sábado, 28 de julho de 2018

SER

O filho que não fiz
hoje seria homem.
Ele corre na brisa,
sem carne, sem nome.

Às vezes o encontro
num encontro de nuvem.
Apoia em meu ombro
seu ombro nenhum.

Interrogo meu filho,
objeto de ar:
em que gruta ou concha
quedas abstrato?

Lá onde eu jazia,
responde-me o hálito,
não me percebeste,
contudo chamava-te

como ainda te chamo
(além, além do amor)
onde nada, tudo
aspira a criar-se.

O filho que não fiz
faz-se por si mesmo.
Carlos Drummond Andrade


O filho
               
                  Paráfrase do poema “Ser” de Carlos Drummond de Andrade        

Onde está você?
Já tenho seu nome!
Mais um de arcanjo,
Másculo de homem.

Sei que falta a fonte,
Que falta o depósito
Onde derramarei o
Sêmen de propósito...

É longa essa espera!
Tenha paciência,
Um dia nascerá,
 Envolto em ciência,

O filho que não fiz.
Mas hei de fazê-lo!
E serei feliz,
Feliz por tê-lo!

O seu nome algum,
Será?... bem, nada
De nome comum,
Como o próprio Miguel.

O seu nome algum,
Será Rafanael.

Miguel de Souza






sábado, 21 de julho de 2018

sábado

músicas antigas na rádio
um silêncio de tristeza
rebenta meus tímpanos
já não sou mais eu

ou melhor, achei minha identidade!

sou esse que habita
em nada; porque o nada
habita em mim...

um vácuo me persegue
uma ausência me aborda
e uma lacuna me transforma
nesse homem triste que lês

caro leitor!


Miguel de Souza

sábado, 14 de julho de 2018

"ESTALTA" VIVA

Imóvel como uma esfinge,
de "coca", bem firme à proa
de uma vetusta canoa,
o "caboco" rijo, finge
ser uma "estalta" viva!
Nem a "mutuca" que pousa,
e nem uma 'galça" que ousa
voar, mas logo se esquiva,
tiram a concentração
do "caboco", que intacto,
não causa nenhum impacto,
armado com seu arpão!
             Envolto em "mureru",
             na pesca do pirarucu.

Miguel de Souza
In: Poemais
P.66

sábado, 7 de julho de 2018

DEPOIS DA COPA


Depois da Copa tudo volta ao normal!
Chega de análises e esquema tático;
E de tantos problemas matemático,
Para classificar-se e coisa e tal!

E se não conseguirmos, não faz mal;
Amanhã voltaremos ao prático...
Desabafemos num soneto sáfico,
Todas as nossas falhas, afinal!

Há uma Copa pra gente em cada esquina,
P’lo menos é o que a vida determina,
Pra lutarmos com muita garra e raça!

Logo após os noventa minutos,
Colheremos dessa árvore, o mor fruto...
Ao soerguermos, nesse campo, a taça!

Miguel de Souza





domingo, 1 de julho de 2018

O GIGANTE


O gigante de braços abertos
Para mim, nesta vasta multidão!
É este mesmo gigante, que por certo,   
Cerra os braços sem muita contrição!

Desde quando garoto muito esperto,
Que pisei no teu nobre coração,
 Foi que senti o desejo sempre perto,
 De pisar no teu chão com emoção!

Quando é que vou pisar teu solo, enfim,
 E sentir toda essa emoção assim,
 Como poeta menor da minha zona!

 Quando é que em teu âmago direi versos,
 Oh, cobiçoso teatro do universo
 Dessa plêiade do nosso Amazonas!         

 Miguel de Souza