Existem algumas diferenças do texto escrito no papel e o texto lido ou declamado, como queiram. Às vezes a rima pode-se dizer que é falsa, porque ela está lá! O poeta rimou seu soneto perfeitamente. Mas ao dizer o poema, se o declamador obedecer à pontuação, a rima desaparece. Por isso (grifo meu) digo que se trata de rima falsa. É o que podemos chamar de cavalgamento: o seguimento da fala no final do verso, fazendo com que a rima desapareça.
Vejamos o soneto "Versos de orgulho" de Florbela Espanca:
"O mundo quer-me mal porque ninguém
tem asas como eu tenho! Porque Deus
me fez nascer princesa entre plebeus
numa torre de orgulho e de desdém.
Porque o meu reino fica para além...
Porque trago no olhar os vastos céus
e os oiros e clarões são todos meus!
Porque eu sou Eu e porque eu sou ninguém!
O mundo? O que é o mundo, ó meu amor?
- O jardim dos meus versos todo em flor...
A seara dos teus beijos, pão bendito...
Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços...
- São os teus braços dentro dos meus braços,
Via Láctea fechando o infinito."
Florbela Espanca
In: Charneca em flor (1930)
P.: 65
Logo no primeiro verso da primeira estrofe acontece o que chamo de rima falsa, pois o seguimento do primeiro verso para o verso seguinte, isto é, sem pausa, faz com que a rima "ninguém" desapareça. A pausa ao pontuador obediente acontece na palavra "tenho" por conta da exclamação. Na fala, portanto, não existe a rima.
sexta-feira, 17 de julho de 2015
quinta-feira, 9 de julho de 2015
NO QUE VOCÊ ESTÁ PENSANDO?
Resposta em forma de poema.
Sei lá!
Talvez no vento que bate no rio,
no cicio que vem das espumas;
ou na vida a passar sem pressa,
e confessa a cor dessas brumas.
Sei lá!
Talvez na brisa que sopra nas folhas,
ou na bolha que se desfaz frágil!
Ou no sol que empresta seu lume,
com ciúme do tempo tão ágil!
Sei lá!
Talvez no amor a florir os caminhos,
ou carinhos no vão desse tempo;
ou no ódio, antônimo do bem,
que não tem regaço no templo.
Sei lá!
Talvez no sol nesse vasto ocaso,
por acaso no dia que se vai...
Ou na lua a surgir tão bela,
aquarela num átimo haicai.
Sei lá...
Miguel de Souza
Sei lá!
Talvez no vento que bate no rio,
no cicio que vem das espumas;
ou na vida a passar sem pressa,
e confessa a cor dessas brumas.
Sei lá!
Talvez na brisa que sopra nas folhas,
ou na bolha que se desfaz frágil!
Ou no sol que empresta seu lume,
com ciúme do tempo tão ágil!
Sei lá!
Talvez no amor a florir os caminhos,
ou carinhos no vão desse tempo;
ou no ódio, antônimo do bem,
que não tem regaço no templo.
Sei lá!
Talvez no sol nesse vasto ocaso,
por acaso no dia que se vai...
Ou na lua a surgir tão bela,
aquarela num átimo haicai.
Sei lá...
Miguel de Souza
quinta-feira, 2 de julho de 2015
A POESIA PODE SALVAR VIDAS?!
Certa vez, ao responder uma pergunta de uma locutora num programa de rádio, falei que o poeta tem que ser salvo pela poesia para tornar-se grande, e que tem que ter gratidão a ela. E ao escrever, escrever com a consciência de que o seu trabalho pode sim, salvar vidas. Quantas vezes fui salvo pela poesia! Quantas vezes, na solidão do meu quarto, me deparei com algum texto de algum poeta distante, que não sabe nem se eu existo, mas salvou a minha vida.
Estou contando isso pelo fato ocorrido na noite de ontem no Largo de São Sebastião, Eu, Nelson Castro e Gracinete Felinto, estávamos no "Tacacá da Bossa", e encontramos por lá Bruna Marinho, uma artista plástica super talentosa. Conversa vai e conversa vem, lá pelas tantas, Bruna falou da nossa importância na vida dela, que ao se sentir sozinha tinha na leitura a companhia ideal...
E sempre lia a nossa antologia, a "Quinta Estação". E a leitura lhe devolvia o prazer pela vida.
Eu que tantas vezes fui salvo, agora juntamente com meus companheiros de geração, passo através da poesia a salvar vidas também. Existem alguns sonhos que não sei se realizarei, como deixar algo que vire um dito popular, do tipo: "a noite é uma criança" ou "a pedra no meio do caminho", alguém que coloque música num poema meu, enfim, são sonhos, apenas sonhos.
Outro dia, Bruno Pantoja um dos mais novos integrantes do CLAM, me afirmou que numa dessas minhas apresentações por aí afora, fui tão contundente que o deixei sem fôlego na plateia. Achei um exagero da parte dele. Mas sei que estava falando a verdade, pois o Bruno não é de lorota.
Estou contando isso pelo fato ocorrido na noite de ontem no Largo de São Sebastião, Eu, Nelson Castro e Gracinete Felinto, estávamos no "Tacacá da Bossa", e encontramos por lá Bruna Marinho, uma artista plástica super talentosa. Conversa vai e conversa vem, lá pelas tantas, Bruna falou da nossa importância na vida dela, que ao se sentir sozinha tinha na leitura a companhia ideal...
E sempre lia a nossa antologia, a "Quinta Estação". E a leitura lhe devolvia o prazer pela vida.
Eu que tantas vezes fui salvo, agora juntamente com meus companheiros de geração, passo através da poesia a salvar vidas também. Existem alguns sonhos que não sei se realizarei, como deixar algo que vire um dito popular, do tipo: "a noite é uma criança" ou "a pedra no meio do caminho", alguém que coloque música num poema meu, enfim, são sonhos, apenas sonhos.
Outro dia, Bruno Pantoja um dos mais novos integrantes do CLAM, me afirmou que numa dessas minhas apresentações por aí afora, fui tão contundente que o deixei sem fôlego na plateia. Achei um exagero da parte dele. Mas sei que estava falando a verdade, pois o Bruno não é de lorota.
sábado, 27 de junho de 2015
BIRO-BIRO
Quando eu era menino nos idos dos anos 80, tinha certa raiva do Biro-Biro. Mas era uma raiva boa, se é que isso existe. O cara parecia eterno com aquela camisa de número 5 do Corinthians. Era um jogador muito regular, nunca o vi tomando um cartão amarelo, que dirá sendo expulso. Nunca soube que o cara tinha se machucado e ficado de fora de tal jogo. Quando o Corinthians jogava, lá estava o Biro-Biro com aquela cabeleira marcante no meio de campo do Timão.
Sem contar que dificilmente errava um passe. Quando a bola chegava nele, a jogada tinha sempre um prosseguimento. Não era um craque, mas fazia o seu feijão com arroz bem feito. Não me lembro do Biro-Biro metido em alguma confusão dentro ou fora de campo com ninguém. Outro dia, ao assistir um jogo do Corinthians pela tevê, o vi na arquibancada torcendo pelo seu time. Tive uma espécie de saudade do cara, e findei lhe escrevendo um poema.
Quando eu era menor
achava que todos passariam
exceto o Biro-Biro!
Ele continuaria empunhando
a camisa alvinegra
do Corinthians
aquela de número cinco.
Um dia desses o vi
na arquibancada
torcendo pelo Timão!
É, senhoras e senhores
tudo passa, até o Biro-Biro!
Miguel de Souza
Sem contar que dificilmente errava um passe. Quando a bola chegava nele, a jogada tinha sempre um prosseguimento. Não era um craque, mas fazia o seu feijão com arroz bem feito. Não me lembro do Biro-Biro metido em alguma confusão dentro ou fora de campo com ninguém. Outro dia, ao assistir um jogo do Corinthians pela tevê, o vi na arquibancada torcendo pelo seu time. Tive uma espécie de saudade do cara, e findei lhe escrevendo um poema.
Quando eu era menor
achava que todos passariam
exceto o Biro-Biro!
Ele continuaria empunhando
a camisa alvinegra
do Corinthians
aquela de número cinco.
Um dia desses o vi
na arquibancada
torcendo pelo Timão!
É, senhoras e senhores
tudo passa, até o Biro-Biro!
Miguel de Souza
domingo, 21 de junho de 2015
NOIVADO
Muitas felicidades pra Fernanda e pro Aurélio que ficaram noivos ontem, e proporcionaram um jantar para celebrar o acontecimento. O amor está no ar!
Ontem à noite, lá no Parque dez
Fernanda e Aurélio se tornaram noivos...
Então, pra lá, também me locomovo
Para prestigiar a troca de anéis.
Ah, o amor! É tão lindo que me comovo
Com a cena dos noivos tão fiéis!
Fernanda e Aurélio cumprem seus papéis
E têm das genitoras o aprovo.
"O amor quando acontece", poema dito
Para ornar esse amor tão bonito
E selar a alegria do momento.
Espero, novamente, nesse regaço
Poder voltar, para o seguinte passo...
O belíssimo passo do casamento.
Miguel de Souza
Ontem à noite, lá no Parque dez
Fernanda e Aurélio se tornaram noivos...
Então, pra lá, também me locomovo
Para prestigiar a troca de anéis.
Ah, o amor! É tão lindo que me comovo
Com a cena dos noivos tão fiéis!
Fernanda e Aurélio cumprem seus papéis
E têm das genitoras o aprovo.
"O amor quando acontece", poema dito
Para ornar esse amor tão bonito
E selar a alegria do momento.
Espero, novamente, nesse regaço
Poder voltar, para o seguinte passo...
O belíssimo passo do casamento.
Miguel de Souza
sexta-feira, 19 de junho de 2015
BLOOMSDAY
O dia 16 de junho é uma data festiva que o mundo inteiro comemora, denominado Bloomsday, em homenagem a James Joyce, o autor de Ulisses, romance cujo protagonista é Leopold Bloom. Belo Horizonte - MG, Santa Maria -RS, São Paulo - SP, Rio de Janeiro - RJ entre outras, são algumas das cidades que comemoram esta data. E Manaus, agora passa a fazer parte desta lista, através do Clube Literário do Amazonas (CLAM), que no último dia 16 comemorou o dia do Bloom com um sarau intitulado Bloomsday.
PROGRAMAÇÃO BLOOMSDAY
20 h - Ulysses
Performance Joyciana - Leitura de Ulysses
por Jorge Bandeira
Performance Nonsense
Grupo Metaphora
Sarau
Musical Lira da Madrugada
Mauri MRQ e Zemaria Pinto
Poetas do CLAM
Gracinete Felinto
Eylan Lins
Miguel de Souza
Convidado Especial
Celestino Neto
Literatura de Cordel
Edivan Rafael
Zémaria
James Joyce (1882 - 1941) nasceu em Dublin na Irlanda em 2 de fevereiro de 1882. Filho de rica família católica, recebe uma rígida formação com padres jesuítas, contra a qual mais tarde se rebela. Foi aluno da Universidade de Dublin, onde estudou inglês, francês e italiano. Participou de grupos de literatura e teatro.
Suas primeiras experiências literárias são conservadoras, marcadas pela influência do realismo de Ibsen e pelos simbolistas. É o caso dos poemas em "Música de Câmara" em 1907, seu primeiro livro. Em 1914, publica a "Coletânea de Contos Dublinenses" e, em 1916, "Retrato do Artista Quando Jovem", reminiscências de sua infância e adolescência em Dublin.
Em 1922, publica "Ulisses", cuja história passa-se em um único dia, 16 de junho de 1904, em Dublin. Seus personagens Stephen Dedalus, Leopold Bloom e Molly Bloom, enfrentam situações correspondentes aos episódios da Odisséia, de Homero. Nessa obra, Joyce reinventa a linguagem e a sintaxe. Radicaliza a linguagem narrativa, explorando processos de associação de imagens e recursos verbais, paródias estilísticas e o fluxo da consciência. Também incorpora teorias da psicanálise freudiana sobre o comportamento sexual. O livro é proibido no Reino Unido e nos Estados Unidos, onde só é liberado em 1936.
Joyce sofre seguidas cirurgias em razão de problemas na visão. Sua última obra é "Finnegans Wake" (1939), Na qual leva às últimas consequências as inovações estéticas e linguísticas apresentadas em Ulisses. Morre no dia 13 de janeiro de 1941, em Zurique.
nonsense
para Jorge Bandeira
... a intuição
mágica
do artista
sob a luz da criação
entre o lúcido clown
e o lúdico mágico das artes
entre o ritmo do Sigur
e o cine control
entre o texto do Beckett
e o contexto do Kafka
entre o sânscrito do Ramayama
e o uivo do Ginsberg
entre os cantos do Lautréamont
e os do Drummond
entre as flores do Baudelaire
e o ulisses do Joyce
entre o blue jeans
e o naturalmente nu
entre o muito pouco
e a plenitude do instante
entre a astronave dos livros
e o teatro dos livres
entre o absurdo da vida
e o óbvio ululante da morte
todos nós
...entretanto...
entreatos
a iluminante e luminosa
arte de ser Sendo...
Nelson Castro
Lisonjeado com uma pequena pérola que Jorge Bandeira dedicou a mim neste dia do Bloom. Obrigado irmão!!
Bloomsday. 16. junho. 2015. Manaus
Este poeta
tem algo de útil
na sua figura de
Quixote. De sonho
e de delírio.
Não causa amargor
nesta tua caligrafia
do amor letrado.
Jorge Bandeira
PROGRAMAÇÃO BLOOMSDAY
20 h - Ulysses
Performance Joyciana - Leitura de Ulysses
por Jorge Bandeira
Performance Nonsense
Grupo Metaphora
Sarau
Musical Lira da Madrugada
Mauri MRQ e Zemaria Pinto
Poetas do CLAM
Gracinete Felinto
Eylan Lins
Miguel de Souza
Convidado Especial
Celestino Neto
Literatura de Cordel
Edivan Rafael
Zémaria
James Joyce (1882 - 1941) nasceu em Dublin na Irlanda em 2 de fevereiro de 1882. Filho de rica família católica, recebe uma rígida formação com padres jesuítas, contra a qual mais tarde se rebela. Foi aluno da Universidade de Dublin, onde estudou inglês, francês e italiano. Participou de grupos de literatura e teatro.Suas primeiras experiências literárias são conservadoras, marcadas pela influência do realismo de Ibsen e pelos simbolistas. É o caso dos poemas em "Música de Câmara" em 1907, seu primeiro livro. Em 1914, publica a "Coletânea de Contos Dublinenses" e, em 1916, "Retrato do Artista Quando Jovem", reminiscências de sua infância e adolescência em Dublin.
Em 1922, publica "Ulisses", cuja história passa-se em um único dia, 16 de junho de 1904, em Dublin. Seus personagens Stephen Dedalus, Leopold Bloom e Molly Bloom, enfrentam situações correspondentes aos episódios da Odisséia, de Homero. Nessa obra, Joyce reinventa a linguagem e a sintaxe. Radicaliza a linguagem narrativa, explorando processos de associação de imagens e recursos verbais, paródias estilísticas e o fluxo da consciência. Também incorpora teorias da psicanálise freudiana sobre o comportamento sexual. O livro é proibido no Reino Unido e nos Estados Unidos, onde só é liberado em 1936.
Joyce sofre seguidas cirurgias em razão de problemas na visão. Sua última obra é "Finnegans Wake" (1939), Na qual leva às últimas consequências as inovações estéticas e linguísticas apresentadas em Ulisses. Morre no dia 13 de janeiro de 1941, em Zurique.
nonsense
para Jorge Bandeira
... a intuição
mágica
do artista
sob a luz da criação
entre o lúcido clown
e o lúdico mágico das artes
entre o ritmo do Sigur
e o cine control
entre o texto do Beckett
e o contexto do Kafka
entre o sânscrito do Ramayama
e o uivo do Ginsberg
entre os cantos do Lautréamont
e os do Drummond
entre as flores do Baudelaire
e o ulisses do Joyce
entre o blue jeans
e o naturalmente nu
entre o muito pouco
e a plenitude do instante
entre a astronave dos livros
e o teatro dos livres
entre o absurdo da vida
e o óbvio ululante da morte
todos nós
...entretanto...
entreatos
a iluminante e luminosa
arte de ser Sendo...
Nelson Castro
Lisonjeado com uma pequena pérola que Jorge Bandeira dedicou a mim neste dia do Bloom. Obrigado irmão!!
Bloomsday. 16. junho. 2015. Manaus
Este poeta
tem algo de útil
na sua figura de
Quixote. De sonho
e de delírio.
Não causa amargor
nesta tua caligrafia
do amor letrado.
Jorge Bandeira
sexta-feira, 12 de junho de 2015
POEMAS PREFERIDOS
EXCEÇÃO: BERNANOS, QUE SE DIZIA ESCRITOR DE SALA DE JANTAR
Escrever é estar no extremo
de si mesmo, e quem está
assim se exercendo nessa
nudez, a mais nua que há,
tem pudor de que outros vejam
o que deve haver de esgar,
de tiques, de gestos falhos,
de pouco espetacular
na torta visão de uma alma
no pleno estertor de criar.
(Mas no pudor do escritor
o mais curioso está
em que o pudor de fazer
é impudor de publicar:
com o feito, o pudor se faz
se exibir, se demonstrar,
mesmo nos que não fazendo,
profissão de confessar,
não fazem para se expor
mas dar a ver o que há.)
João Cabral de Melo Neto
Escrever é estar no extremode si mesmo, e quem está
assim se exercendo nessa
nudez, a mais nua que há,
tem pudor de que outros vejam
o que deve haver de esgar,
de tiques, de gestos falhos,
de pouco espetacular
na torta visão de uma alma
no pleno estertor de criar.
(Mas no pudor do escritor
o mais curioso está
em que o pudor de fazer
é impudor de publicar:
com o feito, o pudor se faz
se exibir, se demonstrar,
mesmo nos que não fazendo,
profissão de confessar,
não fazem para se expor
mas dar a ver o que há.)
João Cabral de Melo Neto
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