domingo, 25 de junho de 2017

SARAU NA ACADEMIA

                                              Clique sobre a imagem para ampliá-la.

sábado, 17 de junho de 2017

CORRE MAIS QUE UMA VELA...


Corre mais que uma vela, mais depressa,
Ainda mais depressa do que o vento,
Corre como se fosse a treva espessa
Do tenebroso véu do esquecimento.

Eu não sei de corrida igual a essa:
São anos e parece que é um momento;
Corre, não cessa de correr, não cessa,
Corre mais do que a luz e o pensamento...

É uma corrida doida essa corrida,
Mais furiosa do que a própria vida,
Mais veloz que as notícias infernais...

Corre mais fatalmente do que a sorte,
Corre para a desgraça e para a morte...
Mas eu queria que corresse mais!
Emiliano Perneta

sábado, 10 de junho de 2017

SANTO ANTÔNIO








A Vós dirijo-me, ó meu Santo Antônio.
Vós, o Santo que tanto, tanto admiro!
Sobre Vós, forte pensamento miro,
para que me livrais do caos medonho!

Vós que unis os casais em matrimônio,
assunto pelo qual, o coração firo!
Mas numa dessas voltas, num giro,
espero que realizais meu sonho!

A Vós, ó meu humilde Santo Orago,
este simples soneto faço e trago,
(uma pequena homenagem a Vós!)

Inundais, ó meu Santo, o mundo vago
de amor, de paz, namoro, de afago...
E dais-nos sapiência a todos nós.    
Miguel de Souza

sábado, 3 de junho de 2017

DOIS NÚMEROS

8

O oito deitado
para dormir
virou símbolo:
- infinito!

Mas, ao levantar-se,
pela manhã,
sempre afoito!

Volta de novo a ser o terminável oito.



Miguel de Souza


9

Não, o nove
não me comove!

Nem move
outro número.
Porque o nove
noves-fora: zero.

Pelo nove
não sinto love!

E quem sentir que prove.


Miguel de Souza


sábado, 27 de maio de 2017

INVASÃO (l)














O Super-Homem pousa no meu solo;
Homem Aranha joga sua teia;
e Capitão Caverna, volta e meia,
larga um grito a tremer o subsolo.

Scooby Doo, com medo, pede colo;
e Salsicha, com fome, pede ceia;
Zé Colméia e Mobi Dicky, a baleia,
fazem um piquenique com Apollo.

Aparece do nada o Gargamel,
na companhia inseparável de Cruel,
pra pegar os Smurfes em armadilha.

E Dick Vigarista leva um tombo,
na corrida pra capturar o pombo,
seguindo, desta forma, a mesma trilha!

Miguel de Souza

domingo, 21 de maio de 2017

PERSONAGENS DA INFÂNCIA


João Bicudo, citado no poema em prosa nº 8, foi um personagem da minha infância que se tornou um “bebum”. A ele dediquei este soneto:


JOÃO BICUDO
      
      Ainda o vejo sem os tropeços da vida, a
      Dedilhar a desafinada viola;
      Ainda o vejo a me ver jogando bola,
      Resguardado p’la infância querida!

Mas o tempo tirou sua nobre lida,
            Foi, na sua vida, essa dura escola;
            Em doses de cachaça, hoje, se atola,
         E adormece ao relento... a esquecida
                
          Vida do nobre amigo João Bicudo.
           Sempre contente, nunca o vi sisudo.
           A me chamar também de Miguelzinho...

           Agora o vejo no correr dos anos,
          Sofrendo, dessa vida, os maiores danos,
          “Bodado” nas calçadas, sempre sozinho!    

Miguel de Souza 







domingo, 14 de maio de 2017

ÀS VOLTAS COM UM POEMA

          Hoje é o dia das mães. Isso me remete a um poema que faz parte da minha vida: "Para Sempre", de Carlos Drummond de Andrade. O primeiro contato que tive com esse poema foi no âmbito escolar. Tocou-me de súbito. Com o correr do tempo fui me esmerando nessa coisa de gostar de poemas, e procurando entender cada vez mais esse gênero literário. E esse poema foi ficando cada vez mais genial na minha ótica.
          Costumo dizer que: "se Drummond não fizesse mais nada depois de tê-lo feito, mesmo assim seria o grande poeta que o foi." Durante um determinado tempo desisti de abordar esse tema, por causa desse texto. Achava que depois de "Para Sempre", tudo o que se dissese, seria bobagem. Até que, numa conversa com a poetisa Ana Zélia, fui convencido a encarar novamente o tema. Foi aí que surgiu o meu soneto "Você é Incrível", onde agradeço à minha mãe pela dor do parto. E tantos outros poemas que compus às mães.
          Segundo minha maneira de lidar com o poema, o poeta ao começar seu texto, não pode,  de maneira alguma, perder em qualidade no verso seguinte. É como se os versos competissem para o êxito do texto. Um bom poema vai sempre ganhando em qualidade até o seu desfecho. É aí que está a genialidade desse texto de Carlos Drummond de Andrade. Ele começa muito bem e consegue manter essa qualidade no decorrer do texto até o seu desfecho. Isso é para poucos. Outro fato que me chamou atenção foi o questionamento, pois Drummond questiona Deus do começo ao fim do texto sobre a morte. (a existência.)

PARA SEMPRE

Por que Deus permite
Que as Mães vão-se embora?
Mãe não tem limite
É tempo sem hora
Luz que não apaga
Quando sopra o vento
E chuva desaba
Veludo escondido
Na pele enrugada
Água pura, ar puro
Puro pensamento
Morrer acontece
Com o que é breve e passa
Sem deixar vestígio
Mãe, na sua graça
É eternidade
Por que Deus se lembra
-Mistério profundo-
De tirá-la um dia?
Fosse eu rei do mundo
Baixava uma lei:
Mãe não morre nunca
Mãe ficará sempre
junto de seu filho
E ele, velho embora
Será pequenino
Feito grão de milho.

Carlos Drummond de Andrade

domingo, 7 de maio de 2017

HAICAI



O haicaista deve estar sempre atento às coisas da natureza. Pois a qualquer momento poderá ser brindado com esta arte criada pelos japoneses, mas não deve ir de encontro a ele, como se percebe em alguns. O haicai acontece naturalmente e deve ser captado pelo haijin no momento exato. Por exemplo: certa feita vinha eu de moto num lugar onde havia muitas mangueiras e vislumbrei a queda de uma manga a se espatifar no chão, de súbito o haicai se apresentou a mim:    
                                                                                               
          Dura recepção:
  A manga madura sangra
  No asfalto do chão.

Outro dia presenciei uma cena que estava adormecida dentro de mim. A libélula se contorce e fica igualmente a um “c”, para molhar a sua cauda. Quantas vezes fui testemunha desse episódio no meu tempo de guri, e tinha me esquecido de tal alumbramento. Ao perguntar sobre o porquê daquele movimento, responderam-me que ela estava lavando a bunda. Pronto, o haicai estava feito.

Libélula afunda
A cauda n’água! E o homem malda:
-Tá lavando a bunda!             

N’outra ocasião, assistindo a um documentário, mais uma cena adormecida despertou em mim um haicai. O galho da árvore tremendo após o voo do pássaro. Como um garoto interiorano, foram muitas as vezes que presenciei tal cena. Mais uma vez sou brindado pela natureza com mais um haicai.

           Galho treme após
O vôo do silente pássaro.
 Momento sublime!

Estou contando essas coisas porque esta semana fui testemunha de mais uma cena que me sugeriu um haicai. Assisti a queda de um cupuaçu e fiquei ali, contemplando o balançar do galho. Algo ao alcance de qualquer ser humano, mas só o poeta ou o haijin, que olha pra tudo com um olhar diferente, pode captar disso tudo poesia ou haicai.

Balançar de galho:
No vão entre árvore e chão,
Cupu sem atalho.

                                                                                                            Miguel de Souza


   

sábado, 29 de abril de 2017

ALGUNS DIZERES SOBRE O POEMA: "POEMA BRASILEIRO" DE FERREIRA GULLAR


Introito de uma análise

“Lembrando que a interpretação de um texto -quando feita por uma só pessoa- é necessariamente imcompleta, isto é, aberta a complementação de novas e

enriquecedoras leituras do texto.” 


POEMA BRASILEIRO

No  Piauí de cada 100 crianças que nascem
78 morrem antes de completar 8 anos de idade

No Piauí
De cada cem crianças que nascem
78 morrem antes de completar 8 anos de idade

N Piauí
De cada 100 crianças
Que nascem
78 morrem
Antes
De completar
8 anos de idade

Antes de completar 8 anos de idade
Antes de completar 8 anos de idade
Antes de completar 8 anios de idade
Antes de completar 8 anos de idade

Ferreira Gullar


          O texto Poema brasileiro de Ferreira Gullar, é um poema de cunho social, tema bastante explorado em sua obra. O poeta transforma aquilo que poderia ser lido como uma mera notícia de jornal em poesia. É um poema em que a estrutura é fundamental  para a mensagem do autor. É trágico do ponto de vista humano... Já que o homem procura adiar a morte até às últimas consequências. Guarda certa semelhança com o poema O bicho de Manuel Bandeira, pois, em ambos, o descaso com a vida humana é visível.
          Observando o todo do poema, cheguei à conclusão de que o poeta desenhou o Brasil em seu texto. Pois a estrutura do poema imita o mapa do Brasil. O Piauí que é apenas uma parte desse País é colocado como exemplo de algo ruim que poderá se alastrar por todo o território nacional. Talvez por isso, a idéia do mapa do Brasil na estrutura do poema. A função da linguagem que antes era informativa é trasnformada em poética. , exatamente por causa dessa estrutura. O que ocorre também com os níveis da língua: de popular a literário.
          Há, no texto, certa alternância de vogais abertas e fechadas que contribuem para mais uma mensagem do escritor que está implícita nas entrelinhas do poema. Ex: No Piauí de cada 100 crianças que nascem / 78 morrem antes de completar 8 anos de idade. O que me leva a entender que segundo o autor, há pessoas lucrando com a desgraça daquela gente. enquanto outros choram suas mortes, eles riem dessa desgraça, um fator político, infelizmente.
          O texto Poema brasileiro faz parte da obra Dentro da noite veloz de Ferreira Gullar, que foi escrito entre os anos de 1962 a 1975, e que infelizmente continua atual. Como um poeta que tem compromisso com a verdade, Ferreira Gullar não se absteve em mostrar as mazelas do seu tempo em sua obra.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

8

Ambulo às 4 horas na Almir Pedreira, enquanto todos têm compromisso com o sono. Cumprimento João Bicudo às 4 horas na Almir Pedreira. A  Almir Pedreira às 4 horas é mórbida. Somente velhos cães sardentos me recepcionam às 4 horas na Almir Pedreira. Há um vagar constante, um soluçar de poste sem vida humana, nenhuma trápala na Almir Pedreira neste agora.  

Miguel de Souza 

domingo, 16 de abril de 2017

INVASÃO

Veio o Pateta com sua patota,
invadir o meu lúgubre espaço;
logo surge fortíssimo Homem de Aço,
perfazendo também a mesma rota.

                                                           Em seguida, veio o espacial Jota
                                                           Quest, para me dar um grande abraço;
                                                            e Mulher Maravilha joga o laço
                                                            no Pé de Pano, que não mais trota!

Tartaruga Touchê, cheio de rugas,
rapidamente dali, parte em fuga,
e, para mim, sequer ele dá bola!

                                                            Donald trouxe com ele os Sobrinhos,
                                                            e Piu-Piu: “acho que eu vi um gatinho”,
                                                            Denuncia à Vovozinha o Frajola.


                                                Miguel de Souza

sábado, 8 de abril de 2017

HOMENAGEM

Neste dia 08 de abril seria o aniversário de minha Mãe. A ela este soneto:

GRATIDÃO

Venho neste soneto, oh, Mãe querida,
nesta data em que se comemora
o Vosso dia... Venho sem demora,
agradecer-Vos pela minha vida!

Pois quando era indefeso, sem saída!
Nas primeiras, premissas, faustas horas,
num tempo insenciente de outrora,
amparastes-me em Vossa nobre lida.

Hoje, depois de tanto tempo, homem feito,
ainda sinto a gratidão no peito,
pelo carinho àquele ser franzino...

Mas eu tenho certeza, a maior láurea,
foi ter nascido da Senhora D. Áurea,
para poder cumprir o meu destino.

Miguel de Souza

sábado, 1 de abril de 2017

HOMENAGEM

Neste 1° de abril meu pai faria aniversário. Minha homenagem a ele com este soneto:

saudade

a saudade o tempo leva,
e traz no dia seguinte...
e soma-se mais de vinte
anos que, naquela leva,
te foste deste convívio,
habitar em outra esfera!
de repente esta atmosfera,
a teus pés tornou-se ínvio.
agora és todo abstrato:
-fiel criatura no adro-
a tua imagem no quadro,
imitando o teu retrato,
           dignifica a memória
           daquele que ficou na história.

Miguel de Souza

sábado, 25 de março de 2017

FRUTAS DA MINHA INFÂNCIA










JENIPAPO


Na árvore desconforme,
de pele cinza, enrugado,
soturnamente, ele dorme
no galho dependurado.
Reina assim o jenipapo,
fruta gostosa da infância,
com toda sua substância,
para nutrir todo o papo
daqueles que, iguais a mim,
saboreiam o seu sumo.
Pois, neste soneto assumo,
e brindo com um tintim,
               a sua existência, oh, fruta
               que meu paladar desfruta.

Miguel de Souza

sábado, 18 de março de 2017

O ABRAÇO

Um abraço apenas, quem me daria?
O vento que me acaricia o rosto, os sonhos que transportam aos lugares mais longínquos do planeta?
Os filhos que coloquei no mundo.
Os fantasmas que cruzaram e sombreia meus caminhos?

Não sei. Qualquer resposta seria inepta, faltariam argumentos convincentes.
Passei dos trinta, sessenta, caminho a passos largos aos noventa.
No outono da vida, a natureza começa a traçar novos riscos, marcas; sulcos mais
profundos vão ficando na pele flácida.

Somos árvores envelhecidas, corroídas pelos cupins, aguardando um vendaval mais forte para
tombá-las, deixando à mostra suas raízes.
Sinais do tempo.

Algumas pelo nome e qualidade da madeira sobrevivem em peças mortas, entalhadas; outras queimarão nas caieiras, caldeiras, transformadas em carvão de pedra ou pó...

E o abraço? Este ato tão simples e importante.
Ficará para um futuro.
BEM MAIS DISTANTE.

Ana Zélia

P.S.: Para relembrar a minha querida amiga Ana Zélia, uma das mulheres mais dignas que conheço. Compactuo contigo deste sentimento, a falta de um abraço é algo que também sinto. Não foi à toa que escrevi também o meu POEMA DO ABRAÇO, e, numa crítica, abraço todos os personagens criados por mim, na ausência de um verdadeiro abraço.

sábado, 11 de março de 2017

O ACENDEDOR DE LAMPIÕES

Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
Parodiar o sol e associar-se à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente!

Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite aos poucos se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.

Triste ironia atroz que o senso humano irrita:-
Ele que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.

Tanta gente também nos outros insinua
                        Crenças, religiões, amor, felicidade,
                        Como este acendedor de lampiões da rua!

Jorge de Lima

sábado, 4 de março de 2017

DOIS SONETOS PARECIDOS

No soneto XXI da Rua dos Cataventos, Mário Quintana dedica um soneto aos seus amigos mortos. Um tanto trágico, não fosse a beleza com que o poeta encara o tema. Quintana tem muito disso, falar das coisas trágicas de uma forma tão doce que encanta a todos.
XXI
                                                Para os amigos mortos

Gadêa... Pelichek... Sebastião.
Lobo Alvim... Ah, meus velhos camaradas!
Aonde foram vocês? Onde é que estão
Aquelas nossas ideais noitadas?

Fiquei sozinho... Mas não creio, não,
Estejam nossas almas separadas!
Às vezes sinto aqui, nestas calçadas,
O passo amigo de vocês... E então

Não me constranjo de sentir-me alegre,
De amar a vida assim, por mais que ela nos minta...
E no seu romantismo vagabundo

Eu sei que nestes céus de Porto Alegre
É para nós que inda S. Pedro pinta
Os mais belos crepúsculos do mundo!...

Mário Quintana
In: Rua dos Cataventos
P. 39

Em Caminhos da Alma, Almir Diniz dedica um soneto aos seus amigos boêmios da cidade. Em tom nostálgico, o soneto de Diniz não chega a ser tão trágico como o de Quintana. Mas achei deveras parecido ambos por se tratar do mesmo tema, a saudade.  

BUSCA
           Aos boêmios da Cidade, representados por Iran Caminha, J. Corrêa Lima, Chico Veiga.

Onde andam tantas lindas madrugadas,
Cheias de amor, de cores, de ternuras?
Tantas manhãs de luz e tantas juras,
Tantas noites febris... e as luaradas?

Onde andarão os velhos camaradas
Partícipes fiéis das aventuras
Nos botequins da vida, das loucuras...
Dos serões, violões, e das rodadas?

Rebusco no escaninho da memória
Os elos esquecidos dessa história
Vivida entre os boêmios da Cidade...

E só o que vem são sons de beijos,
De flautas, cavaquinhos, realejos,  
De copos, de canções... e de saudade!

Almir Diniz
In: Caminhos da Alma
P: 49

  


sábado, 25 de fevereiro de 2017

A BRUXA

Nesta cidade do Rio
De dois milhões de habitantes
Estou sozinho no quarto
Estou sozinho na América.

Estarei mesmo sozinho?
Ainda há pouco um ruído
Anunciou vida a meu lado.
Certo não é vida humana,
Mas é vida. E sinto a Bruxa
Presa na zona de luz.

De dois milhões de habitantes!
E nem precisava tanto...
Precisava de um amigo,
Desses calados, distantes,
Que lêem verso de Horácio
Mas secretamente influem
Na vida, no amor, na carne.
Estou só, não tenho amigo,
E a essa hora tardia
Como procurar amigo?

E nem precisava tanto.
Precisava de mulher
Que entrasse nesse minuto.
Recebesse esse carinho
Salvasse do aniquilamento
Um minuto e um carinho loucos
Que tenho para oferecer.

Em dois milhões de habitantes
Quantas mulheres prováveis
Interrogam-se no espelho
Medindo o tempo perdido
Até que venha a manhã
Trazer leite, jornal, calma.
Porém a essa hora vazia
Como descobrir mulher?

Esta cidade do Rio!
Tenho tanta palavra meiga,
Conheço vozes de bichos,
Sei os beijos mais violentos,
Viajei, briguei, aprendi.
Estou cercado de olhos,
De mãos, afetos, procuras.

Mas tento comunicar-me,
O que há é apenas a noite
E uma espantosa solidão.
Companheiros, escutai-me!
Essa presença agitada
Querendo romper a noite
Não é simplesmente a Bruxa.
É antes a confindência
Exalando-se de um homem.

Carlos Drummond de Andrade

sábado, 18 de fevereiro de 2017

O SANTO QUE BAIXOU NO TERREIRO

O Santo que baixou
no terreiro
incorporado no
"cavalo"
Trouxe a todos
um abalo
e ao "sacaca"
primeiro,

O Santo que baixou
no terreiro...

O Santo que baixou
no terreiro
tirou um ponto
bonito falando de Paz
e Amor
e que depois da
dor
é a vez do
infinito,

O Santo que baixou
no terreiro...

O Santo que baixou
no terreiro
usou um "pito" pro
defume
descarregou os seus
médiuns
(Com o melhor dos
remédios)
Pediu força, às mentes
lume,

O Santo que baixou
no terreiro...

O Santo que baixou
no terreiro
Saravou todos
os filhos
despediu-se do
congar
e retornou a
Oxalá!

O Santo que baixou
no terreiro.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

CURIOSIDADE LITERÁRIA

Em agosto entrei numa lanchonete para merendar. Lá pelas tantas, se aproxima uma moça, perguntando qual a minha religião. Sou católico, respondi à moça. Pediu-me uma ajuda para a sua igreja, e me ofereceu um escapulário e uma imagem de um Santo por R$ 2,00. Coloquei a mão no bolso e, como não tinha dinheiro trocado, entreguei a ela R$ 10,00, esperando evidentemente, R$ 8,00 de volta. Ela avançou sobre a nota de R$ 10,00 como um faminto avança sobre um prato de comida. Estranhei aquele comportamento. - Espera aí disse a moça, que vou ali trocar o dinheiro e trazer o restante. Assim que ela saiu, o atendente da lanchonete disse: - ela não volta mais, você caiu no golpe! - Se ela me enganou, problema dela, respondi ao atendente meio sem jeito. Ao pagar a merenda para a caixa, que já me conhecia, pois não é de hoje que freqüento a lanchonete, ela me disse: - eu trabalho aqui há 20 anos, não são 20 dias, eu sei distinguir todo tipo de pessoas que entram aqui, se você quiser praticar a caridade a alguém, reserve um pouco do seu dinheiro para os idosos que estão desassistidos nos asilos, para os doentes esquecidos nos hospitais, para as crianças que estão nas casas de misericórdias, enfim... Tomei isto como lição. Mais tarde, escrevi o soneto abaixo, talvez para desabafar, não sei, enfim, eis o soneto:


SONETO BRUSCO
                                        A uma golpista

Coitado de quem tenta, num engodo,
Enganar o outro ardilosamente,
Com astúcia, com artimanha, crente
De que... E sair de cena com apodo

De golpista, a viver metido em lodo!
Coitado de quem, para enganar, mente,
Usando de má fé com toda a gente,
E que com isto, vai me ferrar todo.

Coitada dessa gente desonesta,
Que veio ao mundo atrapalhar a festa,
E que não sabe nem viver a vida.

Coitada de quem se acha sempre esperta,
De quem pensa que dessa forma acerta,
Mas está enganando-se a si, querida!

Miguel de Souza
        

  

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

PINGUE-PONGUE

Nas fábricas por onde trabalhei, depois do almoço há aquilo que já se tornou praxe, a famosa hora da sesta. Mas há também aqueles que ignoram a sesta e preferem se aventurar como verdadeiros esportistas. Pimbolim, sinuca, pingue-pongue... enfim, os mais variados jogos são apresentados nessa mirrada hora. Também me aventurava nesse entretenimento vez ou outra, foi aí que me transformei não num extraordinário jogador de pingue-pongue, mas pelo menos, num sujeito bem competitivo. E o resultado disso é um poema em que, na sua estrutura, tento imitar um jogo de pingue-pongue. Observe:



Pingue
                               Pongue
Pingue
                               Pongue

É o som da bolinha frágil
Quando bate na raquete!

                                Pingue
Pongue
                                Pingue
Pongue

É o que faz a bolinha ágil
Neste jogo em que se compete!


Miguel de Souza 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

SOB O VÉU DA AMIZADE

A Rosa
                                               Para Rosa Helena
Tu és, no jardim da vida, a
Rosa das rosas de fato!
De sorriso franco e lato,
todo dia nessa lida!
Tu és a Rosa que não finda,
a que não se despetala,
e do teu âmago, ainda, 
um suave perfume exalas!
Tu és a nossa Rosa imóvel,
a balançar pernas, braços...
Avessa a todos os ócios,
na paisagem dos espaços.
            Tu és a Rosa mais querida, a
            florir no jardim da vida!

Miguel de Souza




domingo, 29 de janeiro de 2017

UMA JUSTA HOMENAGEM

Uma amiguinha de escola da minha sobrinha Fernanda Souza, ao me saber poeta, me mandou um poema do Fernando Pessoa escrito numa folha de caderno com sua própria letra. Gostei tanto desse gesto que resolvi agradecê-la com um poema que intitulei de Canção para Lídia. Vide:

CANÇÃO PARA LÍDIA

Obrigado minha querida,
pelo poema tão lindo!
Que adocicou minha vida,
e me deixou sorrindo!...    

É bom saber que no mundo,
há pessoas iguais a você...
Que no cerne, lá no fundo,
gostam de ler e escrever!

Que lição você me deu!
E que surpresa tão boa
receber esse poema! Logo eu,
que adoro Fernando Pessoa!

Miguel de Souza


quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

POEMA DO ABRAÇO

                                                                          Aos meus verdadeiros amigos
Quero mandar um abraço pro Zeca Tinga,
O bisneto do Seu Nava.
Ah, e um abraço pro Seu Nava também.
Pra Dolores Mafra, o meu comportado abraço.
E pro Rodolfo Lopes, um grande abraço!
E para aquele que nunca foi do contra,
O meu queridíssimo amigo Jota Lontra,
Um forte abraço!
Pro Aprígio Bittencourt Fagundes Louro,
O meu, não menos fervoroso, abraço!
E pro Gonçalves Alves,
Vai o meu abraço também.
Só quem não ganha abraço neste poema é a Gertrudes.
Porque a Gertrudes merece algo acima de um abraço!     

                                                             Miguel de Souza

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

PEQUENA ABORDAGEM SOBRE O POEMA LIRA INFAUSTA

LIRA INFAUSTA

 Quando a flecha do destino
 Feito luz de estrela ingrata
 Varar-lhe o amargo peito,
 Cessará o Amor-imperfeito
 Que habitam os tormentos?

 Oh, Lira infausta da morte
 Tu que és tão bela e sábia
 E embala o coração que sofre
 Finda essa triste noite que corre
 Feito largo e tenebroso rio.

 Dá-lhe jazigo ao moribundo cravo
 E faz o canto da rasga mortalha
-Sombrias e tristíssimas cantigas-
 Velar as mazelas adormecidas
 Que regam seus eternos pesares!

 E, quando o palácio azul do céu
 Abrir o fosco véu de suas portas
 Possam as lágrimas opulentas
 Sobrestar as dores violentas
Que enluta o seu infeliz coração!

                                         Eylan Lins




            Numa breve passagem pelo título, para poder entender a junção dessas palavras, cheguei à seguinte conclusão: lira, como se sabe é um instrumento de cordas dedilhadas usado na antiguidade. Mas no sentido figurado, quer dizer criação poética, poesia. Já a palavra infausta significa infeliz, funesto. Isto me faz entender que Lira Infausta significa poesia infeliz. (Ou canção infeliz, para soar melhor.)
O texto em questão foi dividido em quatro estrofes de cinco versos cada. Sem rimas perfeitas e heterométricos. O que me faz entender que é um texto de forma livre. Nos três primeiros versos o poeta usa da metáfora para falar da morte. “Quando a flecha do destino / Feito luz de estrela ingrata / Varar-lhe o amargo peito [...] Ora, o que é essa flecha do destino? E essa luz de estrela ingrata? (há aqui uma inversão de valores: as estrelas não nos devem gratidão, por isto, não podem ser ingratas.) A varar o amargo peito? Se não a própria morte. Nos dois últimos versos da primeira estância, o autor se abstém de qualquer afirmação sobre uma continuação da vida após a morte: Cessará o amor imperfeito / Que habitam os tormentos? [...]
    A segunda estrofe é um diálogo entre o eu poético e a morte. Há aí a entrega do que ele tanto resguardara na estância acima. Traz nos três primeiros versos palavras como bela, sábia, sofre que se entremeiam costurando como se fosse uma teia a conceituar a morte. E nos dois últimos versos, o apelo seguido de uma comparação: Finda essa triste noite que corre / Feito largo e tenebroso rio.
Na terceira estância duas palavras me chamaram a atenção cravo e regam, coincidentemente ou não, no primeiro e último verso. Duas palavras que se locupletam que se interdependem. Mas que estão distantes no poema. O eu poético se autodenomina cravo, um cravo convalescente e, logo, o poeta invoca a rasga mortalha que anuncia com seu canto agourento a morte. O autor transforma duas palavras aparentemente boas, sublimes; em palavras obscuras, más: Dá-lhe jazigo ao moribundo cravo / [...] Que regam seus eternos pesares!
Na quarta e última estrofe do poema, por fim, o  eu poético se vê defronte de sua morte! E quando o palácio azul do céu / Abrir o fosco véu de suas portas [...] Nos três últimos versos, o poeta nos fala do arrependimento e nos entrega a palavra infeliz numa referência ao título, quem sabe.      





sábado, 14 de janeiro de 2017

POESIAS MEDIÚNICAS

OBRAS PÓSTUMAS

Oh! Mundo tão cruel, tão vil que ignora
As obras póstumas dos mores vates,
Que inundaram os livros com sua arte,
Nos tempos idos que viveram outrora!

Que lição, que mistério encerra agora,
As obras desses grandes baluartes?
Nesse continuar-contínuo sem descartes,
Quando minha cabeça rememora

Os seus poemas feitos em vida...
A mesma inspiração neles contida,
Mas, dirigida para um só tema!

Essa lição que cada vate encerra,
Longe das ventanias desta terra,
Retratados com todo ardor nos poemas.

Miguel de Souza


IRMÃOS DO MUNDO

Irmãos do mundo, a vida continua...
Morrer não é chegar ao fim da estrada.
Da escura noite que julgais o nada
Uma existência nova se insinua...

Após deixar a cova fria e nua
O corpo desgastado na jornada,
Foi que minh'alma de sofrer cansada
Fitou a luz que as mágoas atenua...

Não choreis vossos mortos, não choreis,
Questionando ao Senhor e às suas leis,
Que nos ensinam a viver e a amar.

Não creiais em adeus, nem despedidas,
Pois vossas afeições, as mais queridas,
Aguardam-vos na Luz do grande Lar!...

Vinicius de Moraes (1913-1980)
 In: Jardim de Estrelas, por Carlos A, Baccelli
da Casa e Editora Espírita Pierre-Paul Didier - Votuporanga -SP.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

EM SEARA NOVA

Estava com vontade de escrever, mas não sabia o quê. Se poema, ou alguma coisa em prosa para o regozijo momentâneo. E se fosse poema, o que seria? Haicai? Soneto? E se soneto, que tipo de soneto? Italiano ou inglês? Talvez um poema minimalista que tanto gosto? Ou uma balada que tenho muita dificuldade em compor? Devo ter uma meia dúzia que nunca mostrei a ninguém. Só sei que estava com uma vontade imensa de escrever.
Então, fui ao computador. Primeiro pensei num soneto italiano, mas só pensei sem tentar um verso sequer. Seria improvável. Depois arrisquei uma palavra de um pretenso verso em prosa para Hilda Furacão que havia falecido em terras estranhas. Sem muito sucesso, a ideia de um haicai passou longe de mim naquele momento. Um indriso talvez? Mas indrisos são bem humorados e não estou de bom humor ultimamente. Berceuse? Não tenho criança alguma para ninar. Rondel? Tenho tão poucos. Melhor não.
Que tal me aventurar na prosa? Já que sou o autor de um único conto até agora: “O homem que chovia dinheiro”, que cometi o disparate de extraviá-lo, e não sei cadê. Já revirei o mundo atrás e nada! Ou quem sabe uma crônica? Não, acho que não me atreveria, sei lá! Podem mangá de mim. Mas o que faço com essa vontade de escrever, sem saber ao certo o quê?
Espera lá! Só sei que não quero me estender muito. Já é alguma coisa. Temos uma pista sobre o texto prematuro que quer vir à tona. Sim, é curto e em prosa. O quebra-cabeça está se formando... E pode ser dessas experiências novas, como um microconto, por exemplo. 

Então vamos a ele:

Era tarde, chovia em mim... -Na manhã vindoura farei tua canção que se prepara há muito sem pressa alguma. Cristina Beatriz, a Cris Bel era toda sol naquela madruga de novembro. Gostava dela, porque ela vinha junto sem pudor! Remava firme contra a correnteza. “Mais uma dose/ é claro que eu também tô a fim/ a noite nunca tem fim” [...] Cazuza cantava no velho quarto emprestado por um amigo.
-Amanhã te celebro num poema. -Mais um... -Já são quantos mesmo? -Ah, não sei! Com esse acho que uns quinze. -Puxa! -Você merece. -Em quase todos revelo teu nome. -Sou transparente. Ao levantar-se pela manhã, Cris Bel deixou uma frase na porta da geladeira: “o amor é uma franja azul”. Foi mais um verso de um poema meu dedicado a ela.


sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

SOB ENCOMENDA

SAMUEL, UM BROTHER DE SEMPRE.

Toda vez que encontro com o Samuel o papo flui que esquecemos até da hora. Ele trabalha como vigia num material de construção aqui perto de casa. Goleiro nas horas vagas, um artista plástico de mão cheia é o cara.
Certa ocasião ele me encomendou um poema para uma determinada garota. Disse-me algumas características dela e perguntou se seria possível sua composição. Respondi a ele o que sempre digo quando me pedem um poema. Que não daria certeza! Mas que iria tentar, enfim... Madurei as ideias e aconteceu o poema. Eu disse:

Tem um “quê” de mistério
Incrível que me fascina!
Não traz o rosto sério
Nesse corpo de menina

Talvez por ser álacre
E nem um pouco soturna
A vida não abriu o lacre
Das borrascas noturnas

Ainda! Por isso esse ar
De tanta felicidade! Essa
Imensa sede de amar! E
Forte a personalidade!

Não sei o que o Samuel fez com esse poema. Só sei que gostei do poema que fiz para uma musa desconhecida, embora seja a pretendente do meu amigo. Mas ela não precisa saber, vai!