sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Ana Zélia da Silva (16.11.1943 - 16.10.2017)



PERFIS

Da performance da atriz
que nos palcos está em voga,
da advogada que não advoga
pelos cantos do país.

Da mulher que nunca joga
e sempre soube o que diz,
da locutora de folga
retrato aqui seus perfis.

Da poetisa aguerrida
pelas coisas da Amazônia:
-um símbolo em nossas vidas!-

Um exemplo de coragem, e
como todo vate sonha,
a Ana Zélia esta homenagem.

Miguel de Souza
In: Poemais
P. 53

P.S. A minha gratidão sempre a Ana Zélia da Silva, ela que surfava nas ondas sonoras de uma rádio, divulgando os valores da terra no seu Momento Poético. Quanta saudade!


TRAVESSIA DA POETA

O barco chegou.
A poeta atravessou.

Mas antes cantou
a última canção:

Uma balada emotiva
de sonora comoção.

Celebrou a vida.
No badalar do coração.

O barco chegou...

Gadi

*Homenagem do Gadi ao saber do passamento da poetisa.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

MILAGRES DE NOSSA SENHORA APARECIDA

                                                
                                                                                                                                                  







A LIBERTAÇÃO DO ESCRAVO ZACARIAS

O escravo Zacarias parte em fuga,
Por achar esquisita a sua vida;
E é capturado logo em seguida,
Por seu senhor que o prende e o subjuga.
                 
Mas quando, ao ser levado de volta,
Passaram próximo da capelinha,
Ele pediu pra junto à imagenzinha,
Apesar de ser vítima de escolta,

Rezar com sua fé na Virgem Santa.
A fé em Nossa Senhora foi tanta,
Que as correntes e argolas que ele tinha,

Romperam-se e quedaram-se aos seus pés!
Seu senhor deu-lhe a sua liberdade,
E Zacarias, um dos filhos mais fiéis.


O pequeno mendigo paralítico

A imagem da Virgem Santa: Nossa
Senhora da Conceição Aparecida,
Diante daquela gente tão sofrida,
que se acotovelavam a Vossa

presença, ávidos por um milagre;
parece exercer algum fascínio,
por internalizar em seus escrínios,
curas a quem o povo Vos consagre!

Pois, veio de Barra Mansa a notícia,
De um menino quase paralítico,
Que ouviu o conselho de um missionário.

Envolto no apogeu de suas primícias,
Tendo na Virgem Santa, algo mítico,
O mesmo foi curado com o novenário.


 A menina esfaqueada

A imagem da Santa estava esposta,
E vinha todo dia rezar uma menina,
Que tinha sido péssima a sua sina,
Pois, fora vítima de uma ira posta a

Ela, por um imigo de seu pai!
Que, com ares maldosos, assassinos,
Mudara o curso do seu destino,
transformando sua vida num grande ai!

Um dia, pede à sua mãe uma moeda,
Para depositar ao pé da imagem,
Impossível para alcançar a altura!

Com fé, e sem temer aquela queda,
A menina vestiu-se de coragem,
E ofertou-a à Santa. E obteve a cura!


Diante de uma onça feroz

Este fato narrado por carta,
Ocorreu na Fazenda das Araras:
Tiago Terra que por lá andara,
E de Nossa Senhora não se aparta,

Foi surpreendido por uma feroz
Onça, que atravessou seu caminho;
Sem armas e, sem forças e, sozinho...
Só lhe restou recorrer-vos a Vós!

E deu um grito forte de socorro:
– Valha-me, minha Mãe Aparecida!
Que a onça assustada saiu à direita,

Deixando Tiago ileso, num modorro,
Agradecendo à Santa pela vida,
Por ser até hoje pessoa escorreita!


A serra elétrica parou milagrosamente

Dos milagres de Nossa Senhora,
Esse foi mais um feito nessa terra:
De ter parado a elétrica serra,
No exato instante, em cima da hora

De decepar o braço do Seu José.
Que estava a fazer um reparo,
Sem saber que custava tão caro, e
Foi salvo, dessa forma, pela fé!

Pois ele ficou com o braço preso,
Mas saiu daquilo tudo são, ileso,
P’la fé depositada em Nossa Senhora.

E naquele momento de perigo,
Clamou à Nossa Senhora Aparecida! E digo
Que ele foi atendido nessa hora!
            
 Sentiu um toque sobrenatural e ficou curada

Desenganada pela medicina,
Recolhida, imóvel, ao seu leito,
Sua vida não teria outro jeito,
Era mesmo de dar dó sua sina!

Foi quando teve a ideia de pagar
Uma promessa feita, e não cumprida!
A Nossa Senhora Aparecida,
E ir à Vossa capela visitar.

Após longo tempo de muita reza,
Como uma devota que se preza.
Sentiu um toque sobrenatural!

Com muito esforço conseguiu mover-se,
Daí a pouco, por completo, locomover-se,
Afastando de si aquele mal!

Miguel de Souza




sábado, 7 de outubro de 2017

DOMINGO

                                                                                             
Domingo não é dia de feira.
É dia de fazer feira.
Dia de feira é de segunda a sexta.
Exceto o sábado, é claro.


                         Miguel de Souza

sábado, 30 de setembro de 2017

SOBRE POEMAS



Outro dia, encontrei um poema solto dentro do livro de um poeta espanhol que havia conhecido em trânsito por Manaus. Sinceramente não me lembro de quem, e nem como esse poema foi parar lá! No final do texto, deparei-me com uma assinatura, creio eu, do autor daquela obra. Mesmo assim, não me ocorreu a lembrança de ninguém.
Costumo guardar todos os poemas que recebo de amigos poetas. Tenho vários... Mas não conheço nenhum Noel Yvel. Poderá ser um pseudônimo talvez, não sei! Um dia, quem sabe, quando estiver com a cuca fresca, eu me recorde desse nobre poeta e, depois de uma boa gargalhada, peça desculpas a ele, pelo mico do esquecimento.
Ou quem sabe, você meu “anônimo amigo” está lendo este texto, nesse exato momento, e se divertindo com essa situação. Certa feita, numa conversa com uma amiga, proferi a seguinte frase: “não vejo o poeta na poesia, e sim, a poesia no poeta.” Isto deve consolar-te um pouco, acho. O fato é que nunca mais me esqueci desta frase que soou como um pensamento. Assim como acho que quem deve aparecer é a minha poesia, e não eu.
Achei deveras interessante teu poema meu caro. É emblemático. Enigmático. Filosófico. Espiritual. Fala de amizade. Parece realmente me conhecer profundamente, se é que alguém conhece alguém profundamente. E no final se despede com um adeus. É lindo e triste!
Não sou um sujeito curioso. Mas gostaria realmente de saber quem seria o poeta de tão maravilhoso poema que estava ali, dentro daquele livro, esperando uma mão que o recolhesse para a salutar leitura. Lembrou-me um soneto que fiz outro dia: “Apresentação”, pelas circunstâncias que os envolve.


ANÔNIMO AMIGO

Irmão,
sou teu anônimo amigo, laboras como eu
todo dia de sol a sol.
Em te ver, eu me vejo.
Porque também vivencio esta busca
que alguns chamam de felicidade.

Todo dia eu te vejo. Você também me vê.
O teu semblante hoje é diferente de ontem.
Também, eu sou diferente.
Nós temos mil faces. Porém , somos os mesmos
de todos os dias.

Teu nome? O que fazes? Não sei! Oxalá soubesse.
Maior seria minha admiração por ti.
Quantas qualidades tu ocultas, exclusivamente tuas.

Sabe amigo,
talvez nunca mais nos encontremos.
Porém, recebe de mim profundo sentimento de gratidão.
Pois, contigo aprendo dia a dia,
a suportar as dores do mundo.
Obrigado meu anônimo amigo,
que a paz do Senhor te acompanhe.

Noel Yvel 

sábado, 23 de setembro de 2017

O POVO

                                         Ao povo brasileiro
1      
                                  O povo, na verdade, é um cavalo,
2                                                       Que colocaram nele uma antolha!
3                                                        Direcionando-o para onde ele olha,
4                                                        Causando na nação grande abalo.

5                                                         E quando, com alguns deles, resvalo,
6                                                         Com dó fico, por essa tal escolha!
7                                                         Eles são como o vento, e o povo a folha,
8                                                         Que é levado por eles ao ralo!...

9                                                          “Liberta Barrabás e prende Jesus”,
1                                   A plebe, sem inteligência, luz,
1                                   Clamou assim praticando injustiça.

1                                                           O povo, no passar do tempo, é o mesmo...,
1                                                           E a conseqüência das bobagens a esmo,
1                                  Sofremos todos numa fé postiça!

                                            Miguel de Souza



sábado, 16 de setembro de 2017

SOBRE LIVROS



Acredito que os poetas não deveriam lançar livros. Pois o que fica são os poemas soltos, fora da amarra enfileiradas de páginas e mais páginas amontoadas em bibliotecas que pouca gente lê. Em contrapartida, os livros servem para apurar esses poemas que se sobressaem sobre os outros. Em se tratando de livros sou mesmo assim.
Querem ver só: dos cinquenta poemas que compõem Esconderijos do tempo, de Mário Quintana, apenas quatro foram os que se sobressaíram sobre os outros. São eles: Os poemas, Bilhete, Seiscentos e sessenta e seis e Solau à moda antiga. Não que os outros não tenham menos qualidade, não é isso. Mas foram esses que caíram na graça do povo, que é quem dita o sucesso.
Há livros que de cara não gosto. Mas depois de certo tempo, passo a amá-los! O poeta Mário Quintana foi um especialista em títulos. O livro o Aprendiz de feiticeiro, é tido como o melhor livro de poemas de Quintana. O mais maduro segundo Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade.
Em Sapato florido, há uma quebra que surpreendeu muita gente. Pois é um livro de prosa poética. O poeta deixa de lado a métrica e a rima da Rua dos cataventos Canções, para se aventurar nesse gênero limítrofe. Um livro singular na obra de Quintana. O que tenho percebido na sua poética, é que o poeta ora aqui ora acolá, continua no decorrer de sua trajetória fazendo os sonetos e as canções dos primeiros livros, principalmente em A cor do invisível. Sonetos como: As estrelas, Detrás de um muro surge a lua, Ah, os relógios... entre outros e muitas canções espalhadas pela sua trajetória, afirmam isso. 
Agora quero falar de um livro que foi amor à primeira vista: Espelho mágico. Delicioso livro. São 111 quadras de métricas variadas, com título. "São poemas breves, no qual os dois últimos versos espelham os dois primeiros, como se os invertessem," [...] Explicita Tania Franco Carvalhal, na orelha do livro.

Miguel de Souza

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

O FUMAÇA

O “Fumaça” não se foi qual fumaça,
Como se foram muitos desse tempo.
Nos percalços da vida, contratempos,
A ingerir também doses de cachaça.
                            
Como um bruto zagueiro, ele rechaça
Bem pra longe essa tal bola-tempo,
Em vão... Pois fica sempre o tal exemplo,
Ou bom ou mau que nunca mesmo passa.

Tenho asco dos que de ti, sentem asco,
Querido companheiro da infância,
Do qual o tempo, a meu ver, foi carrasco.

Como poeta que sou, extraio substância
Das substâncias contidas em frascos,
E oferto a todos minha repugnância!


Miguel de Souza


sábado, 2 de setembro de 2017

IPÊS

                                                                                                                        
É setembro, e no meio da floresta,
Os ipês com as suas flores lindas,
Dão ao mês primaveril as boas-vindas,
Espargindo aos olhares suas festas!

É setembro, e a natura se manifesta
Em quatro cores de beleza infinda,
E, ao adentrar por outubro ainda,
Não finda as cores que a retina infesta!

Das flores, com certeza, a mais formosa,
São, sem dúvida, as flores do ipê-rosa.
Mas, e as flores bonitas do ipê-branco, 

A embelezar o ambiente brando, franco?
E há ainda as flores roxas, amarelas,
A deixar as retinas sempre belas!                                                                         

 Miguel de Souza




sábado, 26 de agosto de 2017

ACADEMIA FAZ HOMENAGEM A MARCILEUDO BARROS


Conheci Marcileudo Barros no projeto da Escola de samba Reino Unido da Liberdade: “Poesia Solta na Rua”, encabeçado pelo locutor Ivan de Oliveira. Ele era um dos poetas convidados a palestrar naquela edição do projeto. Eu, um mero iniciante que fui fazer uma ponta como convidado do Everaldo Nascimento. Achei divertidíssima a sua participação, sempre com histórias bem humoradas sobre sua vida, seus amigos e sobre tudo.
Ganhei das mãos dele o livro “O boteco” que li quase de um fôlego só, por ter achado muito interessante. O livro é ótimo. Divertidíssimo. Dei boas gargalhadas com ele. Outro dia, o próprio Marcileudo me apresentou a um amigo seu, personagem vivo do livro “O boteco”. Aquilo foi mágico. Adorava puxar conversa com ele, era sempre uma aula que eu recebia sobre arte. O cara além de ótimo poeta era excelente músico, um compositor de mão cheia. Na nossa última conversa perguntei a ele qual seu processo de criação com relação à música? Reparem que interessante a resposta do cara: “Eu começo a tocar uma música que eu gosto na bateria... (imitava a bateria com a boca) e... lá pelas tantas entro com a minha composição e, assim, surge minhas músicas.

Marcileudo Barros é a prova viva de como esta cidade trata seus artistas. Desconhecido da grande massa, desvalorizado por aqueles que se cercam de meia dúzia de poetas e acham que o mundo gira em torno desses caras! Marginalizado, viveu à margem desde sempre. Mas foi uma porrada na face de muita gente que se esconde por trás de preconceitos bobos. Ficou seu legado: seus livros, seus poemas, suas músicas, sua voz.

Marcileudo Barros


PASSAGEM

Soube da tua passagem...
aos sessenta e quatro anos,
viajaste a outro plano,
chegaste à terceira margem

como tantos, sem despedida!
sem lenço e sem acenos,
com esse teu ar sereno,
porque foi assim tua vida!

Agora, dirás poemas
em vão, no vão desse nada,
nessa imensa madrugada
de sotilégios e dilemas.

e segues tirando sarro,
mestre Marcileudo Barros.

Miguel de Souza


*Poema composto em razão de seu passamento.





l MOSTRA DE POESIA - DA PRAÇA PARA ACADEMIA


domingo, 20 de agosto de 2017

INVASÃO lll


                                                                                                      
A Mulher Maravilha saca o laço,
E a Mulher Gato ensaia o seu miau...
Enquanto a BatGirl tange todo o mal,
Que estava perturbando o meu espaço.

                                                             SuperGirl voa rumo ao meu encalço,
                                                             E pousa firme bem no meu quintal;
                                                             E a Mulher Invisível some, a tal
                                                             Ponto de me deixar em embaraços!

Quando a luta, no fundo, se acirra,
Aparece, na minha frente, a She-Ra,
Trazendo junto com ela Arlequina.

                                                            As Negras: Fênix, Gata e Viúva
                                                            Vestem, guerreiras, seus pares de luvas,
                                                             E mostram a vaidade das heroínas!

                                                 Miguel de Souza

  

domingo, 13 de agosto de 2017

Saudade


                                           Para meu pai
A saudade o tempo leva,
E traz no dia seguinte;
E soma-se mais de vinte
Anos que naquela leva,
Te foste deste convívio,
Habitar em outra esfera!
De repente esta atmosfera,
A teus pés tornou-se ínvio...
Agora,és todo abstrato!
-Fiel criatura no adro-,
A tua imagem no quadro,
Imitando o teu retrato,
     Dignifica a memória,
     Daquele que ficou na história.

Miguel de Souza
In: Flores e Pedras









sábado, 5 de agosto de 2017

CÓLERA

Às vezes paro no bulício da vida,
a contemplar os gestos do mundo, e
fico pasmo segundo a segundo,
com o que vejo nesta luta renhida!

E viro fera, às vezes, espavorida!
e, de raiva, rancor, também me inundo,
com a injustiça corroendo a fundo,
a alma do povo sem gozar guarida!

e, se me perco a calma, eu sei, às vezes,
por saber que nos próximos 48 meses,
somos nós quem regemos o futuro...

É porque a culpa é somente nossa,
de colocar lá no poder quem possa,
atravancar esta nação no escuro.

Miguel de Souza
In: Poemais
P. 89

sábado, 29 de julho de 2017

PARABÉNS!

Aniversaria hoje o meu sobrinho Helton Silva, no auge dos seus 35 anos de caminhada. Sempre o vejo meio que descompromissado com as coisas que a vida nos impõe. A tocar sua viola, a viver sua vida! Mas sei que não é bem assim. É impressão minha! Enquanto, envolto com meus poemas, eu vou vivendo com a dura responsabilidade de criar e criar! Foi numa dessas observações que criei o soneto Seria bom. Parabéns!



SERIA BOM
                                    Pro Helton, sobrinho.

É tão bom ter a mente sempre vaga,
e não se preocupar em fazer versos;
ser anônimo, ter outro universo,
outro zéfiro que meu rosto afaga!

É tão bom concorrer a outra vaga,
e dos poemas, ser sempre meio disperso;
e, no mar de palavras, não está imerso,
e esquecer para sempre a sua saga!

Seria bom, se no abrir das cortinas,
fosse branda, essa minha triste sina...
Eu viveria como qualquer um!

Mas só tive no meu destino a sorte
de carregar nos ombros o suporte,
que carrega todo homem incomum!

Miguel de Souza

EM TUDO















Estás em tudo que vejo
Estás em tudo que faço
Estás no que mais almejo
Estás no caminho que traço.

Estás nos olhos do cego
Estás na voz do mudo
Estás em tudo, não nego
Não nego que estás em tudo!

Estás na inocência da criança
Estás na natureza em si
Estás na minha esperança
Em em tudo que me leve a Ti.

Estás no calor do sol
Estás no brilho da lua
Estás nos dias em prol
Da existência que continua...

Estás em todo canto:
Na minha voz! No meu grito!
E para o meu espanto!
Estás em tudo, e descansas no infinito!

Miguel de Souza
In: Pérgula Literária VI
P. 44


sábado, 22 de julho de 2017

DIA DOS AVÓS

VOVOCIDADE OU AVOCIDADE?

          Assim como existem as palavras paternidade e maternidade, deveria existir a palavra "vovocidade" ou "avocidade". O exercício de ter netos. A qualidade de ser avós.
          Reportagem recente de A Crítica fala de Renata, que não tinha sobrenome e nem documentos. Ganhou judicialmente esse direito à cidadania. Renata viveu até os dezoito anos numa instituição de acolhimento de crianças. Sem nunca ter sido adotada, cresceu e se tornou adulta no orfanato, de onde saiu para a vida.
          O sobrenome que adotou é uma homenagem a uma espécie de padrinho que tinha no orfanato. A Defensoria Pública argumentou em juízo que ausência do sobrenome  causava constragimentos e impedia a prática de atos da vida civil. A Vara de Registros Públicos atendeu ao pleito e foi incluído um sobrenome, mesmo que fictício, nos registros de Renata.
          Está de parabéns a Defensoria, o Ministério Público e o Poder Judficiário. Renata, muito feliz, disse que vai entrar com ação para mudar os registros dos filhos e regularizar a situação do mais velho, que mora com ela, mas o pai é que tem a guarda do menino.
          Pensei nessas crianças que nunca terão avós. Jamais saberão o que é "vovocidade". Dia 26 de julho é comemorado o dia dos avós, data promulgada pelo Papa VI em homenagem a Santa Ana e São Joaquim, pais de Maria, mãe de Jesus. Apesar da referência católica, o dia entrou para o calendário laico, pelo menos, no Brasil.
          Minha neta Maria Luísa tem avós maternos e paternos, os quatro exercem com alegria, plenitude e muito amor essa função divina e maravilhosa da "vovocidade". Não é preciso muito esforço para notar como a interação entre netos e avós é positiva. A convivência é muito benéfica para ambos.
          Maria Luísa é uma privilegiada. Levá-la para passear e brincar não é uma obrigação ou uma forma de gastar a energia dela. Estar com a nossa netinha é uma oportunidade deliciosa de curtir e se divertir de verdade com ela.

          É um grande contentamento o exercício da "vovocidade" ou seria "avocidade".

Pedro Lucas Lindoso
In: Palavra do fingidor

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Dos meus avós tive mais contato com os maternos: o Vovô Luiz e a Vovó Chiquinha, chamados por nós carinhosamente de Pai e Mãe. Dos registros dessa pouca convivência restaram dois poemas onde relato fatos marcantes que perduram na minha retina. Aqui minha homenagem a ambos. É com emoção que publico tais poemas! Êh, saudade!

   VOVÔ

Olha a linha do horizonte,      
Por detrás daquela serra...
O último ponto que encerra ,
A beleza desses montes.

Se não sabe, quer que conte
O que por lá se descerra?
O último ponto da terra,
Diante de nossas frontes!

Da varanda da morada,
Com a voz emocionada,
Relatou-me o VOVÔ Luiz.

Jamais me saiu do tino,
Esse tempo de menino,
Em que eu era muito feliz!

Miguel de Souza

VOVÓ

Da VOVÓ, lembro-me bem,
-enxergava pelos tatos-
Colher, garfo, copo, prato...
Tudo, enfim, que lhe convém.

Até meu rosto também,
Ela sabia de fato;
Era mesmo o maior barato,
Ela era como ninguém!

Na boca, o seu cachimbo.
Esse era o seu carimbo,
Que marcava a sua imagem...

Eu, menino levando água,
Sem trazer nenhuma mágoa,
Por aquela rica passagem.

Miguel de Souza

sábado, 15 de julho de 2017

3

Qualquer ruído nessa noite me assusta. Nessa noite não é permitido qualquer ruído. A presença de quem quer que seja nessa noite me assusta. Não lhes dou a permissão de transpor essas paredes ignorando a porta. A porta para eles não tem serventia. O concreto não existe, o palpável não se palpa. Eu sou o futuro de um passado sem presente. A vida da vida da vida, eu sou. Não tenho medo. tenho fé.

Miguel de Souza

sábado, 8 de julho de 2017

uma palavra

há uma mancha,
uma nódoa
criada por quem não tem
a responsabilidade de
manter o conceito
dessa palavra.

tão sublime...
tão acima do comportamento rídiculo
de quem pensa sê-lo!

tornou-se pejorativa
essa palavra.

tão usual a muitos
a se deleitarem sobre a sombra
fresca daqueles que se tornaram grandes
por terem dado o devido valor
a essa palavra.

é preciso resgatar tais valores,
limpar essas manchas,
retirar toda a nódoa,
cicatrizar a enfermidade

para, enfim, poder dizê-la
em alto e bom som sem o
vexame daqueles que teimam
em ser sem sê-lo.

Miguel de Souza

sábado, 1 de julho de 2017

ENTREVISTA

As respostas abaixo foram dadas por professores, escritores, psicólogos. Enfim, formadores de opinião que garimpei em alguns programas que venho bisbilhotando na telinha como: “PROVOCAÇÕES”, “IMPRESSÕES DO BRASIL”, “ENTRELINHAS”, “CAFÉ FILOSÓFICO”, entre outros. Tomei o cuidado de não externar o nome dessas pessoas para ficar um pouco mais interessante.


O que é poesia?
Não sei. Sei o que não é poesia. E uma vez eu sabendo o que não é poesia, todo o resto será poesia.

domingo, 25 de junho de 2017

SARAU NA ACADEMIA

                                              Clique sobre a imagem para ampliá-la.

sábado, 17 de junho de 2017

CORRE MAIS QUE UMA VELA...


Corre mais que uma vela, mais depressa,
Ainda mais depressa do que o vento,
Corre como se fosse a treva espessa
Do tenebroso véu do esquecimento.

Eu não sei de corrida igual a essa:
São anos e parece que é um momento;
Corre, não cessa de correr, não cessa,
Corre mais do que a luz e o pensamento...

É uma corrida doida essa corrida,
Mais furiosa do que a própria vida,
Mais veloz que as notícias infernais...

Corre mais fatalmente do que a sorte,
Corre para a desgraça e para a morte...
Mas eu queria que corresse mais!
Emiliano Perneta

sábado, 10 de junho de 2017

SANTO ANTÔNIO








A Vós dirijo-me, ó meu Santo Antônio.
Vós, o Santo que tanto, tanto admiro!
Sobre Vós, forte pensamento miro,
para que me livrais do caos medonho!

Vós que unis os casais em matrimônio,
assunto pelo qual, o coração firo!
Mas numa dessas voltas, num giro,
espero que realizais meu sonho!

A Vós, ó meu humilde Santo Orago,
este simples soneto faço e trago,
(uma pequena homenagem a Vós!)

Inundais, ó meu Santo, o mundo vago
de amor, de paz, namoro, de afago...
E dais-nos sapiência a todos nós.    
Miguel de Souza

sábado, 3 de junho de 2017

DOIS NÚMEROS

8

O oito deitado
para dormir
virou símbolo:
- infinito!

Mas, ao levantar-se,
pela manhã,
sempre afoito!

Volta de novo a ser o terminável oito.



Miguel de Souza


9

Não, o nove
não me comove!

Nem move
outro número.
Porque o nove
noves-fora: zero.

Pelo nove
não sinto love!

E quem sentir que prove.


Miguel de Souza


sábado, 27 de maio de 2017

INVASÃO (l)














O Super-Homem pousa no meu solo;
Homem Aranha joga sua teia;
e Capitão Caverna, volta e meia,
larga um grito a tremer o subsolo.

Scooby Doo, com medo, pede colo;
e Salsicha, com fome, pede ceia;
Zé Colméia e Mobi Dicky, a baleia,
fazem um piquenique com Apollo.

Aparece do nada o Gargamel,
na companhia inseparável de Cruel,
pra pegar os Smurfes em armadilha.

E Dick Vigarista leva um tombo,
na corrida pra capturar o pombo,
seguindo, desta forma, a mesma trilha!

Miguel de Souza

domingo, 21 de maio de 2017

PERSONAGENS DA INFÂNCIA


João Bicudo, citado no poema em prosa nº 8, foi um personagem da minha infância que se tornou um “bebum”. A ele dediquei este soneto:


JOÃO BICUDO
      
      Ainda o vejo sem os tropeços da vida, a
      Dedilhar a desafinada viola;
      Ainda o vejo a me ver jogando bola,
      Resguardado p’la infância querida!

Mas o tempo tirou sua nobre lida,
            Foi, na sua vida, essa dura escola;
            Em doses de cachaça, hoje, se atola,
         E adormece ao relento... a esquecida
                
          Vida do nobre amigo João Bicudo.
           Sempre contente, nunca o vi sisudo.
           A me chamar também de Miguelzinho...

           Agora o vejo no correr dos anos,
          Sofrendo, dessa vida, os maiores danos,
          “Bodado” nas calçadas, sempre sozinho!    

Miguel de Souza 







domingo, 14 de maio de 2017

ÀS VOLTAS COM UM POEMA

          Hoje é o dia das mães. Isso me remete a um poema que faz parte da minha vida: "Para Sempre", de Carlos Drummond de Andrade. O primeiro contato que tive com esse poema foi no âmbito escolar. Tocou-me de súbito. Com o correr do tempo fui me esmerando nessa coisa de gostar de poemas, e procurando entender cada vez mais esse gênero literário. E esse poema foi ficando cada vez mais genial na minha ótica.
          Costumo dizer que: "se Drummond não fizesse mais nada depois de tê-lo feito, mesmo assim seria o grande poeta que o foi." Durante um determinado tempo desisti de abordar esse tema, por causa desse texto. Achava que depois de "Para Sempre", tudo o que se dissese, seria bobagem. Até que, numa conversa com a poetisa Ana Zélia, fui convencido a encarar novamente o tema. Foi aí que surgiu o meu soneto "Você é Incrível", onde agradeço à minha mãe pela dor do parto. E tantos outros poemas que compus às mães.
          Segundo minha maneira de lidar com o poema, o poeta ao começar seu texto, não pode,  de maneira alguma, perder em qualidade no verso seguinte. É como se os versos competissem para o êxito do texto. Um bom poema vai sempre ganhando em qualidade até o seu desfecho. É aí que está a genialidade desse texto de Carlos Drummond de Andrade. Ele começa muito bem e consegue manter essa qualidade no decorrer do texto até o seu desfecho. Isso é para poucos. Outro fato que me chamou atenção foi o questionamento, pois Drummond questiona Deus do começo ao fim do texto sobre a morte. (a existência.)

PARA SEMPRE

Por que Deus permite
Que as Mães vão-se embora?
Mãe não tem limite
É tempo sem hora
Luz que não apaga
Quando sopra o vento
E chuva desaba
Veludo escondido
Na pele enrugada
Água pura, ar puro
Puro pensamento
Morrer acontece
Com o que é breve e passa
Sem deixar vestígio
Mãe, na sua graça
É eternidade
Por que Deus se lembra
-Mistério profundo-
De tirá-la um dia?
Fosse eu rei do mundo
Baixava uma lei:
Mãe não morre nunca
Mãe ficará sempre
junto de seu filho
E ele, velho embora
Será pequenino
Feito grão de milho.

Carlos Drummond de Andrade