domingo, 14 de dezembro de 2014
15 DE DEZEMBRO - DIA DO JARDINEIRO
ESSAS MÃOS
"Tinha mãos de jardineiro
Quando tratava de amor"
Chico Buarque
Das suas mãos brotam flores
para embelezar o espaço
perfumar o tempo
colorir o mundo
Das suas singelas mãos
ricas em calejos
pobres de afagos
mas nobres na labuta
Surge o aconchego dos pássaros
seus cantos maviosos
em sinal de agradecimento
a essas mãos dignas
que tecem apenas o simples trabalho
pelo pão de cada dia.
Miguel de Souza
segunda-feira, 8 de dezembro de 2014
NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO
Toda vez que, ao passar defronte à praça,
contemplo aquela imagem sempre linda,
da Santa envolta em luz, na berlinda...
a abençoar, quem por ali, sempre passa.
A Vossa imagem cheia de brilho, graça;
há de continuar pra todo o sempre ainda,
abençoando de maneira infinda,
essa gente, esse povo e toda essa raça!
Toda vez que, ao passar no 609,
a imagem dessa Santa me comove,
e contemplo-a com fé e devoção...
Porque sei que também sou abençoado,
e que Jesus atende ao Vosso rogado, oh,
Virgem Senhora da Conceição.
Miguel de Souza
domingo, 7 de dezembro de 2014
FLORBELA ESPANCA
Em oito de dezembro de 1894. Alta madrugada. Nasce em Vila Viçosa (Alentejo), na rua Angerino, Florbela d'Alma da Conceição Espanca. Sonetista excelente, Florbela Espanca expressa suas emoções em linguagem telúrica, de imagens fortes, impregnadas de verdade física e arrebatamento.Poetisa de um lirismo fortemente marcado por sua terra, pôs em versos, de aparência parnasiana, o erotismo e a liberdade que expressou e assumiu pioneiramente na obra como na vida.
Não usava máscara diante dos problemas da vida, nem subterfúgio ao expressá-los em seus autênticos sonetos.
Obras:
Livro de Mágoas (1919),
Livro Soror Saudade (1923),
Charneca em Flor (1930) e
Reliquiae (1931)
Na passagem de 7 para 8 de dezembro de 1930 -ritualisticamente no dia de seu aniversário- Florbela d'Alma da Conceição Espanca suicida-se em Matosinhos, ingerindo uma dose excessiva de Veronal. Algumas décadas depois, em maio de 1964, seus restos mortais são transportados para Vila Viçosa.
MAGNITUDE
Para Florbela Espanca
Solidarizo-me com os teus versos
Oh, magnânima poeta portuguesa
Tu que cantaste a tua natureza
e, espalhaste por todo esse universo
Teus sonetos tão cheios de beleza
e, ao mesmo tempo, tão contraversos
que a quedar-me estaticamente imerso
chego, por todo esse talento, com certeza!
Poeta triste, e de feição tão amena
que comovia a todos! E serena
por traduzir ao mundo tal lirismo.
Qual este ser que não se comove
ao ler: "Livro de Mágoas" de 1919
e no livro seguinte: "Fanatismo".
Miguel de Souza
quarta-feira, 3 de dezembro de 2014
poemicros
sou
sol
do
sol
do
sol
da
do
na valsa
da vida!
sou salsa.
duvida?
tem dias em que
tudo-
-nada
deságua em mim...
dulçor,
dúctil!...
fútil
amor!
miguel de souza
sol
do
sol
do
sol
da
do
na valsa
da vida!
sou salsa.
duvida?
tem dias em que
tudo-
-nada
deságua em mim...
dulçor,
dúctil!...
fútil
amor!
miguel de souza
domingo, 30 de novembro de 2014
JOÃO PAULO II -1920/2005
Tocamos aqui um ponto essencial.Quem tiver notado em si mesmo esta
espécie de centelha divina que é a
vocação artística - de poeta,
escritor, pintor, escultor, arquiteto,
músico, ator... -, adverte ao mesmo
tempo a obrigação de não
desperdiçar este talento, mas de o
desenvolver para colocá-lo ao
serviço do próximo e de toda a
humanidade - João Paulo II.
sexta-feira, 28 de novembro de 2014
CURIOSIDADE LITERÁRIA
MARIANA TELES
A talentosa poetisa Mariana Teles e um soneto escrito no verso de uma prova em que o professor a desafiou a tirar boa nota.
Não vai ser papel que vai provar,
Nem medir competência de ninguém;
Quem acerta é sujeito a errar também,
Que na vida nem tudo é acertar.
Teu diploma não vem pra ocultar,
Os padrões da missão que te convém:
Que é plantar o saber, pregar o bem,
Sem certeza que o futuro irá vingar.
Eu não sei se na tua faculdade,
Algum mestre te ensinou que humildade,
É princípio de toda profissão...
Me perdoe professor, o atrevimento,
Mas não troco o meu conhecimento,
Por esse anel que enfeita tua mão!
De: Mariana Teles
Do livro: O Rio Que Não Passa
A talentosa poetisa Mariana Teles e um soneto escrito no verso de uma prova em que o professor a desafiou a tirar boa nota.
Não vai ser papel que vai provar,
Nem medir competência de ninguém;
Quem acerta é sujeito a errar também,
Que na vida nem tudo é acertar.
Teu diploma não vem pra ocultar,
Os padrões da missão que te convém:
Que é plantar o saber, pregar o bem,
Sem certeza que o futuro irá vingar.
Eu não sei se na tua faculdade,
Algum mestre te ensinou que humildade,
É princípio de toda profissão...
Me perdoe professor, o atrevimento,
Mas não troco o meu conhecimento,
Por esse anel que enfeita tua mão!
De: Mariana Teles
Do livro: O Rio Que Não Passa
domingo, 16 de novembro de 2014
O ANOITECER DE QUEM AMANHECIA
MANOEL DE BARROS
Nascido em Cuiabá em 1916, Manoel de Barros estreiou em 1937 com o livro "Poemas Concebido sem Pecado". Sua obra mais conhecida é o "Livro sobre Nada", publicado em 1996. Cronologicamente vinculado à geração de 45, mas formalmente ao Modernismo brasileiro, Manoel de Barros criou um universo próprio - Subvertendo a sintaxe e criando construções que não respeitam as normas da língua padrão -, marcado, sobretudo, por neologismos e sisnetesias, sendo, inclusive, comparado a Guimarães Rosa.
Em 1986, o poeta Carlos Drummond de Andrade declarou que Manoel de Barros era o maior poeta brasileiro vivo. Antônio Houaiss, um dos mais importantes filólogos e críticos brasileiros escreveu: "A poesia de Manoel de Barros é de uma enorme racionalidade. Suas visões, oníricas num primeiro instante, logo se revelam muito reais, sem fugir a um substrato ético muito profundo. Tenho por sua obra a mais alta admiração e muito amor".
"Poesia é voar fora da asa".
MUNDO PEQUENO
O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
No fundo do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrusbece um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos.
Manoel de Barros
Do livro "O Livro das ignrãças"
"O poeta é um ente que lambe palavras"
II
Conheço de palma os dementes de rio.
Fui amigo de Bugre Felisdônio, de Ignácio Rayzama
e de Rogaciano.
Todos catavam pregos na beira do rio para enfiar
no horizonte.
Um dia encontrei Felisdônio comendo papel nas ruas
de Corumbá.
Me disse que as coisas que não existem são mais
bonitas.
VII
Toda vez que encontro uma parede
ela me entrega às suas lesmas.
Não sei se isso é uma repetição de mim ou das
lesmas.
Não sei se isso é uma repetição das paredes ou
de mim.
Estarei incluído nas lesmas ou nas paredes?
Parece que lesmas só é uma divulgação de mim.
Penso que dentro de minha casca
não tem um bicho:
Tem um silêncio feroz.
Estico a timidez da minha lesma até gozar na pedra.
FABRICANTE DE SONHOS
Pro Manoel de Barros
Viajor incessante de infâncias,
chegaste incólume ao teu quinto porto.
Praticante de pecados solitários,
no preâmbulo da tua vida!
Agora sim, posso dizer-te árvore,
ou água, ou fonte...
Tu que voaste fora da asa tantas vezes,
e, tantas vezes, pousaste em terreno árido.
E cultivaste, e adubaste, e plantaste palavras novas
em terras que ninguém anda,
para a inversão do teu apanágio.
Oh, eterno fabricante de sonhos.
Miguel de Souza
Nascido em Cuiabá em 1916, Manoel de Barros estreiou em 1937 com o livro "Poemas Concebido sem Pecado". Sua obra mais conhecida é o "Livro sobre Nada", publicado em 1996. Cronologicamente vinculado à geração de 45, mas formalmente ao Modernismo brasileiro, Manoel de Barros criou um universo próprio - Subvertendo a sintaxe e criando construções que não respeitam as normas da língua padrão -, marcado, sobretudo, por neologismos e sisnetesias, sendo, inclusive, comparado a Guimarães Rosa.
Em 1986, o poeta Carlos Drummond de Andrade declarou que Manoel de Barros era o maior poeta brasileiro vivo. Antônio Houaiss, um dos mais importantes filólogos e críticos brasileiros escreveu: "A poesia de Manoel de Barros é de uma enorme racionalidade. Suas visões, oníricas num primeiro instante, logo se revelam muito reais, sem fugir a um substrato ético muito profundo. Tenho por sua obra a mais alta admiração e muito amor".
"Poesia é voar fora da asa".
MUNDO PEQUENO
O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
No fundo do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrusbece um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos.
Manoel de Barros
Do livro "O Livro das ignrãças"
"O poeta é um ente que lambe palavras"
II
Conheço de palma os dementes de rio.
Fui amigo de Bugre Felisdônio, de Ignácio Rayzama
e de Rogaciano.
Todos catavam pregos na beira do rio para enfiar
no horizonte.
Um dia encontrei Felisdônio comendo papel nas ruas
de Corumbá.
Me disse que as coisas que não existem são mais
bonitas.
VII
Toda vez que encontro uma parede
ela me entrega às suas lesmas.
Não sei se isso é uma repetição de mim ou das
lesmas.
Não sei se isso é uma repetição das paredes ou
de mim.
Estarei incluído nas lesmas ou nas paredes?
Parece que lesmas só é uma divulgação de mim.
Penso que dentro de minha casca
não tem um bicho:
Tem um silêncio feroz.
Estico a timidez da minha lesma até gozar na pedra.
FABRICANTE DE SONHOS
Pro Manoel de Barros
Viajor incessante de infâncias,
chegaste incólume ao teu quinto porto.
Praticante de pecados solitários,
no preâmbulo da tua vida!
Agora sim, posso dizer-te árvore,
ou água, ou fonte...
Tu que voaste fora da asa tantas vezes,
e, tantas vezes, pousaste em terreno árido.
E cultivaste, e adubaste, e plantaste palavras novas
em terras que ninguém anda,
para a inversão do teu apanágio.
Oh, eterno fabricante de sonhos.
Miguel de Souza
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