementos: a quantidade de sílabas, o ritmo, a própria sonoridade vocálica e consonantal - tudo se soma para criar um todo significado.
     Observe como Manuel Bandeira trabalhou os dois primeiros versos de seu poema abaixo:

PNEUMOTÓRAX

Febre, hemoptise, dispneia, e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
-Diga trinta e três.
-Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
-Respire.

.............................................................................................................
- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
 - Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

     Para perceber melhor os detalhes de elaboração, repare nos versos divididos em sílabas métricas, notando que as tônicas estão assinaladas:

Fe/bre, he/mop/ti/se,/dis/pi;nei/a e/ su/o/res/ no/tur/nos.
A/ vi/da in/tei/ra/ que/ po/di/a ter/ si/do e/ que/ não/ foi.

     O que primeiro surpreende é a extensão desses versos. Tradicionalmente, o maior verso da língua portuguesa é o dodecassílabo. O primeiro de "Pneumotórax" tem treze sílabas, e o segundo, quinze.
     Mesmo um leitor pouco habituado à poesia estranhará essa métrica. Declamados, os versos bárbaros soam como prosa. Há nisso um efeito de imprevisibilidade que, de certo modo, causa "desconforto" aos ouvidos do leitor.
     Esse mesmo "desconforto" se reforça com três outros elementos do primeiro verso:
1. As cinco palavras têm a mesma acentuação tônica (são paroxítonas) e todas apresentam algum obstáculo à leitura. ( Ainda que você as leia em silêncio, perceba que elas "soam" no interior de sua mente.)
- o encontro consonantal BR em "febre";
- os mesmos elementos em "hemoPTise" e "disPNeia", que, por se dividirem em sílabas diferentes, criam a dificuldade adicional do /p/ mudo, incômodo para um falante brasileiro, que geralmente sente a necessidade de acrescentar uma vogal a esse tipo de sílaba;
-a sonoridade fechada de "sUores notUrnos", perfeitamente integrada ao sentido de escuridão da segunda palavra. Em sUores" ocorre ainda a passagem da vogal fechada /U/ à vogal aberta /Ó/.

2. O ritmo duro, de cadência rígida, associado aos tropeços ruidosos da leitura, produz um efeito antimelódico, sugerindo a própria respiração difícil do sujeito do poema.

3. Essas dificuldades são completadas pelo emprego de duas palavras pouco usuais não só na língua poética como também na fala comum. São termos extraídos do vocabulário médico-científico:
"hemoptise" = tosse com sangramento
"dispneia" = asma, falta de ar

     A associação dos problemas métrico rítmico e semântico gera o caráter angustiante na mensagem expressa no verso inteiro.
    Após o clima de tortura física criado no primeiro verso, no segundo se introduz a profunda melancolia de quem, por causa de limitações corporais, olha sua existência passada e constata o universo de perdas em que ela transcorreu.
     Mais doloroso ainda: o sujeito do poema não exatamente perdeu - porque perder significa primeiro ter ganhado-; na verdade, não viveu o que poderia ter vivido.
     E essa dor do sujeito poético, Bandeira também exprime com mestria: o verso é duas sílabas mais longo que o anterior, mas as tônicas permanecem apenas cinco. O efeito: o ritmo é mais lento, mais arrastado. Como se a dor da alma fosse um penar mais demorado, mais implacável. Os sofrimentos físicos do primeiro verso são agudos, ocorrem em momentos de crise; o vazio da existência "que não foi" é crônico, perpassa cada instante, corrói lentamente e sempre.
     Ao lado dessa expressividade rítmica, o poeta utiliza um estranhamento de caráter sintático: a frase toda do segundo verso e composta de um sujeito ("A vida inteira") seguido de duas orações subordinadas adjetivas. (A oração "e que não foi" é ao mesmo tempo coordenada adversativa - a conjunção E tem valor de MAS - e subordinada adjetiva restritiva.) Tem-se então um esquisito período composto sem oração principal, como a sugerir/enfatizar o fato de que "a vida inteira" do sujeito poético foi realmente esvaziada, truncada pela doença. Sua existência também não teve o "principal".
     O conjunto dos versos baseia-se, então, em contrastes: a andadura ríspida do primeiro desemboca no ritmo penosamente vagaroso do segundo. A objetividade nua dos termos médicos do verso inicial transfigura-se na subjetividade amarga da imagem de uma existência que transcorreu no vazio.
     Com essa análise você pode perceber que, especialmente na poesia, a linguagem constrói-se como um mecanismo de precisão, onde todos os elementos não apenas dizem algo, mas são aquilo que dizem.

Compilado do livro: Literatura, participação & prazer
De Graça Paulino
Págs. 94/95

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

ANÁLISE DO POEMA "AUTOPSICOGRAFIA" DE FERNANDO PESSOA.

AUTOPSICOGRAFIA

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir  que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

                      Fernando Pessoa


ANÁLISE

     Primeiramente façamos uma ligeira explanação para tentarmos compreender o título, que pode ser visto como um neologismo, já que se trata de uma palavra criada pelo autor. A palavra autopsicografia é a junção de duas palavras: auto: que exprime a noção de próprio, de si próprio, por si próprio; e psicografia: história ou descrição da alma. Seria um tipo de relato do eu interior do poeta.
     O poema foi desenvolvido em três estrofes de quatro versos cada, com versos metrificados em redondilha maior, (sete sílabas métricas), com rimas alternadas, (A/B, A/B) (C/D, C/D) (E/F, E/F), e cesuras ora no terceiro, ora no quarto, ora no quinto verso.
     Inicia-se o poema com uma metáfora: "O poeta é um fingidor." Quando o significado de uma palavra é atribuída a outra. E através dessa metáfora se desenrola todo o poema, sempre com um dado novo nas estrofes seguintes para o andamento dos fatos. Mas em primeiro plano, vamos nos ater na primeira estrofe, que tem sido pedra de discórdia entre alguns doutos no assunto, e valido ao poeta a alcunha de mentiroso por conta de interpretações errôneas.

     Quando Fernando Pessoa conceitua o poeta de fingidor, não está com isso, de maneira alguma, atribuindo ao poeta a condição de mentiroso, de falso ou algo parecido. Mas está dando ao poeta o poder de se colocar no lugar de outrem, de sentir sua dor, para dar vazão ao tema proposto: (...) Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente." E até mesmo, o poeta se confunde com a dor sentida, achando ser a própria dor.
     Na segunda estrofe, há o aparecimento de uma terceira figura, o próprio poeta na condição de leitor: " E os que lêem o que escreve/Na dor lida sentem bem" (...) , Que não está nem aí pra sua dor quando poeta, só quer se regozijar com o tema: "Não as duas que ele teve/Mas só a que ele não têm." A única preocupação é com sua dor que não existe, diante de sua grande dor na condição de poeta.
     A terceira e última estrofe me parece paradoxal ante a seriedade inicial do poema. Há combinação de palavras inusitadas como calhas/rodas, comboio/corda, e um conceito metafórico de coração, que deixa nas entrelinhas a mensagem de que o poeta trabalha com a dor para entreter. Transforma o pranto em riso, metamorfoseia a tristeza em alegria, o sofrimento em prazer.


FALSA INTERPRETAÇÃO

Escrever um soneto cujo tema,
fuja à profunda veracidade;
onde a patranha com a falsidade,
em cada verso, reine sem problema.

'Ste, com certeza, não é meu dilema;
pois a poesia flerta com a verdade!
E, no poeta, há reciprocidade,
decantado com todo ardor no poema.

Nada dessa interpretação bisonha,
que fazem de maneira muito errônea,
sobre a metáfora do grã Pessoa.

Quando o poeta fala em fingidor,
em fingir, ser mesmo a própria dor,
ele não está falando nada à toa.

                           Miguel de Souza  

domingo, 10 de novembro de 2013

POESIA É COISA SÉRIA!

     Um dia desses, ao assistir o telejornal do Sbt, o "Sbt Brasil"; jornal esse que surpreende pela opinião dada sempre com bom senso pelos seus  âncoras: Raquel Sherazade e Joseval Peixoto, nessa falsa democracia em que vivemos. O jornalista Joseval Peixoto deu a notícia de dois garotos que mergulhavam nas águas imundas de um igarapé, catando latinhas para o sustento de suas respectivas famílias.
     A grande surpresa veio quando o jornalista citou, lá pelas tantas, um fragmento do poema "EVOCAÇÃO DO RECIFE" do sempre genial Manuel Bandeira. E não parou por aí! Terminou a notícia com a leitura do poema "O BICHO", também do poeta Manuel Bandeira. Tal atitude do jornalista me fez refletir um pouco nessa questão da poesia, e me levou a outro gigante das letras, o poeta Aníbal Beça que havia escrito um soneto com o título: "PARA QUE SERVE A POESIA?" Mas, enfim, para que serve a poesia?
     Pessoas catando algo nos lixos é uma cena cada vez mais corriqueira, principalmente nos grandes centros. O poema do Bandeira foi escrito nos idos de 1940 do século passado, e já estamos em 2013, se passaram mais de 70 anos e essa cena continua a se repetir. Ainda encontramos pessoas nas lixeiras, catando algo entre os detritos, como bem nos informa o poema. Mas e aí, com quem está a falha?
     A poesia não soluciona, não resolve. É uma afirmação dura para os amantes dela. Mas é de fundamental importância para que as coisas se resolvam. Eles (os políticos) não a levam a sério, e poesia é coisa séria! É ela, a poesia, quem aponta, indica, coloca o dedo na ferida, é uma seta a dizer que algo não está correndo bem. O poeta vem dando sua parcela de contribuição no correr dos anos. Cabe àqueles que regem as leis no mundo, olharem com um pouco mais de zelo, e cumprirem a sua parte.

O BICHO                                                      

Vi ontem um bicho,                                        
na imundície do pátio,
catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
não examinava, nem cheirava:
engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
não era um gato,
não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.


                     Manuel Bandeira


                                                   PARA QUE SERVE A POESIA?

                                                   De servir-se utensílio dia a dia
                                                   utilidade prática aplicada,
                                                   o nada sobre o nada anula o nada
                                                   por desvendar mistério na magia.
                                                   O sonho em fantasia iluminada
                                                   aqui se oferta em módica quantia
                                                   por camelôs de palavras aladas
                                                   marreteiros de mansa mercancia.
                                                   De pagamento, apenas um sorriso
                                                   de nuvens, uma fatia de grama
                                                   de orvalho, e o fugaz fulgor de astro arisco.
                                                   Serena sentença em sina servida,
                                                          seu valor se aquilata e se esparrama
                                                          na livre chama acesa de quem ama.


                                                                                             Aníbal Beça  

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

PUTO COM DEUS

 
Por que Deus nos oferta 
-o choro da vida-
em contraste com a
alegria comovida
de quem nos espera?
E, logo em seguida,
como num ato cruel,
com prantos de fel,
reclamar na partida!
Por que Deus consente:
O riso da vinda,
o primeiro passo,
o primeiro dente,
o primeiro "a,"
o primeiro "tudo,"
se um dia finda,
estaremos mudos?!
A alegria da vinda,
com a dor da ida...
O que há mais ainda
por trás da própria vida?!
Nascemos para a perda!
E, depois de tudo isso,
o que será que se herda?
Por que Deus é cruel, 
a ponto de deixar o 
homem de luto!
É por causa dessas e outras...
Que eu, hoje, com Deus,
estou puto!


Miguel de Souza



P.S.: Um poema questionador. Mas, que guarda de chocante só o título.

  

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

HOMENAGEM

                                                             CIDADE DE MANAUS

MANAUS

Dizem que tu não tens primavera
e, tampouco, que tens outono!
Mas o Supremo Deus, lá do Seu trono
não se esqueceu de ti...Oh! Cidade vera!

Se alguma outra cidade... -Quem me dera!-
Fosse igual a ti: -tela de cromo-
Pelo verde, vermelho, azul... Que somos
ou, pelo menos, se mais cor tivera!

E, ao invés de quatro, fossem duas
as estações efêmeras do ano
e as outras duas fossem perenes...

eu me extasiaria com as tuas
flores, com os olores do cotidiano
com o trocar das folhas tão solenes!

Miguel de Souza


P.S:. 24 de outubro, aniversário da cidade de Manaus.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

UMA RESPOSTA

     Quando saiu a antologia do CLAM em 2008, éramos todos inexperientes em livros é bem verdade. Mas, quando pus os olhos nos meus dez poemas ali editados fiquei contrariado com o que vi, pois haviam mexido na estrutura dos sonetos Shakespearianos, todos em redondilha maior escolhidos a dedo para aquela edição. O soneto "PRESENÇA EGRÉGIA" foi transformado num rondel, não nessa estrutura que anda por aí, não. Mas, naquela que Luiz Bacellar nos ensinou muito bem, no seu "SOL DE FEIRA." Na primeira oportunidade que tive, respondi em forma de poema, mostrando toda a minha indignação pelo ocorrido!

UMA PILHA!

Não desarrumem meus poemas,
oh, senhores doutos no assunto!
O soneto inglês é junto,
como juntas são as algemas.
Não quis compor um rondel;
o rondel conta outra métrica,
com a mesma ordem numérica
dos versos dispostos no papel.
Mas, em diferentes estrofes:
uma oitava e uma sextilha.
Ah! Isto me deixou a pilha,
a fim de expor todos bofes
     dos que mexeram no texto,
     não sei com que pretexto.    

                            Miguel de Souza

sábado, 12 de outubro de 2013

DIA DE NOSSA SENHORA APARECIDA

                                                     NOSSA SENHORA APARECIDA

A BENÇÃO

A benção minha Mãe,
minha Mãe tão querida!
Não tão somente por hoje,
mas por todos os dias
da minha vida.

A benção minha Mãe,
minha Mãe compadecida!
A benção Virgem Santa,
Nossa Senhora da
Conceição Aparecida.

A benção minha Mãe,
não tão somente agora,
mas por todos os momentos
da minha existência!
A benção Nossa Senhora.

A benção minha Mãe,
Rainha das rainhas,
Rosa de todas as rosas!
A benção Virgem Imaculada,
escutai a prece minha.

A benção minha Mãe,
nesta luta tão renhida!
A benção Virgem das virgens,
Nossa Senhora, sem
pecado, concebida.

             Miguel de Souza

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

PARCERIA INUSITADA

     No livro RELIQUIAE de 1931, Florbela Espanca publica um soneto no mínimo curioso, pois não há a primeira quadra do soneto intitulado "Eu não sou de ninguém..." Querendo desta forma, informar ao leitor de algo a mais que não estava explícito no texto. Vejamos o Soneto:

EU NÃO SOU DE NINGUÉM

................................................................
................................................................
................................................................
................................................................

Eu não sou de ninguém!... Quem me quiser
Há de ser luz do sol em tardes quentes;
Nos olhos de água clara há de trazer
As fúlgidas pupilas dos videntes!

Há de ser seiva no botão repleto,
Voz no murmúrio do pequeno inseto,
Vento que enfuna as velas sobre os mastros!...

Há de ser outro e outro num momento!
Força viva, brutal, em movimento,
Astro arrastando catadupas de astros!

                               Florbela Espanca


     Eu, na minha curiosidade de bisbilhotar as coisas, resolvi preencher a primeira estrofe do soneto, procurando entender bem, o que a poetisa quis dizer com aquela ausência! Claro que é loucura, pois lendo e relendo as três estrofes restantes, cheguei a esta conclusão:

"Eu não sou de ninguém!... Nem quero ser...
A não ser que, ao invés de ser demente,
Seja, ao menos igual a essa gente,
Que me odeia, mas lá no fundo  me quer!"

                               Miguel de Souza


Então, eis aí senhoras e senhores, o quebra-cabeça montado:


EU NÃO SOU DE NINGUÉM

Eu não sou de ninguém!... Nem quero ser...
A não ser que, ao invés de ser demente,
Seja, ao menos igual a essa gente,
Que me odeia, mas lá no fundo me quer!

Eu não sou de ninguém!... Quem me quiser
Há de ser luz do sol em tardes quentes;
Nos olhos de água clara há de trazer
As fúlgidas pupilas dos videntes!

Há de ser seiva no botão repleto,
Voz no murmúrio do pequeno inseto,
Vento que enfuna as velas sobre os mastros!...

Há de ser outro e outro num momento!
Força viva, brutal, em movimento,
Astro arrastando catadupas de astros!

             Florbela Espanca / Miguel de Souza
                               

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

DE POETA PARA POETA

                                                           OSWALD DE ANDRADE

     Em 11 de janeiro de 1890 nasceu, em São Paulo, Oswald de Andrade, uma das figuras mais polêmicas de nossa literatura, que se confundia aos personagens de seus próprios romances.
     De temperamento anarquista, opunha-se às normas literárias, políticas e sociais, instigando, entre seus contemporâneos, o combate ao passadismo, a renovação constante e a descoberta de novos talentos artísticos.
     Teve uma vida sentimental intensa, ligando-se a várias mulheres, com algumas das quais teve filhos ou casou-se; entre elas, estão a pintora Tarsila do Amaral (com a qual fundou o movimento antropofágico) e Patrícia Galvão, a "Pagu" (com a qual fundou o jornal "O Homem do Povo").
     Procedente de rica família paulistana, empreendeu muitas viagens para a Europa, que tiveram grande influência em sua obra, pois representam uma redescoberta do Brasil e uma conscientização do escritor com relação às suas próprias raízes. Para realizá-las, Oswald era capaz de despender toda a sua fortuna.
     Oswald viveu num período de transição descrito por ele mesmo em seu livro de memórias: "Nossos pais vinham do patriarcado rural, nós inaugurávamos a era da indústria".
     Em 1954, morre Oswad de Andrade após prolongada doença, aos cuidados de sua terceira esposa, Maria Antonieta d'Alkmin, a mais duradoura de suas relações.
     Quanto às suas atividades literárias, foi ficcionista, poeta, jornalista e escreveu peças teatrais.
     Como ficcionista, Oswald estreou com o livro Os Condenados, publicado em 1922. Mais tarde, intitulado Alma, ele integraria os romances A Estrela do Absinto e a Escada de Jacó, formando uma trilogia que foi então batizada de Os Condenados.
     Esse primeiro romance trata da vida de Alma, uma prostituta dividida entre a exploração de Mauro Glade (um "cáften") e o amor romântico de João do Carmo, que acaba por suicidar-se. A importância desta obra está na sua originalidade técnica, que prenuncia os procedimentos dos textos mais importantes de Oswald de Andrade.
     Em seus romances seguintes, Memórias Sentimentais de João Miramar (1924) e Serafim Ponte Grande (1933), o ficcionista desvincula-se dos padrões tradicionais da narrativa, fundindo a prosa e a poesia e criando um estilo original.
     Memórias Sentimentais relata as viagens e aventuras de um burguês paulista, numa sátira social em que se misturam  o estilo paródico e o humorístico.
     Em Serafim Ponte Grande há um aprofundamento da sátira social, visando à classificação dos valores burgueses. É considerada uma obra de vanguarda por subverter a ordem habitual do romance, distanciando-se de qualquer esquema tradicional de composição. Narra a vida de Serafim ponte Grande: sua formação, viagens à Europa e ao Oriente, retorno ao Brasil e termina com uma permanente viagem utópica do personagem.
     Como poeta, Oswald estreou com o livro Pau Brasil, em 1925, buscando uma poesia renovadora, a qual chamaria de "poesia de exportação". Trata-se de uma poesia desligada dos modelos tradicionais, pois é construída a partir de uma linguagem coloquial, plena de humor e ironia. Assim, Oswald propõe escrever, sob forma poética, a história do Brasil, fazendo paródias de textos do passado ao mesmo tempo em que o questiona.
     Com relação à sua produção teatral, a peça O Rei da Vela é a mais importante. Publicada em 1937, representa o primeiro texto moderno do teatro brasileiro, Pois só veio a ser apresentada trinta anos depois, em São Paulo.
     A peça é dividida em três atos e trata da aliança da burguesia ascendente com a aristocracia decadente, simbolizada por Abelardo e Heloísa. No título, há a referência à vela, produto da fábrica de Abelardo, que simboliza a estagnação brasileira.
     
     Acompanhe agora a homenagem que Ferreira Gullar prestou a Oswald de Andrade no dia de seu passamento:

OSWALD MORTO

Enterraram ontem em São Paulo
um anjo antropófago
de asas de folha de bananeira
(mais um nome que se mistura à nossa vegetação tropical)

As escolas e as usinas paulistas
não se detiveram
para olhar o corpo do poeta que anunciara a civilização do ócio
Quanto mais pressa mais vagar

O lenço em que pela última vez
assoou o nariz
era uma bandeira nacional

NOTA:
Fez sol o dia inteiro em Ipanema
Oswald de Andrade ajudou o crepúsculo
hoje domingo 24 de outubro de 1954

                      Ferreira Gullar
     

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

DIA DE SÃO FRANCISCO

                                                             SÃO FRANCISCO

                                                             Era Ele, quem falava com o vento,
                                                             e andava simples, com os pés no chão;
                                                             tinha no peito grande coração,
                                                             e da paz do Senhor, era instrumento!

                                                             Era Ele, quem trazia novo advento,
                                                             e quem chamava o fogo de irmão!
                                                             e, com remendos em seu surrão,
                                                             trazia a todo mundo novo alento!

                                                             Era Ele, quem levava tanto amor,
                                                             onde antes, todo ódio, prosperava;
                                                             e onde houvesse trevas, levava luz...

                                                             Era Ele, o Santo fiel condutor,
                                                             quem toda a gente, também amava,
                                                             Bem, como toda a gente, amou Jesus! 

                                                                                       Miguel de Souza



quinta-feira, 3 de outubro de 2013

MÚSICA, HAICAI, SONETO

     INTERTEXTUALIDADE

     A intertextualidade é uma espécie de acordo entre textos, quando ambos comungam da mesma ideia. Há pelo menos sete tipos de intertextualidades que se tem notícia: a EPÍGRAFE: (pequeno trecho de outra obra que o autor transcreve de modo introdutório e que guarda certa relação com o texto em voga.) A CITAÇÃO: (fragmento transcrito de outro autor inserido no texto, deve vir sempre entre aspas.) A PARÁFRASE: (deve ter a ideia original do texto, com outras palavras.) A PARÓDIA: (funciona em dizer o oposto do texto parodiado com objetivos críticos ou irônicos.) O PASTICHE: (imitação rude de outros criadores com a intenção pejorativa, numa recriação do texto original.) A REFERÊNCIA: (ato de mencionar determinadas obras, de maneira direta ou indireta.) Entre outros.
     Fiz essa pequena explanação acima para trazer aqui um exemplo de intertextualidade, e de como esses textos comungam da mesma ideia:



                                                            JOÃO-DE-BARRO

MÚSICA

JOÃO-DE-BARRO

O João-de-Barro pra ser feliz como eu
Certo dia resolveu, arranjar uma companheira
No vai-e-vem, com o barro da biquinha
Ele fez sua casinha, lá no galho da palmeira
Toda manhã, o pedreiro da floresta
Cantava fazendo festa, pra aquela que tanto amava
Mas quando ele ia buscar o raminho
Pra construir seu ninho, seu amor lhe enganava
Mas como sempre o mal feito é descoberto
João de Barro viu de perto, sua esperança perdida
Cego de dor, trancou a porta da morada
Deixando lá a sua amada, presa pro resto da vida
Que semelhança entre o nosso fadário
Só que eu fiz o contrário do que o João de Barro fez
Nosso Senhor, me deu força nessa hora
A ingrata eu pus pra fora, por onde anda eu não sei

Letra: Teddy Vieira
Música; Muhib Cury


                                                                  HAICAI

                                                                  Ninguém tira sarro,
                                                                  da casa da cor de brasa,
                                                                  do João-de-Barro.

                                                                                     Miguel de Souza



                                                                         
                                                                             SONETO

                                                                             TRAIÇÃO

                                                                             Tal qual autêntico e fiel carpinteiro,
                                                                             que constrói sua casa sem sarro,
                                                                              nosso trabalhador, João-de-Barro,
                                                                              também, como boníssimo companheiro,

                                                                              tendo no coração amor verdadeiro,
                                                                              projeta sua casa toda em barro!
                                                                              Embora possa parecer bizarro,
                                                                              o desfecho do caso por inteiro.

                                                                              É que a casa será também borrasca,
                                                                              se ela a trair, ele vem, e a enrasca,
                                                                              tapando pela frente a única fresta...

                                                                              Deixando essa ave presa com filhotes!
                                                                              Ela, asfixiada morrerá, sem dotes
                                                                              para salvar-se... é o que, por isto, lhe resta!

                                                                                                                 Miguel de Souza


segunda-feira, 30 de setembro de 2013

SOBRE POEMAS

A FARRA DO LEITE

No plebiscito para prefeito
do ano de 88.
Para conseguir qualquer voto
tinha um candidato afoito
ele prometia de tudo:
da rapadura ao biscoito.

Meu pai entrou numa fila
pra testar se era verdade
o candidato lhe prometeu
na maior facilidade
vinte sacos de cimento
falando só em amizade.

Quando passou a eleição
o tal candidato perdeu
porém, meu pai foi atrás
do que ele lhe prometeu
mas o cabra foi malandro
explicando que esqueceu.

E foi dizendo ao meu pai
que ele não era de covardia
que sempre na vida dele
pagava o que devia
falou: -amanhã, senhor
o cimento vai pra sua moradia.

No outro dia parou um carro
pai viu que o negócio era fraco
um sujeito arrancou pra fora
um único e mísero saco
pai viu que o papo de amizade
era mesmo só fiasco.

O cimento ficou guardado
lá no fundo do quintal
estava findado o ano
aproxima-se o natal
meu pai disse: na minha casa
vou fazer uma reforma geral.

Aí foi que veio a surpresa
pai abriu o saco com um estilete
quando viu o cimento branco
pensou que fosse de enfeite
depois viu que não era cimento
e sim, um saco de leite.

E lá em casa que não tinha nada
para a ceia de Natal
com aquele bendito leite
mamãe preparou mingau
e de tanto comer leite
nós até passamos mal.

Era leite no almoço
era leite no jantar
eu de tanto tomar leite
já estava para enjoar
meu pai disse: -só tem leite
então, leite vamos tomar.

Quando acabou o leite
pai foi visitar o candidato
levou até um docinho
ele agiu muito educado
meu pai falou: -seu doutor
ao senhor muito obrigado.

E nessa farra do leite
aqui eu coloco um fim
mas seu for à sua casa
já vou lhe dizendo assim:
ofereça-me qualquer coisa
mas afaste leite de mim.

                 Edivan Rafael


ANÁLISE

     Dentro do plano semântico que o poema nos oferece, a FARRA DO LEITE  traz no seu bojo um paralelo traçado entre o humor e a seriedade da situação. O poeta consegue nos transmitir de maneira bem humorada, uma situação cada vez mais frequente nos dias atuais. A troca de votos por favores, muita das vezes efêmeros, e que não vale a pena.
     O texto foi construído em sextilhas, embora o poeta, ao que parece, não tenha tido a preocupação com a métrica, mas há uma tendência para a redondilha maior, característica bem marcante nos nordestinos. Com palavras de fácil entendimento, sem muito rebuscamento, o texto vai se desenvolvendo com a preocupação, apenas, de informar à sua gente sobre o logro do personagem-vilão do poema, o candidato. O que caracteriza a função da linguagem do poema: informativa/poética.
     Na primeira sextilha temos a predominância da letra "i" que perpassa toda a estrofe: "plebiscito, prefeito, oitenta e oito, conseguir, tinha, afoito, prometia, biscoito"(...) dando um tom melancólico à introdução do poema, pois a letra "i" nos dá a sensação de som fechado, nos remetendo à tristeza da mensagem do texto. Forma e conteúdo, neste sentido, se encaixam perfeitamente.
     Na segunda estrofe, há alternância de vogais fechadas e abertas, o poeta, com isto, demonstra um pouco de alegria, pois há a expectativa de uma possível recompensa pela troca dos votos: "meu, pai, estar, verdade, prometeu, maior, vinte, sacos, falando, amizade"(...) Mais uma vez conteúdo e forma se acoplam perfeitamente.
     Na terceira sextilha, o poeta mais uma vez, parece brincar com a questão fônica do poema. Numa habilidade incrível, ele minuciosamente, a cada verso, vai alternando, conforme a mensagem do texto, a posição dos personagens. Num misto de alegria e tristeza, na fala dele próprio como narrador: "quando passou a eleição/o tal candidato perdeu/porém, meu pai foi atrás/do que ele lhe prometeu/mas o cabra foi malandro/explicando que esqueceu. (...)
     É por essas e outras que os poetas se comunicam com os leitores, não só através da mensagem explícita do poema, mais muita das vezes, por essas jogatinas que só a poesia tem para nos oferecer.
     A FARRA DO LEITE é daqueles textos que, infelizmente será sempre atual, apesar de pertencer ao século XI, isto é, ter sido escrito no século XI. Pois o desenrolar de seu enredo, já nos é conhecido desde os primórdios, bem o sabemos disso. O poeta Edivan Rafael ao compô-lo, consegue um feito bastante usado pelos poetas nordestinos, que é extrair humor das intempéries da vida, digamos assim, dando ao texto um sentido jocoso.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

SOBRE LIVROS

SEXAGESIMA STELLA

     Embora possa parecer contraditório, mas SEXAGESIMA STELLA é um livro de poemas românticos. O tão cantado e decantado amor mais uma vez vem à tona. Há poetas que ignoram este tema, como Augusto dos Anjos por exemplo, ao dizer: "O amor da humanidade é uma mentira..." E há outros que o engavetam e não publicam de jeito algum.
     Mas acredito que não é o tema em si, que vai julgar a qualidade do poeta, e, sim, a maneira como este tema é discorrido. Pois sabemos que tudo já foi dito, e a grande sacada, hoje, é dizer de novo de forma diferente. Partindo desse pressuposto, Anísio Mello, nos brinda com um fabuloso livro de poemas, "SEXAGESIMA STELLA".
     Vejamos o que Arthur Engrácio nos conta acerca desta obra de Anísio Mello: "Anísio Mello, com SEXAGESIMA STELLA, vem confirmar que o romantismo continua, realmente, vivo no espírito dos nossos poetas, pondo à mostra o romântico que mora nele, cantando em alto e bom som, o que lhe fala o coração. (...) Neste livro, o leitor vai deparar-se com um Anísio Mello mais apurado, mais senhor da sua técnica, a caminho, já, daquele estágio de perfeição que a arte confere aos seus eleitos. O acento lírico é mais forte, os versos fluem com mais espontaneidade, seus voos são mais seguros e ousados.
     Salve Petrarca! A maioria dos poetas, senão todos se curvaram à beleza e à perfeição desta forma poética que é o soneto, e com Anísio Mello, não foi diferente. O soneto vem atravessando escolas literárias, incólume no passar dos tempos, e ai de quem ousar modificá-lo! O poeta abre seu livro com chave de ouro, se é que permitem o trocadilho infame, vejamos:

LEMBRANÇAS

Na lembrança ficaste de permeio
a momentos de amor como te vi.
Foste rosa em meu peito e com receio
a primavera augusta então vivi.

Nos teus lábios agora me tonteio
e na luz dos teus olhos refleti
todo um sonho feliz e agora creio
que o amor é como o beijo que senti.  

Este amor que flutua mansamente
e encandece a manhã tão de repente,
mais parece o delírio de um adeus.

Um dia partirei, quem sabe quando?
Lembranças levarei sempre cantando,
com teus lábios impressos sobre os meus...

     A saudade é o tema que permeia todo o poema, o terceiro e quarto verso da primeira estrofe: "Foste rosa em meu peito e com receio/a primavera augusta então vivi." São reveladores desta afirmação. O último verso da segunda quadra: "que o amor é como o beijo que senti." evidencia bem, o todo do poema, embora seja, muita das vezes duradouro, quando termina. Como se fosse algo repentino há sempre o gostinho de quero mais. E por fim, a chave de ouro: " com teus lábios impressos sobre os meus..." É aquilo que podemos chamar de belo desfecho que desvenda todo o mistério do poema.

SUAVEMENTE

Um dia surgiste como estrela
no céu do firmamento dos meu dias
e tão branda chegaste, que doçura,
num sorriso de vestes cristalinas.
Te apertei em meus braços como um sonho,
naveguei em teus mares pelas noites,
sorvi o licor da tua loucura,
cantei a canção que flui dos lábios,
no calor dos teus desejos impossíveis.

Bendita noite de tua voz sorriso,
em que pousaste nos meus olhos
como um brilho de sol
ou de uma estrela...

     Neste poema, como bem nos informa o título, não há nada que venha se contrapôr à felicidade do poeta,
em "SUAVEMENTE", não encontramos aquela trama tão comum a tantos textos, e mesmo assim, o poeta consegue ser autêntico, há um casamento perfeito do título com o poema. Num discorrer suave, o poeta se regozija, o poema perfaz um caminho contrário de que textos famosos da nossa literatura trilharam! E Anísio Mello, prova, com isto, que podemos extrair poesia sim, de tudo, de todos os momentos da vida.

SONETO COLORIDO

Talvez não saibas tu quanta poesia
é capaz de ofertar um só artista.
Se é pintor e poeta, que alegria,
ter o dom de assistir o ser que avista,

o céu, a terra, o mar que ele recria
na tela ou no papel, sempre otimista,
em função do seu dom que lhe irradia
uma alvorada azul-a sua conquista!

Ser pintor e poeta a um só tempo,
é sentir duplamente o sofrimento,
as dores deste mundo, a alegria.

É dizer com o pincel a cor da vida
e pintar em seus versos, colorida,
as auroras de luz de uma poesia.

     Em SONETO COLORIDO, o poeta traz à luz dos olhos mais uma qualidade, a de ser pintor, artista plástico. E fala dessas dores por ser poeta em dose dupla, já que a pintura é conceituada por muitos como poesia para ser vista. fica bem evidente, no final do soneto essa afirmação, quando no desfecho ele diz: "É dizer com o pincel a cor da vida/e pintar em seus versos, colorida,/as auroras de luz de uma poesia.

ROSINHA INDO PRO CÉU

Em vida Rosinha passava pela rua
boinha boinha
olhava sempre o amanhã que deveria ser melhor.
Os olhares malandros do rapazil
imaginavam coisas
sonhavam Rosinha nuinha nuinha
gestos lentos
corpo moreno de amendoim
olhos de amêndoas doce
lábios com gosto de beijo.

(...)

     Em ROSINHA INDO PRO CÉU, fica no ar uma intriga sobre Rosinha, que poderia, pelo seu nome no diminutivo, ser uma criança, mas uma criança não apática aos olhares da matula que a imaginavam despida, mesmo morta indo para o céu!

    Em "CAFÉ DA MANHÃ", há certo teor de erotismo nunca antes neste livro, é um convite ao amor, aos prazeres da carne. Eis um fragmento do poema:

CAFÉ DA MANHÃ

Minha negra, com carinho,
mostra o café do teu corpo.
Faz no olhar dos olhos meus
as ondas do mar que tens.
que se confundem com estradas,
tão sinuosas, sombrias,
esquivas curvas do amor.

(...)

Mostra o café do teu corpo
no brilho do meu lençol,
mostra o amor que tens no peito
ao calor que trago eu,
se podes provar que és minha,
para provar que sou teu.


ORAÇÃO

Ave Maria
do céu e da terra
cheia de graça e de beleza,
o Senhor é convosco e conosco,
Bendita Sois Vós
e todas as mulheres
entre as quais Sois Rainha,
Bendito é o fruto do Vosso ventre,
Jesus!

     De repente, lá pelas tantas, o amor muda de figura, a religiosidade do poeta, assume o timão e surge um belíssimo poema à Nossa Senhora. A meu ver, uma crítica àqueles que lotam as igrejas e acham que sua salvação está lá, e esquecem muitas das vezes da sua própria vida.

DOCE MENTIRA

Oh! doce mentira aquela de teus olhos
quando lágrimas rolaram em teu rosto
e juraste amar eternamente
o teu poeta
e enganas tua alma com outros beijos.

     Em versos simples, sem rebuscamento algum, ou hermetismo, o poeta nos informa da perda de sua musa. DOCE MENTIRA pode ser visto como antítese, uma contraposição de ideias.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

INVENÇÃO E SONETO




                                                                   GRAHAM BELL


                                                                   O TELEFONE

                                                                   Ouvir a tua voz, de mim, distante,
                                                                   e, ao mesmo tempo, tão pertinho assim,
                                                                   carinhando meus tímpanos, a fim
                                                                   de estar aqui, presente, neste instante!

                                                                   E eu, a fim de estar aí, de ti, perante,
                                                                   após, do telefone, esse trriiimm!!!
                                                                   Para o diálogo, tintim por tintim,
                                                                   e, na retina, teu rosto marcante!

                                                                   Não sei bem, se malquisto ou benquisto,
                                                                   Graham Bell, por essa ideia, invenção
                                                                   de falar, um com o outro na distância!

                                                                   O que eu sei mesmo, é que tudo isto,
                                                                   faz a gente sofrer do coração,
                                                                   e aumenta ainda mais a nossa ânsia...

                                                                                        Miguel de Souza



domingo, 22 de setembro de 2013

HOMENAGEM

                                                                 






EVERALDO NASCIMENTO


CANTO

Vou tecer um soneto neste momento,
-e explicar o motivo deste canto!-
Ao meu amigo Everaldo Nascimento,
cujos versos são magias e encantos.

Agradeço também aos bons ventos,
que me trouxeram vates tantos, tantos...
Através do que estava no teu intento,
confortando-nos com o teu acalanto.

Foi por pensares sempre em conjunto,
que nesta caminhada estamos juntos,
para tentarmos publicar nossos versos.

E, quem sabe, no mais tardar dos anos,
possamos, ver enfim, os nossos planos,
realizados com bastante sucesso!

                  Miguel de Souza

sábado, 21 de setembro de 2013

HOMENAGEM AO DIA DA ÁRVORE




PAPEL

                                                    Sê como aquelas árvores antigas,
                                                    impolutas à beira do caminho...
                                                    Recebendo do vento tal carinho,
                                                    e oferecendo sombra a quem se abriga.

                                                    Ou companhia ao ser sempre sozinho,
                                                    a transitar por entre elas, amigas.
                                                    As árvores tão boas quanto antigas,
                                                    a esparzirem caridade p'lo caminho.

                                                    Sê como Elas, benéficas ao mundo,
                                                    ao saciar a fome do moribundo.
                                                    A reinar sobre a terra e sob o céu!

                                                    E mesmo empós, da serra, a ouvir-lhe o ronco,
                                                    a podar-lhe rés a terra pelo tronco...
                                                    Mesmo empós... Ela cumpre o seu papel!

                                                                           Miguel de Souza

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

MÚSICA E SONETO

                               
                             







FLOR QUALQUER
                                 
Nasceste na beirada do caminho,
quase que por acaso ou por encanto;
e se o tempo jorrava doce pranto,
era nas secas pétalas, carinho!

Assim, se desenvolveu a flor-espinho,
nos longes do jardim... a sós, portanto!
dando um tom de matiz ao verde-manto,
e aos olhares de quem vai sozinho!

Quando o tempo fechar as comportas,
e, escancarar pro mundo todas as portas,
de claridade, luz e calor...

Resta a esta flor, da noite, o úmido orvalho,
caído em gotícula, de algum galho,
para sobreviver desse horror!

                   Miguel de Souza

Inspirado na música "FLOR DE CHEIRO" de Nando Cordel:

DVD Nando Cordel - Flor de Cheiro


segunda-feira, 16 de setembro de 2013

À PRIMEIRA VISTA

Trago intrínseco um sentimento profundo,
desde a primeira vez em que a fitei!
O que se deu comigo? Apenas sei,
de me pegar, às vezes, meditabundo

sobre Ela, pelos quatro cantos do mundo,
e de encontrar-me a sós em meio à grei!
Não sei que deus ditou esta cruel lei,
para deixar-me assim a cada segundo!

...Por Ela, todo sentimento externo,
meu amor, até então, será eterno,
como nos disse, um dia, o grande poeta.

Eu só sei que a amo como amam os loucos!
e todo o amor do mundo será pouco,
para caber num coração de esteta!

                   Miguel de Souza


Assista ao vídeo deste soneto:

A Primavera Vista - Miguel de Souza (Video por Edi)

SOBRE POEMAS

     O poeta é este ser que consegue extrair dos acontecimentos, a matéria prima para transformá-la em poemas. Não sei o nome, nem onde mora a musa que serviu de inspiração para este soneto. Só sei que eu a via todo dia, pois trabalhávamos juntos, na mesma empresa. E quando ela passava, tudo ao meu derredor parava, inclusive eu, para admirá-la! As flores do jardim se inclinavam ante a  tanta beleza! O sol, por mais bonito que estivesse o dia, se apequenava diante ao brilho do seu sorriso! Meus olhos embebidos, sorvia a beleza radiante de tamanho esplendor!
     E tudo era poesia quando ela passava nos seus afazeres. Um belo dia, tão natural como os seus passos, surgiu um soneto em sua homenagem. Sem exagero, sem devaneios, o soneto a retrata do jeito que eu a via, sem salamaleques... É uma pena, mas ela não sabe de sua existência. Pois não tive coragem de informá-la desta minha singela homenagem.

   
BELEZA EM PESSOA

Impossível olhar-te sem admirar-te!
E, sem deixar ao menos, cair o queixo!
Quando passas, o que estou a fazer deixo,
somente para vê-la! Oh, obra de arte!            

Esparzes a beleza em toda parte
que vais, até nos mais recônditos trechos!
da beleza de tudo tu és o eixo,
a deixar-me boquiaberto a contemplar-te!

Aliás, acho que não és tão bonita,
pois ser bonita a ti, é muito pouco,
tu és a beleza propriamente dita!

Não há falácia, nem em mim há loa,
podem até chamar-me de louco,
porque a mim, tu és a beleza em pessoa!

                            Miguel de Souza

terça-feira, 10 de setembro de 2013

DEPOIS DA CHUVA



Depois da chuva tudo me comove:
pinta no ar um cheirinho bom de terra,
a tez das folhas que a vista encerra,
fica sempre mais verde depois que chove.

A paisagem que a natureza promove,
tornando esverdeada toda a serra,
pós a cortina dágua que descerra,
parece, ante aos meus olhos, que se move!

Árvores chovem, depois da chuva!
São mangas, graviolas, peras, uvas...
Que elas nos dão por serem tão bondosas!

Toda a terra enche-se de tanta vida!
Depois da chuva, a flora colorida,
agradece a Ela por ser tão maravilhosa!

                             Miguel de Souza

sábado, 7 de setembro de 2013

HOMENAGEM


     O meu muito obrigado ao poeta Eylan Lins, pelo poema carinhosamente a mim dedicado.





           POEMAIS

A vida brinca de passar o tempo,
e os sonhos juntos vão passando
em caravanas vorazes, enquanto
eu, aqui, torço por ti e te desejo:

Que o sol brilhe, brando e macio,
iluminando sempre o teu destino.
Que aqueça tua alma de menino,
dando cores e voz ao teu ofício.

Que os ventos da tarde cheguem,
trazendo consigo a semente boa,
para semear na proa da tua canoa,
a vida das palavras que te seguem.

Que o orvalho da noite umedeça
teus sonhos, e te dê luz e força,
para tua nova e sagaz caminhada!

Pois agora, és também "poemais",
metáfora maior da tua estrela guia,
que brilha e fascina a nova geração.

                       Eylan Lins




quinta-feira, 5 de setembro de 2013

DE POETA PARA POETA

                                               MANUEL BANDEIRA
                                         
     Nasceu em 1886, no Recife, Manuel Carneiro de Sousa Bandeira, filho de pais abastados (proprietários rurais em declínio).
     Ainda jovem muda-se para o Rio, onde faz seus estudos secundários; transfere-se para São Paulo em 1903, matriculando-se na Escola Politécnica por influência do pai, que o queria arquiteto e até lhe prometera uma viagem à Europa como prêmio.
     A viagem iria acontecer, mas por outra razão, quando, no ano seguinte, Bandeira constata estar com tuberculose pulmonar, doença que modificaria toda a sua vida e o encaminharia para a poesia. Após vários anos em estâncias climáticas no Brasil, segue para um sanatório na Suíça, onde convive com poetas ali internados. Só retorna ao Brasil quando estoura a I guerra mundial, porque o franco suíço dobra de valor.
     Esta é a fase de tédio e sofrimento de sua vida, que se reflete em "Cinza das Horas", sua obra de estreia, publicada em 1917 e custeada pelo próprio poeta.
     Seu segundo livro, "Carnaval", publicado em 1919, agora custeado pelo pai, representa seu primeiro passo para a integração definitiva no movimento modernista de São Paulo.
     A esse livro pertence o poema "Os Sapos", que foi lido na Semana de Arte Moderna por Ronald de Carvalho, e serviu de "hino antiparnasiano":

"O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado, diz:
_Meu cancioneiro
É bem martelado.
Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos."

     Por essa época, Bandeira já teria perdido a mãe (1916), irmã (1918),  o pai e o irmão (1920), passando a morar sozinho no Rio, vizinho do amigo Ribeiro Couto. Desse período o poeta diz o seguinte:
     "O meu apartamento, o andar mais alto de um velho casarão quase roído, era, pelo lado dos fundos, posto de observação da pobreza mais dura e mais valente e, pelo lado da frente, zona de convívio com a garotada sem lei nem rei que infestava as minhas janelas restituindo-me de certo modo meu clima de meninice. Na rua do Curvelo reaprendi os caminhos da infância. "(Itinerário de Pasárgada).

A obra "O Ritmo Dissoluto" (1924) reflete esse período de camaradagem carioca em que Bandeira vivia, fazendo de sua casa ponto de encontro de vários artistas. no exemplar a seguir observa-se a evolução do poeta:

Berimbau

"Os aguapés dos aguaçais
Nos igapós dos Japurás
Bolem, bolem, bolem
_Ui ui ui ui ui! Uiva a iara
Nos aguaçais dos igapós
Dos Japurás re dos Purus."

     Com a publicação de "Libertinagem" (1930), pode-se dizer que o poeta alcançou sua fase definitiva de amadurecimento, no sentido de total liberdade estética e de consolidação de sua temática existencial, incorporada a imagens e cenas brasileiras. Pertence a esta obra a "Poética", um de seus poemas mais expressivos. Veja outro exemplo:

Irene no Céu

"Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.
Imagino Irene entrando no céu:
_Licença meu branco!
E S. Pedro bonachão:
_Entra Irene. Você não´
precisa pedir licença."

     Em 1933, Manuel Bandeira é forçado a mudar-se para um pequeno apartamento na Lapa, centro da malandragem carioca e de intelectuais boêmios.
     Publicado nessa época, o livro "Estrela da Manhã" teve pequena tiragem, impressa em papel doado, pois o poeta não encontrou editor. Nele reúnem-se poemas da mais variada temática, desde uma notícia de jornal até uma propaganda de sabonete. A mulher aparece, como sempre, inatingível, preenchendo a imaginação do poeta, de forma viril e carnal, porém longe de ser vulgar:

Estrela da Manhã

"eu quero a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã.

Ela desapareceu ia nua
Desapareceu com quem?
Procurem por toda parte.

Digam que sou um homem sem orgulho
Um homem que aceita tudo
Que me importa?
Eu quero a estrela da manhã.


     Em 1940, publica "Lira dos Cinquent'Anos, onde continua sendo um poeta livre de convenções, porém recupera a métrica e a rima, associando a sonoridade exata da palavra à fluidez musical do ritmo.
     O poema "A Última Canção do Beco", que faz parte dessa obra, foi escrito intuitivamente, durante um trajeto percorrido pelo poeta, enquanto estava num bonde até voltar a sua casa. A respeito do poema, o poeta declarou: "... e fiquei espantadíssimo ao verificar que o poema se compusera, à minha revelia, em sete estrofes, de sete versos, de sete sílabas".

"Beco que nasceste à sombra
De paredes conventuais.
És como a vida, que é santa

Pesar de todas as quedas
Por isso te amei constante
E canto para dizer-te
Adeus para nunca mais!"

     Ainda em 1940, o poeta foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Viveu ainda muitos anos, sempre à espera da morte, publicando até dois anos antes de sua morte (Estrela da Vida Inteira 1966).



Leia o poema que Carlos Drummond de Andrade escreveu em homenagem a Manuel Bandeira:

Declaração a Manuel

Teu verso límpido, liberto
de todo sentimento falso;
teu verso em que amor, soluçante
se retesa e contempla a morte
com a mesma forte lucidez
de que soube enfrentar a vida;
teu verso em que deslizam sombras
que de fantasmas se tornaram
nossas amigas sorridentes,
teu seco, amargo, delicioso
verso de alumbramentos sábios
e nostalgias abissais,
hoje é nossa comum riqueza,
nosso pasto de sonho e cisma:
ele não te pertence mais.

      Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 3 de setembro de 2013

ROMANCE E SONETO

     Certa ocasião, ganhei de presente da minha querida amiga, a poetisa Ana Zélia, o livro Dom Casmurro do consagrado escritor Machado de Assis. Ana dedicou-me o livro com os seguintes dizeres: "Ao poeta Miguel, um livro que por certo o ajudará pelo grande homem que foi Machado." E datou: Manaus, 02 de janeiro de 1998.
     Recebi o livro com alegria e entusiasmo, e guardei-o na estante como se ele estivesse na fila esperando a sua vez, pois tinha outros na sua frente para serem consumidos. Depois de um determinado tempo, chegou enfim, o momento dessa tão esperada leitura, afinal de contas, tratava-se de Machado de Assis.
     Ao discorrer meus olhos ávidos, fui me empolgando com a história de Bentinho e Capitu. Imaginava como seria Bentinho... E Capitu... Machado parecia prender-me cada vez mais no seu enredo. Mas eis que chega o capítulo LV  com o título: "um soneto" que me chamou atenção de cara! Pois no capítulo, Bentinho tenta escrever um soneto e não consegue:

CAPÍTULO LV / UM SONETO

     (...) contarei a história de um soneto que nunca fiz; era no tempo do seminário, e o primeiro verso é o que ides ler:

     Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura!

     Como e por que me saiu este verso da cabeça, não sei; saiu assim, estando eu na cama, como uma exclamação solta, e, ao notar que tinha a medida de verso, pensei em compor com ele alguma coisa, um soneto. A insônia, musa de olhos arregalados, não me deixou dormir uma longa hora ou duas; as cócegas pediam-me unhas, e eu coçava-me com alma. Não escolhi logo, logo, o soneto; a princípio cuidei de outra forma, e tanto de rima como de verso solto, mas afinal ative-me ao soneto. Era um poema breve e prestadio. Quanto à ideia, o primeiro verso não era ainda uma ideia, era uma exclamação; a ideia viria depois. Assim na cama, envolvido no lençol, tratei de poetar. Tinha o alvoroço da mãe que sente o filho, e o primeiro filho. Ia ser poeta, ia competir com aquele monge da Bahia,, pouco antes revelado, e então na moda; eu, seminarista, diria em versos as minhas tristezas como ele dissera as suas no claustro. decorei bem o verso, e repetia-o em voz baixa, aos lençóis; francamente, achava-o bonito, e ainda agora não me parece mau:

     Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura!

     Quem era a flor? Capitu, naturalmente: mas podia ser a virtude, a poesia, a religião, qualquer outro conceito a que coubesse a metáfora da flor, e flor do céu. Aguardei o resto, recitando sempre o verso, e deitado ora sobre o lado direito, ora sobre o esquerdo, afinal deixei-me estar de costas, com os olhos no teto, mas nem assim vinha mais nada. Então adverti que os sonetos mais gabados eram os que concluíam com chave de ouro, isto é, um desses versos capitais no sentido e na forma. Pensei em forjar uma de tais chaves, considerando que o verso final, saindo cronologicamente dos treze anteriores, com dificuldade traria a perfeição louvada; imaginei que tais chaves eram fundidas antes da fechadura. Assim foi que determinei a compor o último verso do soneto, e, depois de muito suar, saiu este:

     Perde-se a vida, ganha-se a batalha!

     Sem vaidade, e falando como se fosse de outro, era um verso magnífico. Sonoro, não há dúvida. E tinha um pensamento, a vitória ganha à custa da própria vida, pensamento alevantado e nobre. Que não fosse novidade, é possível, mas também não era vulgar; e ainda agora não explico por que via misteriosa entrou numa cabeça de tão poucos anos. Naquela ocasião achei-o sublime. Recitei uma e muitas vezes a chave de ouro; depois repeti os dois versos seguidamente, e dispus-me a ligá-los pelos doze centrais. A ideia agora, à vista do último verso, pareceu-me melhor não ser Capitu; seria justiça. Era mais próprio dizer que, na pugna pela justiça, perder-se-ia acaso a vida, mas a batalha ficava ganha. Também me ocorreu aceitar a batalha, no sentido natural, e fazer dela luta pela pátria, por exemplo; nesse caso a flor do céu seria a liberdade. Esta acepção, porém, sendo o poeta um seminarista, podia não caber tanto como a primeira, e gastei alguns minutos em escolher uma ou outra. Achei melhor a justiça, mas afinal aceitei definitivamente uma ideia nova, a caridade, e recitei os dois versos, cada um a seu modo, um languidamente:

     Oh! flor do céu! oh! flor Cândida e pura!

e o outro com grande brio:

     Perde-se a vida, ganha-se a batalha!

     A sensação que tive é que ia sair um soneto perfeito. Começar bem e acabar bem não era pouco. Para me dar um banho de inspiração, evoquei alguns sonetos célebres, e notei que os mais deles eram facílimos, os versos saíam uns dos outros, com ideia em si, tão naturalmente, que se não acabava de crer se ela é que os fizera, se eles é que a suscitavam. Então tornava ao meu soneto, e novamente repetia o primeiro verso e esperava o segundo; o segundo não vinha, nem o terceiro, nem quarto, não vinha nenhum. Tive alguns ímpetos de raiva, e mais de uma vez pensei em sair da cama  e ir ver tinta e papel; pode ser que, escrevendo, os versos acudissem, mas...
     Cansado de esperar, lembrou-me alterar o sentido do último verso, com a simples transposição de duas palavras, assim:

     Ganha-se a vida, perde-se a batalha!

     O sentido vinha a ser justamente o contrário, mas talvez isso mesmo trouxesse a inspiração. Neste caso, era uma ironia: não exercendo a caridade, pode-se ganhar a vida, mas perde-se a batalha do céu. Criei forças novas e esperei. Não tinha janela; se tivesse, é possível que fosse pedir uma ideia à noite. E quem sabe se os vaga-lumes luzindo cá embaixo não seriam para mim como rimas das estrelas, e esta viva metáfora não me daria os versos esquivos, com os seus consoantes e sentidos próprios?
     Trabalhei em vão, busquei, catei, esperei, não vieram os versos. Pelo tempo adiante escrevi algumas páginas em prosa e agora estou compondo esta narração, não achando maior dificuldade que escrever, bem ou mal. Pois, senhores, nada me consola daquele soneto que não fiz. Mas, como eu creio que os sonetos existem feitos, como as odes e os dramas, e as demais obras de arte, por uma razão de ordem metafísica, dou esses dois versos ao primeiro desocupado que os quiser. Ao domingo, ou se estiver chovendo, ou na praça, em qualquer ocasião de lazer, pode tentar ver se o soneto sai. Tudo é dar-lhe uma ideia e encher o centro que falta.

                                    Machado de Assis


     Pois bem, senti-me mexido com tamanha doação, interrompi a leitura e fiquei inquieto, pensativo na grande lição que acabava de receber, talvez a maior lição da minha vida, no que tange à literatura. Machado estava me dando uma aula de como se faz um soneto. (Em outra oportunidade discorrerei melhor sobre esta aula.) E,  num belo dia, dei uma ideia e preenchi o centro que estava faltando:

FLOR DO CÉU

Oh! Flor do céu! Oh! Flor cândida e pura!
Que iluminas a noite com teu lume
Se não vieres acender o cume
Tudo ao teu derredor se enclausura.

Oh! Flor do céu! Oh! Flor tímida e dura!
Habitas com a auréola de nume
Esparzes para longe esse negrume
Que a treva no seu habitar atura.

Oh! Flor do céu! Oh! Flor límpida e bela!
Que mais parece as cores em aquarela
No azul profundo dessa farta malha.

Oh! Flor do céu! Oh! Flor mística e acre!
Quando, das horas, rebentar-se o lacre
Perde-se a vida, ganha-se a batalha!  


                         Miguel de Souza