sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Ana Zélia da Silva (16.11.1943 - 16.10.2017)



PERFIS

Da performance da atriz
que nos palcos está em voga,
da advogada que não advoga
pelos cantos do país.

Da mulher que nunca joga
e sempre soube o que diz,
da locutora de folga
retrato aqui seus perfis.

Da poetisa aguerrida
pelas coisas da Amazônia:
-um símbolo em nossas vidas!-

Um exemplo de coragem, e
como todo vate sonha,
a Ana Zélia esta homenagem.

Miguel de Souza
In: Poemais
P. 53

P.S. A minha gratidão sempre a Ana Zélia da Silva, ela que surfava nas ondas sonoras de uma rádio, divulgando os valores da terra no seu Momento Poético. Quanta saudade!


TRAVESSIA DA POETA

O barco chegou.
A poeta atravessou.

Mas antes cantou
a última canção:

Uma balada emotiva
de sonora comoção.

Celebrou a vida.
No badalar do coração.

O barco chegou...

Gadi

*Homenagem do Gadi ao saber do passamento da poetisa.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

MILAGRES DE NOSSA SENHORA APARECIDA

                                                
                                                                                                                                                  







A LIBERTAÇÃO DO ESCRAVO ZACARIAS

O escravo Zacarias parte em fuga,
Por achar esquisita a sua vida;
E é capturado logo em seguida,
Por seu senhor que o prende e o subjuga.
                 
Mas quando, ao ser levado de volta,
Passaram próximo da capelinha,
Ele pediu pra junto à imagenzinha,
Apesar de ser vítima de escolta,

Rezar com sua fé na Virgem Santa.
A fé em Nossa Senhora foi tanta,
Que as correntes e argolas que ele tinha,

Romperam-se e quedaram-se aos seus pés!
Seu senhor deu-lhe a sua liberdade,
E Zacarias, um dos filhos mais fiéis.


O pequeno mendigo paralítico

A imagem da Virgem Santa: Nossa
Senhora da Conceição Aparecida,
Diante daquela gente tão sofrida,
que se acotovelavam a Vossa

presença, ávidos por um milagre;
parece exercer algum fascínio,
por internalizar em seus escrínios,
curas a quem o povo Vos consagre!

Pois, veio de Barra Mansa a notícia,
De um menino quase paralítico,
Que ouviu o conselho de um missionário.

Envolto no apogeu de suas primícias,
Tendo na Virgem Santa, algo mítico,
O mesmo foi curado com o novenário.


 A menina esfaqueada

A imagem da Santa estava esposta,
E vinha todo dia rezar uma menina,
Que tinha sido péssima a sua sina,
Pois, fora vítima de uma ira posta a

Ela, por um imigo de seu pai!
Que, com ares maldosos, assassinos,
Mudara o curso do seu destino,
transformando sua vida num grande ai!

Um dia, pede à sua mãe uma moeda,
Para depositar ao pé da imagem,
Impossível para alcançar a altura!

Com fé, e sem temer aquela queda,
A menina vestiu-se de coragem,
E ofertou-a à Santa. E obteve a cura!


Diante de uma onça feroz

Este fato narrado por carta,
Ocorreu na Fazenda das Araras:
Tiago Terra que por lá andara,
E de Nossa Senhora não se aparta,

Foi surpreendido por uma feroz
Onça, que atravessou seu caminho;
Sem armas e, sem forças e, sozinho...
Só lhe restou recorrer-vos a Vós!

E deu um grito forte de socorro:
– Valha-me, minha Mãe Aparecida!
Que a onça assustada saiu à direita,

Deixando Tiago ileso, num modorro,
Agradecendo à Santa pela vida,
Por ser até hoje pessoa escorreita!


A serra elétrica parou milagrosamente

Dos milagres de Nossa Senhora,
Esse foi mais um feito nessa terra:
De ter parado a elétrica serra,
No exato instante, em cima da hora

De decepar o braço do Seu José.
Que estava a fazer um reparo,
Sem saber que custava tão caro, e
Foi salvo, dessa forma, pela fé!

Pois ele ficou com o braço preso,
Mas saiu daquilo tudo são, ileso,
P’la fé depositada em Nossa Senhora.

E naquele momento de perigo,
Clamou à Nossa Senhora Aparecida! E digo
Que ele foi atendido nessa hora!
            
 Sentiu um toque sobrenatural e ficou curada

Desenganada pela medicina,
Recolhida, imóvel, ao seu leito,
Sua vida não teria outro jeito,
Era mesmo de dar dó sua sina!

Foi quando teve a ideia de pagar
Uma promessa feita, e não cumprida!
A Nossa Senhora Aparecida,
E ir à Vossa capela visitar.

Após longo tempo de muita reza,
Como uma devota que se preza.
Sentiu um toque sobrenatural!

Com muito esforço conseguiu mover-se,
Daí a pouco, por completo, locomover-se,
Afastando de si aquele mal!

Miguel de Souza




sábado, 7 de outubro de 2017

DOMINGO

                                                                                             
Domingo não é dia de feira.
É dia de fazer feira.
Dia de feira é de segunda a sexta.
Exceto o sábado, é claro.


                         Miguel de Souza

sábado, 30 de setembro de 2017

SOBRE POEMAS



Outro dia, encontrei um poema solto dentro do livro de um poeta espanhol que havia conhecido em trânsito por Manaus. Sinceramente não me lembro de quem, e nem como esse poema foi parar lá! No final do texto, deparei-me com uma assinatura, creio eu, do autor daquela obra. Mesmo assim, não me ocorreu a lembrança de ninguém.
Costumo guardar todos os poemas que recebo de amigos poetas. Tenho vários... Mas não conheço nenhum Noel Yvel. Poderá ser um pseudônimo talvez, não sei! Um dia, quem sabe, quando estiver com a cuca fresca, eu me recorde desse nobre poeta e, depois de uma boa gargalhada, peça desculpas a ele, pelo mico do esquecimento.
Ou quem sabe, você meu “anônimo amigo” está lendo este texto, nesse exato momento, e se divertindo com essa situação. Certa feita, numa conversa com uma amiga, proferi a seguinte frase: “não vejo o poeta na poesia, e sim, a poesia no poeta.” Isto deve consolar-te um pouco, acho. O fato é que nunca mais me esqueci desta frase que soou como um pensamento. Assim como acho que quem deve aparecer é a minha poesia, e não eu.
Achei deveras interessante teu poema meu caro. É emblemático. Enigmático. Filosófico. Espiritual. Fala de amizade. Parece realmente me conhecer profundamente, se é que alguém conhece alguém profundamente. E no final se despede com um adeus. É lindo e triste!
Não sou um sujeito curioso. Mas gostaria realmente de saber quem seria o poeta de tão maravilhoso poema que estava ali, dentro daquele livro, esperando uma mão que o recolhesse para a salutar leitura. Lembrou-me um soneto que fiz outro dia: “Apresentação”, pelas circunstâncias que os envolve.


ANÔNIMO AMIGO

Irmão,
sou teu anônimo amigo, laboras como eu
todo dia de sol a sol.
Em te ver, eu me vejo.
Porque também vivencio esta busca
que alguns chamam de felicidade.

Todo dia eu te vejo. Você também me vê.
O teu semblante hoje é diferente de ontem.
Também, eu sou diferente.
Nós temos mil faces. Porém , somos os mesmos
de todos os dias.

Teu nome? O que fazes? Não sei! Oxalá soubesse.
Maior seria minha admiração por ti.
Quantas qualidades tu ocultas, exclusivamente tuas.

Sabe amigo,
talvez nunca mais nos encontremos.
Porém, recebe de mim profundo sentimento de gratidão.
Pois, contigo aprendo dia a dia,
a suportar as dores do mundo.
Obrigado meu anônimo amigo,
que a paz do Senhor te acompanhe.

Noel Yvel 

sábado, 23 de setembro de 2017

O POVO

                                         Ao povo brasileiro
1      
                                  O povo, na verdade, é um cavalo,
2                                                       Que colocaram nele uma antolha!
3                                                        Direcionando-o para onde ele olha,
4                                                        Causando na nação grande abalo.

5                                                         E quando, com alguns deles, resvalo,
6                                                         Com dó fico, por essa tal escolha!
7                                                         Eles são como o vento, e o povo a folha,
8                                                         Que é levado por eles ao ralo!...

9                                                          “Liberta Barrabás e prende Jesus”,
1                                   A plebe, sem inteligência, luz,
1                                   Clamou assim praticando injustiça.

1                                                           O povo, no passar do tempo, é o mesmo...,
1                                                           E a conseqüência das bobagens a esmo,
1                                  Sofremos todos numa fé postiça!

                                            Miguel de Souza



sábado, 16 de setembro de 2017

SOBRE LIVROS



Acredito que os poetas não deveriam lançar livros. Pois o que fica são os poemas soltos, fora da amarra enfileiradas de páginas e mais páginas amontoadas em bibliotecas que pouca gente lê. Em contrapartida, os livros servem para apurar esses poemas que se sobressaem sobre os outros. Em se tratando de livros sou mesmo assim.
Querem ver só: dos cinquenta poemas que compõem Esconderijos do tempo, de Mário Quintana, apenas quatro foram os que se sobressaíram sobre os outros. São eles: Os poemas, Bilhete, Seiscentos e sessenta e seis e Solau à moda antiga. Não que os outros não tenham menos qualidade, não é isso. Mas foram esses que caíram na graça do povo, que é quem dita o sucesso.
Há livros que de cara não gosto. Mas depois de certo tempo, passo a amá-los! O poeta Mário Quintana foi um especialista em títulos. O livro o Aprendiz de feiticeiro, é tido como o melhor livro de poemas de Quintana. O mais maduro segundo Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade.
Em Sapato florido, há uma quebra que surpreendeu muita gente. Pois é um livro de prosa poética. O poeta deixa de lado a métrica e a rima da Rua dos cataventos Canções, para se aventurar nesse gênero limítrofe. Um livro singular na obra de Quintana. O que tenho percebido na sua poética, é que o poeta ora aqui ora acolá, continua no decorrer de sua trajetória fazendo os sonetos e as canções dos primeiros livros, principalmente em A cor do invisível. Sonetos como: As estrelas, Detrás de um muro surge a lua, Ah, os relógios... entre outros e muitas canções espalhadas pela sua trajetória, afirmam isso. 
Agora quero falar de um livro que foi amor à primeira vista: Espelho mágico. Delicioso livro. São 111 quadras de métricas variadas, com título. "São poemas breves, no qual os dois últimos versos espelham os dois primeiros, como se os invertessem," [...] Explicita Tania Franco Carvalhal, na orelha do livro.

Miguel de Souza

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

O FUMAÇA

O “Fumaça” não se foi qual fumaça,
Como se foram muitos desse tempo.
Nos percalços da vida, contratempos,
A ingerir também doses de cachaça.
                            
Como um bruto zagueiro, ele rechaça
Bem pra longe essa tal bola-tempo,
Em vão... Pois fica sempre o tal exemplo,
Ou bom ou mau que nunca mesmo passa.

Tenho asco dos que de ti, sentem asco,
Querido companheiro da infância,
Do qual o tempo, a meu ver, foi carrasco.

Como poeta que sou, extraio substância
Das substâncias contidas em frascos,
E oferto a todos minha repugnância!


Miguel de Souza