domingo, 30 de setembro de 2018

POETA


Na grande fábrica do mundo,
Se me perguntarem qual o meu ofício,
Direi como funcionário:

Trabalho no estoque:
Selecionando, experimentando, arrumando palavras...
Separando-as por ordem.
Cada qual no seu devido lugar.

Emprestando-lhes muitas vezes novos significados.
E armazenando-as numa posição estranha
No corpo de um papel.

Para que o mundo possa me chamar de poeta.


Miguel de Souza







sábado, 22 de setembro de 2018

TROVOADA DE TROVAS

Com ela não troco olhares,
não troco porque não sei
olhar para quem tanto amo,
sem dizer que sempre amei!

Miguel de Souza

sábado, 15 de setembro de 2018

OLHO PARA ELA


Olho para ela num dia covarde e sem graça.
Numa manhã de domingo,           
Ou tarde de sábado,
Olho para ela...

Olho para ela numa segunda preguiçosa,
Ou terça-feira cinzenta.
Numa quarta-feira farta olho para ela.

Olho para ela numa quinta extinta.
Ou numa sexta-feira extra,
Olho para ela.

Miguel de Souza

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

SOBRE POEMAS

Julho, 25 - Aturdido, leio no jornal o artigo em que se analisa um de meus poemas à luz das novas teorias lítero-estruturalistas. Travo conhecimento com expressões deste gênero: "dinamismo dos eixos paradigmáticos", "núcleo sêmico", "invariante semântico horizontal", "forma de referência parcializante e indireta", "matriz barthesiana"... O poeminha, que me parecia simples, tornou-se sombriamente complicado, e me achei um monstro de trevas e confusão.

Carlos Drummond de Andrade
In:. O observador no escritório.
P:. 174.

sábado, 1 de setembro de 2018

ENTRE TEXTOS


estou cansado
dessa gente que nunca ouviu um
poema do Drummond
estou cansado
dessa gente que nunca sentiu a
voz de Elis
estou cansado
dessa gente que nunca estudou
Darcy Ribeiro
estou cansado
dessa gente que nunca assistiu a
uma peça de Plínio Marcos
estou cansado
dessa gente que nunca ouviu
uma Bachiana de Villa-Lobos
estou cansado
dessa gente que nunca aprendeu
com Ariano Suassuna
estou cansado
dessa gente que nunca viu
Fernanda Montenegro no palco
estou cansado
dessa gente que nunca leu um
romance de Milton Hatoum
estou cansado
dessa gente que nunca brincou
com Antônio Nóbrega
estou cansado
dessa gente que nunca viu um
filme de Glauber Rocha
estou cansado
dessa gente que nunca olhou as
pinturas de Portinari
estou cansado
dessa gente que nunca chorou
ouvindo uma canção de Chico
Buarque
estou cansado
dessa gente que nunca dançou
um samba de Paulinho da Viola
estou cansado
dessa gente que nunca viu o
Ballet Stagium
estou cansado
dessa gente ignorante e estúpida
estou cansado
dessa gente que nunca quis
mudar o mundo
estou cansado
dessa gente que nunca morreu
por um grande amor
estou cansado
dessa gente que nunca lutou por
nada
estou cansado
dessa gente hipócrita e
mesquinha
estou cansado
dessa gente que nunca foi gente
estou cansado
dessa gente que nunca
Estou cansado
dessa gente
Estou cansado

Dori Carvalho



Indignação
                                                     Pro Dori Carvalho, primeiro a se indignar

Eu tenho asco dessa gente reles
Que nunca ouviu um poema do Drummond!*
E, por isto, não sabe o que é bom.
Nem viu o amor de Florbela por Apeles.

Eu tenho raiva dessa gente rude
Que nunca sentiu a voz de Elis!*
E, por isto, não soube ser feliz,
Nos anos louros dessa juventude.

Eu tenho nojo dessa gente fraca,
Sem atitude, sem brilho, opaca,
E que nunca aprendeu com o Suassuna!*

Tenho cólera dessa gente vil, a
Maior vergonha desse Brasil,
E que nunca ouviu o canto da graúna!

Miguel de Souza

*Versos de Dori Carvalho