segunda-feira, 30 de setembro de 2013

SOBRE POEMAS

A FARRA DO LEITE

No plebiscito para prefeito
do ano de 88.
Para conseguir qualquer voto
tinha um candidato afoito
ele prometia de tudo:
da rapadura ao biscoito.

Meu pai entrou numa fila
pra testar se era verdade
o candidato lhe prometeu
na maior facilidade
vinte sacos de cimento
falando só em amizade.

Quando passou a eleição
o tal candidato perdeu
porém, meu pai foi atrás
do que ele lhe prometeu
mas o cabra foi malandro
explicando que esqueceu.

E foi dizendo ao meu pai
que ele não era de covardia
que sempre na vida dele
pagava o que devia
falou: -amanhã, senhor
o cimento vai pra sua moradia.

No outro dia parou um carro
pai viu que o negócio era fraco
um sujeito arrancou pra fora
um único e mísero saco
pai viu que o papo de amizade
era mesmo só fiasco.

O cimento ficou guardado
lá no fundo do quintal
estava findado o ano
aproxima-se o natal
meu pai disse: na minha casa
vou fazer uma reforma geral.

Aí foi que veio a surpresa
pai abriu o saco com um estilete
quando viu o cimento branco
pensou que fosse de enfeite
depois viu que não era cimento
e sim, um saco de leite.

E lá em casa que não tinha nada
para a ceia de Natal
com aquele bendito leite
mamãe preparou mingau
e de tanto comer leite
nós até passamos mal.

Era leite no almoço
era leite no jantar
eu de tanto tomar leite
já estava para enjoar
meu pai disse: -só tem leite
então, leite vamos tomar.

Quando acabou o leite
pai foi visitar o candidato
levou até um docinho
ele agiu muito educado
meu pai falou: -seu doutor
ao senhor muito obrigado.

E nessa farra do leite
aqui eu coloco um fim
mas seu for à sua casa
já vou lhe dizendo assim:
ofereça-me qualquer coisa
mas afaste leite de mim.

                 Edivan Rafael


ANÁLISE

     Dentro do plano semântico que o poema nos oferece, a FARRA DO LEITE  traz no seu bojo um paralelo traçado entre o humor e a seriedade da situação. O poeta consegue nos transmitir de maneira bem humorada, uma situação cada vez mais frequente nos dias atuais. A troca de votos por favores, muita das vezes efêmeros, e que não vale a pena.
     O texto foi construído em sextilhas, embora o poeta, ao que parece, não tenha tido a preocupação com a métrica, mas há uma tendência para a redondilha maior, característica bem marcante nos nordestinos. Com palavras de fácil entendimento, sem muito rebuscamento, o texto vai se desenvolvendo com a preocupação, apenas, de informar à sua gente sobre o logro do personagem-vilão do poema, o candidato. O que caracteriza a função da linguagem do poema: informativa/poética.
     Na primeira sextilha temos a predominância da letra "i" que perpassa toda a estrofe: "plebiscito, prefeito, oitenta e oito, conseguir, tinha, afoito, prometia, biscoito"(...) dando um tom melancólico à introdução do poema, pois a letra "i" nos dá a sensação de som fechado, nos remetendo à tristeza da mensagem do texto. Forma e conteúdo, neste sentido, se encaixam perfeitamente.
     Na segunda estrofe, há alternância de vogais fechadas e abertas, o poeta, com isto, demonstra um pouco de alegria, pois há a expectativa de uma possível recompensa pela troca dos votos: "meu, pai, estar, verdade, prometeu, maior, vinte, sacos, falando, amizade"(...) Mais uma vez conteúdo e forma se acoplam perfeitamente.
     Na terceira sextilha, o poeta mais uma vez, parece brincar com a questão fônica do poema. Numa habilidade incrível, ele minuciosamente, a cada verso, vai alternando, conforme a mensagem do texto, a posição dos personagens. Num misto de alegria e tristeza, na fala dele próprio como narrador: "quando passou a eleição/o tal candidato perdeu/porém, meu pai foi atrás/do que ele lhe prometeu/mas o cabra foi malandro/explicando que esqueceu. (...)
     É por essas e outras que os poetas se comunicam com os leitores, não só através da mensagem explícita do poema, mais muita das vezes, por essas jogatinas que só a poesia tem para nos oferecer.
     A FARRA DO LEITE é daqueles textos que, infelizmente será sempre atual, apesar de pertencer ao século XI, isto é, ter sido escrito no século XI. Pois o desenrolar de seu enredo, já nos é conhecido desde os primórdios, bem o sabemos disso. O poeta Edivan Rafael ao compô-lo, consegue um feito bastante usado pelos poetas nordestinos, que é extrair humor das intempéries da vida, digamos assim, dando ao texto um sentido jocoso.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

SOBRE LIVROS

SEXAGESIMA STELLA

     Embora possa parecer contraditório, mas SEXAGESIMA STELLA é um livro de poemas românticos. O tão cantado e decantado amor mais uma vez vem à tona. Há poetas que ignoram este tema, como Augusto dos Anjos por exemplo, ao dizer: "O amor da humanidade é uma mentira..." E há outros que o engavetam e não publicam de jeito algum.
     Mas acredito que não é o tema em si, que vai julgar a qualidade do poeta, e, sim, a maneira como este tema é discorrido. Pois sabemos que tudo já foi dito, e a grande sacada, hoje, é dizer de novo de forma diferente. Partindo desse pressuposto, Anísio Mello, nos brinda com um fabuloso livro de poemas, "SEXAGESIMA STELLA".
     Vejamos o que Arthur Engrácio nos conta acerca desta obra de Anísio Mello: "Anísio Mello, com SEXAGESIMA STELLA, vem confirmar que o romantismo continua, realmente, vivo no espírito dos nossos poetas, pondo à mostra o romântico que mora nele, cantando em alto e bom som, o que lhe fala o coração. (...) Neste livro, o leitor vai deparar-se com um Anísio Mello mais apurado, mais senhor da sua técnica, a caminho, já, daquele estágio de perfeição que a arte confere aos seus eleitos. O acento lírico é mais forte, os versos fluem com mais espontaneidade, seus voos são mais seguros e ousados.
     Salve Petrarca! A maioria dos poetas, senão todos se curvaram à beleza e à perfeição desta forma poética que é o soneto, e com Anísio Mello, não foi diferente. O soneto vem atravessando escolas literárias, incólume no passar dos tempos, e ai de quem ousar modificá-lo! O poeta abre seu livro com chave de ouro, se é que permitem o trocadilho infame, vejamos:

LEMBRANÇAS

Na lembrança ficaste de permeio
a momentos de amor como te vi.
Foste rosa em meu peito e com receio
a primavera augusta então vivi.

Nos teus lábios agora me tonteio
e na luz dos teus olhos refleti
todo um sonho feliz e agora creio
que o amor é como o beijo que senti.  

Este amor que flutua mansamente
e encandece a manhã tão de repente,
mais parece o delírio de um adeus.

Um dia partirei, quem sabe quando?
Lembranças levarei sempre cantando,
com teus lábios impressos sobre os meus...

     A saudade é o tema que permeia todo o poema, o terceiro e quarto verso da primeira estrofe: "Foste rosa em meu peito e com receio/a primavera augusta então vivi." São reveladores desta afirmação. O último verso da segunda quadra: "que o amor é como o beijo que senti." evidencia bem, o todo do poema, embora seja, muita das vezes duradouro, quando termina. Como se fosse algo repentino há sempre o gostinho de quero mais. E por fim, a chave de ouro: " com teus lábios impressos sobre os meus..." É aquilo que podemos chamar de belo desfecho que desvenda todo o mistério do poema.

SUAVEMENTE

Um dia surgiste como estrela
no céu do firmamento dos meu dias
e tão branda chegaste, que doçura,
num sorriso de vestes cristalinas.
Te apertei em meus braços como um sonho,
naveguei em teus mares pelas noites,
sorvi o licor da tua loucura,
cantei a canção que flui dos lábios,
no calor dos teus desejos impossíveis.

Bendita noite de tua voz sorriso,
em que pousaste nos meus olhos
como um brilho de sol
ou de uma estrela...

     Neste poema, como bem nos informa o título, não há nada que venha se contrapôr à felicidade do poeta,
em "SUAVEMENTE", não encontramos aquela trama tão comum a tantos textos, e mesmo assim, o poeta consegue ser autêntico, há um casamento perfeito do título com o poema. Num discorrer suave, o poeta se regozija, o poema perfaz um caminho contrário de que textos famosos da nossa literatura trilharam! E Anísio Mello, prova, com isto, que podemos extrair poesia sim, de tudo, de todos os momentos da vida.

SONETO COLORIDO

Talvez não saibas tu quanta poesia
é capaz de ofertar um só artista.
Se é pintor e poeta, que alegria,
ter o dom de assistir o ser que avista,

o céu, a terra, o mar que ele recria
na tela ou no papel, sempre otimista,
em função do seu dom que lhe irradia
uma alvorada azul-a sua conquista!

Ser pintor e poeta a um só tempo,
é sentir duplamente o sofrimento,
as dores deste mundo, a alegria.

É dizer com o pincel a cor da vida
e pintar em seus versos, colorida,
as auroras de luz de uma poesia.

     Em SONETO COLORIDO, o poeta traz à luz dos olhos mais uma qualidade, a de ser pintor, artista plástico. E fala dessas dores por ser poeta em dose dupla, já que a pintura é conceituada por muitos como poesia para ser vista. fica bem evidente, no final do soneto essa afirmação, quando no desfecho ele diz: "É dizer com o pincel a cor da vida/e pintar em seus versos, colorida,/as auroras de luz de uma poesia.

ROSINHA INDO PRO CÉU

Em vida Rosinha passava pela rua
boinha boinha
olhava sempre o amanhã que deveria ser melhor.
Os olhares malandros do rapazil
imaginavam coisas
sonhavam Rosinha nuinha nuinha
gestos lentos
corpo moreno de amendoim
olhos de amêndoas doce
lábios com gosto de beijo.

(...)

     Em ROSINHA INDO PRO CÉU, fica no ar uma intriga sobre Rosinha, que poderia, pelo seu nome no diminutivo, ser uma criança, mas uma criança não apática aos olhares da matula que a imaginavam despida, mesmo morta indo para o céu!

    Em "CAFÉ DA MANHÃ", há certo teor de erotismo nunca antes neste livro, é um convite ao amor, aos prazeres da carne. Eis um fragmento do poema:

CAFÉ DA MANHÃ

Minha negra, com carinho,
mostra o café do teu corpo.
Faz no olhar dos olhos meus
as ondas do mar que tens.
que se confundem com estradas,
tão sinuosas, sombrias,
esquivas curvas do amor.

(...)

Mostra o café do teu corpo
no brilho do meu lençol,
mostra o amor que tens no peito
ao calor que trago eu,
se podes provar que és minha,
para provar que sou teu.


ORAÇÃO

Ave Maria
do céu e da terra
cheia de graça e de beleza,
o Senhor é convosco e conosco,
Bendita Sois Vós
e todas as mulheres
entre as quais Sois Rainha,
Bendito é o fruto do Vosso ventre,
Jesus!

     De repente, lá pelas tantas, o amor muda de figura, a religiosidade do poeta, assume o timão e surge um belíssimo poema à Nossa Senhora. A meu ver, uma crítica àqueles que lotam as igrejas e acham que sua salvação está lá, e esquecem muitas das vezes da sua própria vida.

DOCE MENTIRA

Oh! doce mentira aquela de teus olhos
quando lágrimas rolaram em teu rosto
e juraste amar eternamente
o teu poeta
e enganas tua alma com outros beijos.

     Em versos simples, sem rebuscamento algum, ou hermetismo, o poeta nos informa da perda de sua musa. DOCE MENTIRA pode ser visto como antítese, uma contraposição de ideias.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

INVENÇÃO E SONETO




                                                                   GRAHAM BELL


                                                                   O TELEFONE

                                                                   Ouvir a tua voz, de mim, distante,
                                                                   e, ao mesmo tempo, tão pertinho assim,
                                                                   carinhando meus tímpanos, a fim
                                                                   de estar aqui, presente, neste instante!

                                                                   E eu, a fim de estar aí, de ti, perante,
                                                                   após, do telefone, esse trriiimm!!!
                                                                   Para o diálogo, tintim por tintim,
                                                                   e, na retina, teu rosto marcante!

                                                                   Não sei bem, se malquisto ou benquisto,
                                                                   Graham Bell, por essa ideia, invenção
                                                                   de falar, um com o outro na distância!

                                                                   O que eu sei mesmo, é que tudo isto,
                                                                   faz a gente sofrer do coração,
                                                                   e aumenta ainda mais a nossa ânsia...

                                                                                        Miguel de Souza



domingo, 22 de setembro de 2013

HOMENAGEM

                                                                 






EVERALDO NASCIMENTO


CANTO

Vou tecer um soneto neste momento,
-e explicar o motivo deste canto!-
Ao meu amigo Everaldo Nascimento,
cujos versos são magias e encantos.

Agradeço também aos bons ventos,
que me trouxeram vates tantos, tantos...
Através do que estava no teu intento,
confortando-nos com o teu acalanto.

Foi por pensares sempre em conjunto,
que nesta caminhada estamos juntos,
para tentarmos publicar nossos versos.

E, quem sabe, no mais tardar dos anos,
possamos, ver enfim, os nossos planos,
realizados com bastante sucesso!

                  Miguel de Souza

sábado, 21 de setembro de 2013

HOMENAGEM AO DIA DA ÁRVORE




PAPEL

                                                    Sê como aquelas árvores antigas,
                                                    impolutas à beira do caminho...
                                                    Recebendo do vento tal carinho,
                                                    e oferecendo sombra a quem se abriga.

                                                    Ou companhia ao ser sempre sozinho,
                                                    a transitar por entre elas, amigas.
                                                    As árvores tão boas quanto antigas,
                                                    a esparzirem caridade p'lo caminho.

                                                    Sê como Elas, benéficas ao mundo,
                                                    ao saciar a fome do moribundo.
                                                    A reinar sobre a terra e sob o céu!

                                                    E mesmo empós, da serra, a ouvir-lhe o ronco,
                                                    a podar-lhe rés a terra pelo tronco...
                                                    Mesmo empós... Ela cumpre o seu papel!

                                                                           Miguel de Souza

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

MÚSICA E SONETO

                               
                             







FLOR QUALQUER
                                 
Nasceste na beirada do caminho,
quase que por acaso ou por encanto;
e se o tempo jorrava doce pranto,
era nas secas pétalas, carinho!

Assim, se desenvolveu a flor-espinho,
nos longes do jardim... a sós, portanto!
dando um tom de matiz ao verde-manto,
e aos olhares de quem vai sozinho!

Quando o tempo fechar as comportas,
e, escancarar pro mundo todas as portas,
de claridade, luz e calor...

Resta a esta flor, da noite, o úmido orvalho,
caído em gotícula, de algum galho,
para sobreviver desse horror!

                   Miguel de Souza

Inspirado na música "FLOR DE CHEIRO" de Nando Cordel:

DVD Nando Cordel - Flor de Cheiro


segunda-feira, 16 de setembro de 2013

À PRIMEIRA VISTA

Trago intrínseco um sentimento profundo,
desde a primeira vez em que a fitei!
O que se deu comigo? Apenas sei,
de me pegar, às vezes, meditabundo

sobre Ela, pelos quatro cantos do mundo,
e de encontrar-me a sós em meio à grei!
Não sei que deus ditou esta cruel lei,
para deixar-me assim a cada segundo!

...Por Ela, todo sentimento externo,
meu amor, até então, será eterno,
como nos disse, um dia, o grande poeta.

Eu só sei que a amo como amam os loucos!
e todo o amor do mundo será pouco,
para caber num coração de esteta!

                   Miguel de Souza


Assista ao vídeo deste soneto:

A Primavera Vista - Miguel de Souza (Video por Edi)

SOBRE POEMAS

     O poeta é este ser que consegue extrair dos acontecimentos, a matéria prima para transformá-la em poemas. Não sei o nome, nem onde mora a musa que serviu de inspiração para este soneto. Só sei que eu a via todo dia, pois trabalhávamos juntos, na mesma empresa. E quando ela passava, tudo ao meu derredor parava, inclusive eu, para admirá-la! As flores do jardim se inclinavam ante a  tanta beleza! O sol, por mais bonito que estivesse o dia, se apequenava diante ao brilho do seu sorriso! Meus olhos embebidos, sorvia a beleza radiante de tamanho esplendor!
     E tudo era poesia quando ela passava nos seus afazeres. Um belo dia, tão natural como os seus passos, surgiu um soneto em sua homenagem. Sem exagero, sem devaneios, o soneto a retrata do jeito que eu a via, sem salamaleques... É uma pena, mas ela não sabe de sua existência. Pois não tive coragem de informá-la desta minha singela homenagem.

   
BELEZA EM PESSOA

Impossível olhar-te sem admirar-te!
E, sem deixar ao menos, cair o queixo!
Quando passas, o que estou a fazer deixo,
somente para vê-la! Oh, obra de arte!            

Esparzes a beleza em toda parte
que vais, até nos mais recônditos trechos!
da beleza de tudo tu és o eixo,
a deixar-me boquiaberto a contemplar-te!

Aliás, acho que não és tão bonita,
pois ser bonita a ti, é muito pouco,
tu és a beleza propriamente dita!

Não há falácia, nem em mim há loa,
podem até chamar-me de louco,
porque a mim, tu és a beleza em pessoa!

                            Miguel de Souza

terça-feira, 10 de setembro de 2013

DEPOIS DA CHUVA



Depois da chuva tudo me comove:
pinta no ar um cheirinho bom de terra,
a tez das folhas que a vista encerra,
fica sempre mais verde depois que chove.

A paisagem que a natureza promove,
tornando esverdeada toda a serra,
pós a cortina dágua que descerra,
parece, ante aos meus olhos, que se move!

Árvores chovem, depois da chuva!
São mangas, graviolas, peras, uvas...
Que elas nos dão por serem tão bondosas!

Toda a terra enche-se de tanta vida!
Depois da chuva, a flora colorida,
agradece a Ela por ser tão maravilhosa!

                             Miguel de Souza

sábado, 7 de setembro de 2013

HOMENAGEM


     O meu muito obrigado ao poeta Eylan Lins, pelo poema carinhosamente a mim dedicado.





           POEMAIS

A vida brinca de passar o tempo,
e os sonhos juntos vão passando
em caravanas vorazes, enquanto
eu, aqui, torço por ti e te desejo:

Que o sol brilhe, brando e macio,
iluminando sempre o teu destino.
Que aqueça tua alma de menino,
dando cores e voz ao teu ofício.

Que os ventos da tarde cheguem,
trazendo consigo a semente boa,
para semear na proa da tua canoa,
a vida das palavras que te seguem.

Que o orvalho da noite umedeça
teus sonhos, e te dê luz e força,
para tua nova e sagaz caminhada!

Pois agora, és também "poemais",
metáfora maior da tua estrela guia,
que brilha e fascina a nova geração.

                       Eylan Lins




quinta-feira, 5 de setembro de 2013

DE POETA PARA POETA

                                               MANUEL BANDEIRA
                                         
     Nasceu em 1886, no Recife, Manuel Carneiro de Sousa Bandeira, filho de pais abastados (proprietários rurais em declínio).
     Ainda jovem muda-se para o Rio, onde faz seus estudos secundários; transfere-se para São Paulo em 1903, matriculando-se na Escola Politécnica por influência do pai, que o queria arquiteto e até lhe prometera uma viagem à Europa como prêmio.
     A viagem iria acontecer, mas por outra razão, quando, no ano seguinte, Bandeira constata estar com tuberculose pulmonar, doença que modificaria toda a sua vida e o encaminharia para a poesia. Após vários anos em estâncias climáticas no Brasil, segue para um sanatório na Suíça, onde convive com poetas ali internados. Só retorna ao Brasil quando estoura a I guerra mundial, porque o franco suíço dobra de valor.
     Esta é a fase de tédio e sofrimento de sua vida, que se reflete em "Cinza das Horas", sua obra de estreia, publicada em 1917 e custeada pelo próprio poeta.
     Seu segundo livro, "Carnaval", publicado em 1919, agora custeado pelo pai, representa seu primeiro passo para a integração definitiva no movimento modernista de São Paulo.
     A esse livro pertence o poema "Os Sapos", que foi lido na Semana de Arte Moderna por Ronald de Carvalho, e serviu de "hino antiparnasiano":

"O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado, diz:
_Meu cancioneiro
É bem martelado.
Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos."

     Por essa época, Bandeira já teria perdido a mãe (1916), irmã (1918),  o pai e o irmão (1920), passando a morar sozinho no Rio, vizinho do amigo Ribeiro Couto. Desse período o poeta diz o seguinte:
     "O meu apartamento, o andar mais alto de um velho casarão quase roído, era, pelo lado dos fundos, posto de observação da pobreza mais dura e mais valente e, pelo lado da frente, zona de convívio com a garotada sem lei nem rei que infestava as minhas janelas restituindo-me de certo modo meu clima de meninice. Na rua do Curvelo reaprendi os caminhos da infância. "(Itinerário de Pasárgada).

A obra "O Ritmo Dissoluto" (1924) reflete esse período de camaradagem carioca em que Bandeira vivia, fazendo de sua casa ponto de encontro de vários artistas. no exemplar a seguir observa-se a evolução do poeta:

Berimbau

"Os aguapés dos aguaçais
Nos igapós dos Japurás
Bolem, bolem, bolem
_Ui ui ui ui ui! Uiva a iara
Nos aguaçais dos igapós
Dos Japurás re dos Purus."

     Com a publicação de "Libertinagem" (1930), pode-se dizer que o poeta alcançou sua fase definitiva de amadurecimento, no sentido de total liberdade estética e de consolidação de sua temática existencial, incorporada a imagens e cenas brasileiras. Pertence a esta obra a "Poética", um de seus poemas mais expressivos. Veja outro exemplo:

Irene no Céu

"Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.
Imagino Irene entrando no céu:
_Licença meu branco!
E S. Pedro bonachão:
_Entra Irene. Você não´
precisa pedir licença."

     Em 1933, Manuel Bandeira é forçado a mudar-se para um pequeno apartamento na Lapa, centro da malandragem carioca e de intelectuais boêmios.
     Publicado nessa época, o livro "Estrela da Manhã" teve pequena tiragem, impressa em papel doado, pois o poeta não encontrou editor. Nele reúnem-se poemas da mais variada temática, desde uma notícia de jornal até uma propaganda de sabonete. A mulher aparece, como sempre, inatingível, preenchendo a imaginação do poeta, de forma viril e carnal, porém longe de ser vulgar:

Estrela da Manhã

"eu quero a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã.

Ela desapareceu ia nua
Desapareceu com quem?
Procurem por toda parte.

Digam que sou um homem sem orgulho
Um homem que aceita tudo
Que me importa?
Eu quero a estrela da manhã.


     Em 1940, publica "Lira dos Cinquent'Anos, onde continua sendo um poeta livre de convenções, porém recupera a métrica e a rima, associando a sonoridade exata da palavra à fluidez musical do ritmo.
     O poema "A Última Canção do Beco", que faz parte dessa obra, foi escrito intuitivamente, durante um trajeto percorrido pelo poeta, enquanto estava num bonde até voltar a sua casa. A respeito do poema, o poeta declarou: "... e fiquei espantadíssimo ao verificar que o poema se compusera, à minha revelia, em sete estrofes, de sete versos, de sete sílabas".

"Beco que nasceste à sombra
De paredes conventuais.
És como a vida, que é santa

Pesar de todas as quedas
Por isso te amei constante
E canto para dizer-te
Adeus para nunca mais!"

     Ainda em 1940, o poeta foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Viveu ainda muitos anos, sempre à espera da morte, publicando até dois anos antes de sua morte (Estrela da Vida Inteira 1966).



Leia o poema que Carlos Drummond de Andrade escreveu em homenagem a Manuel Bandeira:

Declaração a Manuel

Teu verso límpido, liberto
de todo sentimento falso;
teu verso em que amor, soluçante
se retesa e contempla a morte
com a mesma forte lucidez
de que soube enfrentar a vida;
teu verso em que deslizam sombras
que de fantasmas se tornaram
nossas amigas sorridentes,
teu seco, amargo, delicioso
verso de alumbramentos sábios
e nostalgias abissais,
hoje é nossa comum riqueza,
nosso pasto de sonho e cisma:
ele não te pertence mais.

      Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 3 de setembro de 2013

ROMANCE E SONETO

     Certa ocasião, ganhei de presente da minha querida amiga, a poetisa Ana Zélia, o livro Dom Casmurro do consagrado escritor Machado de Assis. Ana dedicou-me o livro com os seguintes dizeres: "Ao poeta Miguel, um livro que por certo o ajudará pelo grande homem que foi Machado." E datou: Manaus, 02 de janeiro de 1998.
     Recebi o livro com alegria e entusiasmo, e guardei-o na estante como se ele estivesse na fila esperando a sua vez, pois tinha outros na sua frente para serem consumidos. Depois de um determinado tempo, chegou enfim, o momento dessa tão esperada leitura, afinal de contas, tratava-se de Machado de Assis.
     Ao discorrer meus olhos ávidos, fui me empolgando com a história de Bentinho e Capitu. Imaginava como seria Bentinho... E Capitu... Machado parecia prender-me cada vez mais no seu enredo. Mas eis que chega o capítulo LV  com o título: "um soneto" que me chamou atenção de cara! Pois no capítulo, Bentinho tenta escrever um soneto e não consegue:

CAPÍTULO LV / UM SONETO

     (...) contarei a história de um soneto que nunca fiz; era no tempo do seminário, e o primeiro verso é o que ides ler:

     Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura!

     Como e por que me saiu este verso da cabeça, não sei; saiu assim, estando eu na cama, como uma exclamação solta, e, ao notar que tinha a medida de verso, pensei em compor com ele alguma coisa, um soneto. A insônia, musa de olhos arregalados, não me deixou dormir uma longa hora ou duas; as cócegas pediam-me unhas, e eu coçava-me com alma. Não escolhi logo, logo, o soneto; a princípio cuidei de outra forma, e tanto de rima como de verso solto, mas afinal ative-me ao soneto. Era um poema breve e prestadio. Quanto à ideia, o primeiro verso não era ainda uma ideia, era uma exclamação; a ideia viria depois. Assim na cama, envolvido no lençol, tratei de poetar. Tinha o alvoroço da mãe que sente o filho, e o primeiro filho. Ia ser poeta, ia competir com aquele monge da Bahia,, pouco antes revelado, e então na moda; eu, seminarista, diria em versos as minhas tristezas como ele dissera as suas no claustro. decorei bem o verso, e repetia-o em voz baixa, aos lençóis; francamente, achava-o bonito, e ainda agora não me parece mau:

     Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura!

     Quem era a flor? Capitu, naturalmente: mas podia ser a virtude, a poesia, a religião, qualquer outro conceito a que coubesse a metáfora da flor, e flor do céu. Aguardei o resto, recitando sempre o verso, e deitado ora sobre o lado direito, ora sobre o esquerdo, afinal deixei-me estar de costas, com os olhos no teto, mas nem assim vinha mais nada. Então adverti que os sonetos mais gabados eram os que concluíam com chave de ouro, isto é, um desses versos capitais no sentido e na forma. Pensei em forjar uma de tais chaves, considerando que o verso final, saindo cronologicamente dos treze anteriores, com dificuldade traria a perfeição louvada; imaginei que tais chaves eram fundidas antes da fechadura. Assim foi que determinei a compor o último verso do soneto, e, depois de muito suar, saiu este:

     Perde-se a vida, ganha-se a batalha!

     Sem vaidade, e falando como se fosse de outro, era um verso magnífico. Sonoro, não há dúvida. E tinha um pensamento, a vitória ganha à custa da própria vida, pensamento alevantado e nobre. Que não fosse novidade, é possível, mas também não era vulgar; e ainda agora não explico por que via misteriosa entrou numa cabeça de tão poucos anos. Naquela ocasião achei-o sublime. Recitei uma e muitas vezes a chave de ouro; depois repeti os dois versos seguidamente, e dispus-me a ligá-los pelos doze centrais. A ideia agora, à vista do último verso, pareceu-me melhor não ser Capitu; seria justiça. Era mais próprio dizer que, na pugna pela justiça, perder-se-ia acaso a vida, mas a batalha ficava ganha. Também me ocorreu aceitar a batalha, no sentido natural, e fazer dela luta pela pátria, por exemplo; nesse caso a flor do céu seria a liberdade. Esta acepção, porém, sendo o poeta um seminarista, podia não caber tanto como a primeira, e gastei alguns minutos em escolher uma ou outra. Achei melhor a justiça, mas afinal aceitei definitivamente uma ideia nova, a caridade, e recitei os dois versos, cada um a seu modo, um languidamente:

     Oh! flor do céu! oh! flor Cândida e pura!

e o outro com grande brio:

     Perde-se a vida, ganha-se a batalha!

     A sensação que tive é que ia sair um soneto perfeito. Começar bem e acabar bem não era pouco. Para me dar um banho de inspiração, evoquei alguns sonetos célebres, e notei que os mais deles eram facílimos, os versos saíam uns dos outros, com ideia em si, tão naturalmente, que se não acabava de crer se ela é que os fizera, se eles é que a suscitavam. Então tornava ao meu soneto, e novamente repetia o primeiro verso e esperava o segundo; o segundo não vinha, nem o terceiro, nem quarto, não vinha nenhum. Tive alguns ímpetos de raiva, e mais de uma vez pensei em sair da cama  e ir ver tinta e papel; pode ser que, escrevendo, os versos acudissem, mas...
     Cansado de esperar, lembrou-me alterar o sentido do último verso, com a simples transposição de duas palavras, assim:

     Ganha-se a vida, perde-se a batalha!

     O sentido vinha a ser justamente o contrário, mas talvez isso mesmo trouxesse a inspiração. Neste caso, era uma ironia: não exercendo a caridade, pode-se ganhar a vida, mas perde-se a batalha do céu. Criei forças novas e esperei. Não tinha janela; se tivesse, é possível que fosse pedir uma ideia à noite. E quem sabe se os vaga-lumes luzindo cá embaixo não seriam para mim como rimas das estrelas, e esta viva metáfora não me daria os versos esquivos, com os seus consoantes e sentidos próprios?
     Trabalhei em vão, busquei, catei, esperei, não vieram os versos. Pelo tempo adiante escrevi algumas páginas em prosa e agora estou compondo esta narração, não achando maior dificuldade que escrever, bem ou mal. Pois, senhores, nada me consola daquele soneto que não fiz. Mas, como eu creio que os sonetos existem feitos, como as odes e os dramas, e as demais obras de arte, por uma razão de ordem metafísica, dou esses dois versos ao primeiro desocupado que os quiser. Ao domingo, ou se estiver chovendo, ou na praça, em qualquer ocasião de lazer, pode tentar ver se o soneto sai. Tudo é dar-lhe uma ideia e encher o centro que falta.

                                    Machado de Assis


     Pois bem, senti-me mexido com tamanha doação, interrompi a leitura e fiquei inquieto, pensativo na grande lição que acabava de receber, talvez a maior lição da minha vida, no que tange à literatura. Machado estava me dando uma aula de como se faz um soneto. (Em outra oportunidade discorrerei melhor sobre esta aula.) E,  num belo dia, dei uma ideia e preenchi o centro que estava faltando:

FLOR DO CÉU

Oh! Flor do céu! Oh! Flor cândida e pura!
Que iluminas a noite com teu lume
Se não vieres acender o cume
Tudo ao teu derredor se enclausura.

Oh! Flor do céu! Oh! Flor tímida e dura!
Habitas com a auréola de nume
Esparzes para longe esse negrume
Que a treva no seu habitar atura.

Oh! Flor do céu! Oh! Flor límpida e bela!
Que mais parece as cores em aquarela
No azul profundo dessa farta malha.

Oh! Flor do céu! Oh! Flor mística e acre!
Quando, das horas, rebentar-se o lacre
Perde-se a vida, ganha-se a batalha!  


                         Miguel de Souza
                  

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

MEUS MESTRES DE SEMPRE

                                                VIOLETA BRANCA



OU VIOLETA OU BRANCA?!

Teu nome a mim ressoa impreciso...
Pois não sei bem ao certo, se violeta
ou branca?! Só sei desta grande poeta,
de poemas eloquentes e precisos...

Que me deixa florir nos lábios risos,
toda vez que releio as formas estetas,
impregnadas lá, como lindas setas,
a direcionar-me sempre ao paraíso!

Mas, sei que és nossa Violeta Branca,
com essa inspiração, por demais franca,
a amenizar os nossos cruéis dias...

Foste a primeira poeta do Amazonas,
a reinar imortal por esta zona,
com as tuas brilhantes poesias!


                   Miguel de Souza

CONTO E HAICAI

     A minha leitura do conto "A PEDRA" do contista Max Carphentier, que está inserido no livro "VITRAIS DA BUSCA", resultou num haicai. O conto me chamou deveras atenção, pela forma com a qual ele foi descrito. Ele narra a trajetória de uma pedra atirada por alguém em direção a uma estátua. Mas a pedra muda no decorrer de sua trajetória o seu itinerário, tendo com isso, um fim trágico. Vamos a ele:

A PEDRA

     Sou uma pedra atirada na direção de uma estátua. Quando atingir o tranquilo objeto pousado sobre a lareira, cumprir-me-ei, no âmago da arte, estilhaçando mármore vivido. Sou  pedra frugal contra pedra emoção transfigurada. Não cabe comentar as origens do gesto que me desferiu, da mão que me fez seta contra o alvo. Mas, não sou descuido,  sou morte. Foi minha funda um coração de ódio. Estou no espaço e a velocidade insana que me move relembra minha ancestralidade vulcânica. Assumo, sem querer, o desatino de quem me lançou. Cresce cada vez mais a estátua diante de mim, a inocência parada, a nudez santificada. Mas, que estou fazendo? Como posso cumprir o gesto que quer destruir uma das mais nobres formas da minha espécie, uma estátua? Aliás, aquela que espera meu golpe mortal, olhando-me de frente, é minha irmã, no seu interior parece-se comigo, embora possua a face revelada da beleza. No início de tudo talvez até tenhamos estado bem juntas, na lenta e polimorfa evolução das rochas. Como posso quebrá-la sem ferir-me? Fiel à nossa origem comum, não poderei violentar, sem corromper-me, o estágio feliz que a incorpora. Aproximo-me velozmente. Sinto, no entanto, que não poderei continuar na mesma direção. Surpreendo-me em pleno instante de pedra redimida. Devo salvá-la, frustrando a perversa e exata trajetória em que viajo.  Meio metro apenas nos separa: sinto seu pulsar de estátua a comover-me, e esforço-me no desesperado afã de desviar-me.
     E na sala do chalê, naquele outono, não percebeu ninguém que, na lareira, uma pedra morria ardendo em chamas e uma Vênus intacta soluçava.


                                             Max Carphentier


     Já no que concerne ao haicai, há um contraponto no seu desfecho, pois a pedra chega ao seu objetivo final que seria atingir a estátua.


HAICAI

Uma pedra-seta:
Atinge em cheio uma esfinge,
Cumpre sua meta.


                                              Miguel de Souza