segunda-feira, 18 de julho de 2022

MOTE E GLOSA

Eu tô que não vejo a hora
da pandemia acabar.

Já chega de ter na cara, 
tapando boca e nariz,
essa peça que eu não quis
de jeito nenhum na cara.
Hoje o mundo se depara 
com a peça sem parar.
Quando tudo vai passar?
A pergunta faço agora!
Eu tô que não vejo a hora 
da pandemia acabar.

Miguel de Souza 

domingo, 10 de julho de 2022

POSSÍVEL SONHO

Ando do lado oposto aos que se acham...
Aos que criticam, julgam todos, tudo.
Como se fossem insensíveis, rudos,
agem. E de beócio eles nos tacham.

Ando contrário a esses que o bico racham,
zombando de todos por serem mudos!
Iludir outros com falácia não iludo,
porque marcho para onde todos marcham.

Ando com os pés frágeis desse jeito, 
pagando o preço caro pelo feito
de ter posto no poder um dos nossos!

Ando com a esperança dessa volta, 
contra a realidade que revolta,
mas ao menos sonhar, acho que posso!

Miguel de Souza 

domingo, 3 de julho de 2022

O MENINO E O TEMPO

Um dia desses eu tive um sonho,
um sonho desses que já não se sonha mais... 
Um dia desses eu me senti menino.
Eu subi na árvore e fiz travessuras.
Um dia desses eu fiquei mais velho.
Eu desci da árvore. Eu deixei de sonhar.

Manoel Assis 


Discorrendo sobre o poema:

Vejo neste poema a árvore como metáfora da própria vida. Quando o poeta diz: "Eu me senti menino." Isto nada mais é do que o ato de nascer, de sentir o peso da matéria e alarmar ao mundo num choro, pedindo leite! "Eu subi na árvore e fiz travessuras.", em outras palavras: eu embarquei nesse transporte que é a vida. E fica nítida a ideia do poeta quando ele diz "e fiz travesduras", ora, senhores, quem faz travessuras, a não ser a criança? E o poema é duro e cruel como é a vida: "Um dia desses eu fiquei mais velho". Passagem do tempo, passagem da vida... em tão belos versos o poeta fala da velhice de uma forma tão doce que chega a emocionar! "Eu desci da árvore,". Eu deixei, por fim, esse meio de transporte que é a matéria, não se esqueçam que árvore e corpo são feitos da mesma matéria-prima, a terra. "Eu deixei de sonhar". A morte propriamente dita. O poeta não morreu, deixou de sonhar. Ora senhores, o poeta ameniza as dores da vida de uma forma tão romântica que chega a nos deliciar num ato tão dolorido para todos que é a própria morte.