sábado, 26 de maio de 2018

COPA DO MUNDO


O poeta Carlos Drummond de Andrade se despediu da copa de 1978 com um poema:


FOI-SE A COPA?

Foi-se a Copa? Não faz mal.
Adeus chutes e sistemas.
A gente pode, afinal,
Cuidar de nossos problemas.

Faltou inflação de pontos?
Perdura a inflação de fato.
Deixaremos de ser tontos
se chutarmos no alvo exato.

O povo, noutro torneio,
Havendo tenacidade,
Ganhará, rijo, e de cheio,
A Copa da Liberdade.



E eu, vinte anos depois, dei as boas vindas à copa de 1998. Confiram:

Bem-vinda!

Que seja bem vinda a copa,
Junto ao mês de junho...
E que, do Brasil, a tropa
Aja com garra e punho!

Que daqui do nosso campo,
Faremos a nossa parte!
Com um futebol bem amplo,
Seremos campeões com arte!

E, logo após, a copa que finda,
Reinicia a nossa luta!
Que esta copa seja bem vinda,
Nossa copa da labuta!

Miguel de Souza 






domingo, 20 de maio de 2018

EU NÃO SOU BRASILEIRO

Eu não sou brasileiro
de um Brasil desonesto.
E por causa dessas coisas,
deixo aqui o meu protesto.

Eu não sou brasileiro
de um Brasil desigual.
De um Brasil mau-caráter,
onde a fome não faz mal.

Eu não sou brasileiro
de um Brasil corrompido.
Onde se prende o inocente
e estão soltos os bandidos.

Eu não sou brasileiro
de um Brasil sem vergonha,
onde a corrupção é quem manda.
Isto tudo me  envergonha.

Eu não sou brasileiro
de um Brasil cafajeste,
que só olha para o Sul
e esquece do Nordeste.

Eu não sou brasileiro
de um Brasil sem moral.
De um Brasil sem pão à mesa,
sem trabalho e capital.

Miguel de Souza

domingo, 13 de maio de 2018

DIA DE NOSSA SENHORA DE FÁTIMA

LEMBRANÇA DE FÁTIMA

Em Vosso solo urbano
milhões de formigas
laboram pela salvação.
Procissam com cânticos no Vosso dia
Senhora de Fátima.

A cidade Vos pensa
                Vos reza
                Vos venera
Oh, adorável Santa!

Àquelas três crianças...
Por isso o Vosso nome
                                      na cidade!
Àquelas três crianças...
                                                        Por isso Vos gloriamos
                                                                                         de verdade!

                                                  Oh, Nossa Senhora de Fátima!

                                                           
                                                             Miguel de Souza



sábado, 12 de maio de 2018

DIA DAS MÃES

parto

do molambo da língua paralítica
é que surge por esse transporte!
vem rompendo igualmente a um corte,
pela matéria tênue, fraca, raquítica...

e chega ao vão da boca oca e mítica,
essa exígua carcaça como suporte...
elo profundo dentre a vida e a morte,
motivo sórdido de horrendas críticas.

e nesse esbravejar sem deleite,
reclama, ao menos, uma gota de leite,
e sua mãe o sustém nos seios fartos!

depois do aconchego dessa cena,
a criança se recolhe tão serena,
nos recônditos simples de seu quarto.

miguel de souza

domingo, 6 de maio de 2018

PERIPÉCIAS

Ela rola no peito
ela roça no pé
ela parte com efeito
e a torcida grita olé!

Ela quica, ela salta
ela voa, ela pousa...
Na cobrança de uma falta
deitar na rede, ela ousa!

Ela para, ela gira
ela corre e não cansa.
De quem falo? Confira
com o ponta-de-lança!

Ela cruza, faz curva
ela sobe, ela cai...
E, suavemente, na luva
do goleiro, ela vai!

Ela vai, ela vem
ela pinta, ela borda.
É minha! E de ninguém!
E a alegria se transborda!

Ela deita, ela rola
ela faz o seu show!
A maior peripécia da bola
é quando acontece o gol!

Miguel de Souza

sábado, 28 de abril de 2018

DESFECHO


A história de ontem, de hoje, de sempre...
Mostra-nos que quem foi a favor do povo,
Se lascou, se lasca e se... de novo,
Quem fez ou quem faz parte dessa trempe!

E se você não lembra. Por favor, lembre
Da história genuína como o ovo,
Que se renova a cada hera num renovo,
Para mostrar a ingratidão! Relembre...

Verás que o povo se voltará contra,
Achando seu comportamento afronta,
E apoiará, por fim, sua condenação!

Se minha atitude, talvez, não o agrade,
Temo por ir também atrás das grades,
Como o ex-Presidente desta nação!

Miguel de Souza

sábado, 21 de abril de 2018

SAUDADE

"Li o Eu na adolescência e foi como se levasse um soco na cara. Jamais eu vira antes, engastadas em decassílabos, palavras estranhas como simbiose, mônada, metafisicismo, fenomênica, quimiotaxia, zooplasma, intracefálica... E elas funcionavam bem nos versos! Ao espanto sucedeu intensa curiosidade. Quis ler mais esse poeta diferente dos clássicos, dos românticos, dos simbolistas, de todos os poetas que eu conhecia. A leitura do Eu foi para mim uma aventura milionária. Enriqueceu minha noção de poesia. Vi como se pode fazer lirismo com dramaticidade permanente, que se grava para sempre na memória do leitor. Augusto dos Anjos continua sendo o grande caso singular da poesia brasileira." Disse Carlos Drummond de Andrade.

Hoje que a mágoa me apunhala o seio,
e o coração me rasga atroz, imensa,
eu a bendigo na descrença em meio,
porque eu hoje só vivo da descrença.

À noute quando em funda soledade
minh'alma se recolhe tristemente,
pra iluminar-me a alma descontente,
se acende o círio triste da saudade.

E assim afeito às mágoas e ao tormento,
e à dor e ao sofrimento eterno afeito,
para dar vida à dor e ao sofrimento,

da saudade na campa enegrecida
guardo a lembrança que me sangra o peito,
mas que no entanto me alimenta a vida.

Augusto dos Anjos