Trago intrínseco um sentimento profundo,
desde a primeira vez em que a fitei!
O que se deu comigo? Apenas sei,
de me pegar, às vezes, meditabundo
sobre Ela, pelos quatro cantos do mundo,
e de encontrar-me a sós em meio à grei!
Não sei que deus ditou esta cruel lei,
para deixar-me assim a cada segundo!
...Por Ela, todo sentimento externo,
meu amor, até então, será eterno,
como nos disse, um dia, o grande poeta.
Eu só sei que a amo como amam os loucos!
e todo o amor do mundo será pouco,
para caber num coração de esteta!
Miguel de Souza
Assista ao vídeo deste soneto:
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
SOBRE POEMAS
O poeta é este ser que consegue extrair dos acontecimentos, a matéria prima para transformá-la em poemas. Não sei o nome, nem onde mora a musa que serviu de inspiração para este soneto. Só sei que eu a via todo dia, pois trabalhávamos juntos, na mesma empresa. E quando ela passava, tudo ao meu derredor parava, inclusive eu, para admirá-la! As flores do jardim se inclinavam ante a tanta beleza! O sol, por mais bonito que estivesse o dia, se apequenava diante ao brilho do seu sorriso! Meus olhos embebidos, sorvia a beleza radiante de tamanho esplendor!
E tudo era poesia quando ela passava nos seus afazeres. Um belo dia, tão natural como os seus passos, surgiu um soneto em sua homenagem. Sem exagero, sem devaneios, o soneto a retrata do jeito que eu a via, sem salamaleques... É uma pena, mas ela não sabe de sua existência. Pois não tive coragem de informá-la desta minha singela homenagem.
BELEZA EM PESSOA
Impossível olhar-te sem admirar-te!
E, sem deixar ao menos, cair o queixo!
Quando passas, o que estou a fazer deixo,
somente para vê-la! Oh, obra de arte!
Esparzes a beleza em toda parte
que vais, até nos mais recônditos trechos!
da beleza de tudo tu és o eixo,
a deixar-me boquiaberto a contemplar-te!
Aliás, acho que não és tão bonita,
pois ser bonita a ti, é muito pouco,
tu és a beleza propriamente dita!
Não há falácia, nem em mim há loa,
podem até chamar-me de louco,
porque a mim, tu és a beleza em pessoa!
Miguel de Souza
E tudo era poesia quando ela passava nos seus afazeres. Um belo dia, tão natural como os seus passos, surgiu um soneto em sua homenagem. Sem exagero, sem devaneios, o soneto a retrata do jeito que eu a via, sem salamaleques... É uma pena, mas ela não sabe de sua existência. Pois não tive coragem de informá-la desta minha singela homenagem.
BELEZA EM PESSOA
Impossível olhar-te sem admirar-te!
E, sem deixar ao menos, cair o queixo!
Quando passas, o que estou a fazer deixo,
somente para vê-la! Oh, obra de arte!
Esparzes a beleza em toda parte
que vais, até nos mais recônditos trechos!
da beleza de tudo tu és o eixo,
a deixar-me boquiaberto a contemplar-te!
Aliás, acho que não és tão bonita,
pois ser bonita a ti, é muito pouco,
tu és a beleza propriamente dita!
Não há falácia, nem em mim há loa,
podem até chamar-me de louco,
porque a mim, tu és a beleza em pessoa!
Miguel de Souza
terça-feira, 10 de setembro de 2013
DEPOIS DA CHUVA
Depois da chuva tudo me comove:
pinta no ar um cheirinho bom de terra,
a tez das folhas que a vista encerra,
fica sempre mais verde depois que chove.
A paisagem que a natureza promove,
tornando esverdeada toda a serra,
pós a cortina dágua que descerra,
parece, ante aos meus olhos, que se move!
Árvores chovem, depois da chuva!
São mangas, graviolas, peras, uvas...
Que elas nos dão por serem tão bondosas!
Toda a terra enche-se de tanta vida!
Depois da chuva, a flora colorida,
agradece a Ela por ser tão maravilhosa!
Miguel de Souza
sábado, 7 de setembro de 2013
HOMENAGEM
O meu muito obrigado ao poeta Eylan Lins, pelo poema carinhosamente a mim dedicado.
POEMAIS
A vida brinca de passar o tempo,
e os sonhos juntos vão passando
em caravanas vorazes, enquanto
eu, aqui, torço por ti e te desejo:
Que o sol brilhe, brando e macio,
iluminando sempre o teu destino.
Que aqueça tua alma de menino,
dando cores e voz ao teu ofício.
Que os ventos da tarde cheguem,
trazendo consigo a semente boa,
para semear na proa da tua canoa,
a vida das palavras que te seguem.
Que o orvalho da noite umedeça
teus sonhos, e te dê luz e força,
para tua nova e sagaz caminhada!
Pois agora, és também "poemais",
metáfora maior da tua estrela guia,
que brilha e fascina a nova geração.
Eylan Lins
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
DE POETA PARA POETA
MANUEL BANDEIRA
Nasceu em 1886, no Recife, Manuel Carneiro de Sousa Bandeira, filho de pais abastados (proprietários rurais em declínio).
Ainda jovem muda-se para o Rio, onde faz seus estudos secundários; transfere-se para São Paulo em 1903, matriculando-se na Escola Politécnica por influência do pai, que o queria arquiteto e até lhe prometera uma viagem à Europa como prêmio.
A viagem iria acontecer, mas por outra razão, quando, no ano seguinte, Bandeira constata estar com tuberculose pulmonar, doença que modificaria toda a sua vida e o encaminharia para a poesia. Após vários anos em estâncias climáticas no Brasil, segue para um sanatório na Suíça, onde convive com poetas ali internados. Só retorna ao Brasil quando estoura a I guerra mundial, porque o franco suíço dobra de valor.
Esta é a fase de tédio e sofrimento de sua vida, que se reflete em "Cinza das Horas", sua obra de estreia, publicada em 1917 e custeada pelo próprio poeta.
Seu segundo livro, "Carnaval", publicado em 1919, agora custeado pelo pai, representa seu primeiro passo para a integração definitiva no movimento modernista de São Paulo.
A esse livro pertence o poema "Os Sapos", que foi lido na Semana de Arte Moderna por Ronald de Carvalho, e serviu de "hino antiparnasiano":
"O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado, diz:
_Meu cancioneiro
É bem martelado.
Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos."
Por essa época, Bandeira já teria perdido a mãe (1916), irmã (1918), o pai e o irmão (1920), passando a morar sozinho no Rio, vizinho do amigo Ribeiro Couto. Desse período o poeta diz o seguinte:
"O meu apartamento, o andar mais alto de um velho casarão quase roído, era, pelo lado dos fundos, posto de observação da pobreza mais dura e mais valente e, pelo lado da frente, zona de convívio com a garotada sem lei nem rei que infestava as minhas janelas restituindo-me de certo modo meu clima de meninice. Na rua do Curvelo reaprendi os caminhos da infância. "(Itinerário de Pasárgada).
A obra "O Ritmo Dissoluto" (1924) reflete esse período de camaradagem carioca em que Bandeira vivia, fazendo de sua casa ponto de encontro de vários artistas. no exemplar a seguir observa-se a evolução do poeta:
Berimbau
"Os aguapés dos aguaçais
Nos igapós dos Japurás
Bolem, bolem, bolem
_Ui ui ui ui ui! Uiva a iara
Nos aguaçais dos igapós
Dos Japurás re dos Purus."
Com a publicação de "Libertinagem" (1930), pode-se dizer que o poeta alcançou sua fase definitiva de amadurecimento, no sentido de total liberdade estética e de consolidação de sua temática existencial, incorporada a imagens e cenas brasileiras. Pertence a esta obra a "Poética", um de seus poemas mais expressivos. Veja outro exemplo:
Irene no Céu
"Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.
Imagino Irene entrando no céu:
_Licença meu branco!
E S. Pedro bonachão:
_Entra Irene. Você não´
precisa pedir licença."
Em 1933, Manuel Bandeira é forçado a mudar-se para um pequeno apartamento na Lapa, centro da malandragem carioca e de intelectuais boêmios.
Publicado nessa época, o livro "Estrela da Manhã" teve pequena tiragem, impressa em papel doado, pois o poeta não encontrou editor. Nele reúnem-se poemas da mais variada temática, desde uma notícia de jornal até uma propaganda de sabonete. A mulher aparece, como sempre, inatingível, preenchendo a imaginação do poeta, de forma viril e carnal, porém longe de ser vulgar:
Estrela da Manhã
"eu quero a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã.
Ela desapareceu ia nua
Desapareceu com quem?
Procurem por toda parte.
Digam que sou um homem sem orgulho
Um homem que aceita tudo
Que me importa?
Eu quero a estrela da manhã.
Em 1940, publica "Lira dos Cinquent'Anos, onde continua sendo um poeta livre de convenções, porém recupera a métrica e a rima, associando a sonoridade exata da palavra à fluidez musical do ritmo.
O poema "A Última Canção do Beco", que faz parte dessa obra, foi escrito intuitivamente, durante um trajeto percorrido pelo poeta, enquanto estava num bonde até voltar a sua casa. A respeito do poema, o poeta declarou: "... e fiquei espantadíssimo ao verificar que o poema se compusera, à minha revelia, em sete estrofes, de sete versos, de sete sílabas".
"Beco que nasceste à sombra
De paredes conventuais.
És como a vida, que é santa
Pesar de todas as quedas
Por isso te amei constante
E canto para dizer-te
Adeus para nunca mais!"
Ainda em 1940, o poeta foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Viveu ainda muitos anos, sempre à espera da morte, publicando até dois anos antes de sua morte (Estrela da Vida Inteira 1966).
Leia o poema que Carlos Drummond de Andrade escreveu em homenagem a Manuel Bandeira:
Declaração a Manuel
Teu verso límpido, liberto
de todo sentimento falso;
teu verso em que amor, soluçante
se retesa e contempla a morte
com a mesma forte lucidez
de que soube enfrentar a vida;
teu verso em que deslizam sombras
que de fantasmas se tornaram
nossas amigas sorridentes,
teu seco, amargo, delicioso
verso de alumbramentos sábios
e nostalgias abissais,
hoje é nossa comum riqueza,
nosso pasto de sonho e cisma:
ele não te pertence mais.
Carlos Drummond de Andrade
Nasceu em 1886, no Recife, Manuel Carneiro de Sousa Bandeira, filho de pais abastados (proprietários rurais em declínio).
Ainda jovem muda-se para o Rio, onde faz seus estudos secundários; transfere-se para São Paulo em 1903, matriculando-se na Escola Politécnica por influência do pai, que o queria arquiteto e até lhe prometera uma viagem à Europa como prêmio.
A viagem iria acontecer, mas por outra razão, quando, no ano seguinte, Bandeira constata estar com tuberculose pulmonar, doença que modificaria toda a sua vida e o encaminharia para a poesia. Após vários anos em estâncias climáticas no Brasil, segue para um sanatório na Suíça, onde convive com poetas ali internados. Só retorna ao Brasil quando estoura a I guerra mundial, porque o franco suíço dobra de valor.
Esta é a fase de tédio e sofrimento de sua vida, que se reflete em "Cinza das Horas", sua obra de estreia, publicada em 1917 e custeada pelo próprio poeta.
Seu segundo livro, "Carnaval", publicado em 1919, agora custeado pelo pai, representa seu primeiro passo para a integração definitiva no movimento modernista de São Paulo.
A esse livro pertence o poema "Os Sapos", que foi lido na Semana de Arte Moderna por Ronald de Carvalho, e serviu de "hino antiparnasiano":
"O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado, diz:
_Meu cancioneiro
É bem martelado.
Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos."
Por essa época, Bandeira já teria perdido a mãe (1916), irmã (1918), o pai e o irmão (1920), passando a morar sozinho no Rio, vizinho do amigo Ribeiro Couto. Desse período o poeta diz o seguinte:
"O meu apartamento, o andar mais alto de um velho casarão quase roído, era, pelo lado dos fundos, posto de observação da pobreza mais dura e mais valente e, pelo lado da frente, zona de convívio com a garotada sem lei nem rei que infestava as minhas janelas restituindo-me de certo modo meu clima de meninice. Na rua do Curvelo reaprendi os caminhos da infância. "(Itinerário de Pasárgada).
A obra "O Ritmo Dissoluto" (1924) reflete esse período de camaradagem carioca em que Bandeira vivia, fazendo de sua casa ponto de encontro de vários artistas. no exemplar a seguir observa-se a evolução do poeta:
Berimbau
"Os aguapés dos aguaçais
Nos igapós dos Japurás
Bolem, bolem, bolem
_Ui ui ui ui ui! Uiva a iara
Nos aguaçais dos igapós
Dos Japurás re dos Purus."
Com a publicação de "Libertinagem" (1930), pode-se dizer que o poeta alcançou sua fase definitiva de amadurecimento, no sentido de total liberdade estética e de consolidação de sua temática existencial, incorporada a imagens e cenas brasileiras. Pertence a esta obra a "Poética", um de seus poemas mais expressivos. Veja outro exemplo:
Irene no Céu
"Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.
Imagino Irene entrando no céu:
_Licença meu branco!
E S. Pedro bonachão:
_Entra Irene. Você não´
precisa pedir licença."
Em 1933, Manuel Bandeira é forçado a mudar-se para um pequeno apartamento na Lapa, centro da malandragem carioca e de intelectuais boêmios.
Publicado nessa época, o livro "Estrela da Manhã" teve pequena tiragem, impressa em papel doado, pois o poeta não encontrou editor. Nele reúnem-se poemas da mais variada temática, desde uma notícia de jornal até uma propaganda de sabonete. A mulher aparece, como sempre, inatingível, preenchendo a imaginação do poeta, de forma viril e carnal, porém longe de ser vulgar:
Estrela da Manhã
"eu quero a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã.
Ela desapareceu ia nua
Desapareceu com quem?
Procurem por toda parte.
Digam que sou um homem sem orgulho
Um homem que aceita tudo
Que me importa?
Eu quero a estrela da manhã.
Em 1940, publica "Lira dos Cinquent'Anos, onde continua sendo um poeta livre de convenções, porém recupera a métrica e a rima, associando a sonoridade exata da palavra à fluidez musical do ritmo.
O poema "A Última Canção do Beco", que faz parte dessa obra, foi escrito intuitivamente, durante um trajeto percorrido pelo poeta, enquanto estava num bonde até voltar a sua casa. A respeito do poema, o poeta declarou: "... e fiquei espantadíssimo ao verificar que o poema se compusera, à minha revelia, em sete estrofes, de sete versos, de sete sílabas".
"Beco que nasceste à sombra
De paredes conventuais.
És como a vida, que é santa
Pesar de todas as quedas
Por isso te amei constante
E canto para dizer-te
Adeus para nunca mais!"
Ainda em 1940, o poeta foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Viveu ainda muitos anos, sempre à espera da morte, publicando até dois anos antes de sua morte (Estrela da Vida Inteira 1966).
Leia o poema que Carlos Drummond de Andrade escreveu em homenagem a Manuel Bandeira:
Declaração a Manuel
Teu verso límpido, liberto
de todo sentimento falso;
teu verso em que amor, soluçante
se retesa e contempla a morte
com a mesma forte lucidez
de que soube enfrentar a vida;
teu verso em que deslizam sombras
que de fantasmas se tornaram
nossas amigas sorridentes,
teu seco, amargo, delicioso
verso de alumbramentos sábios
e nostalgias abissais,
hoje é nossa comum riqueza,
nosso pasto de sonho e cisma:
ele não te pertence mais.
Carlos Drummond de Andrade
terça-feira, 3 de setembro de 2013
ROMANCE E SONETO
Certa ocasião, ganhei de presente da minha querida amiga, a poetisa Ana Zélia, o livro Dom Casmurro do consagrado escritor Machado de Assis. Ana dedicou-me o livro com os seguintes dizeres: "Ao poeta Miguel, um livro que por certo o ajudará pelo grande homem que foi Machado." E datou: Manaus, 02 de janeiro de 1998.
Recebi o livro com alegria e entusiasmo, e guardei-o na estante como se ele estivesse na fila esperando a sua vez, pois tinha outros na sua frente para serem consumidos. Depois de um determinado tempo, chegou enfim, o momento dessa tão esperada leitura, afinal de contas, tratava-se de Machado de Assis.
Ao discorrer meus olhos ávidos, fui me empolgando com a história de Bentinho e Capitu. Imaginava como seria Bentinho... E Capitu... Machado parecia prender-me cada vez mais no seu enredo. Mas eis que chega o capítulo LV com o título: "um soneto" que me chamou atenção de cara! Pois no capítulo, Bentinho tenta escrever um soneto e não consegue:
CAPÍTULO LV / UM SONETO
(...) contarei a história de um soneto que nunca fiz; era no tempo do seminário, e o primeiro verso é o que ides ler:
Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura!
Como e por que me saiu este verso da cabeça, não sei; saiu assim, estando eu na cama, como uma exclamação solta, e, ao notar que tinha a medida de verso, pensei em compor com ele alguma coisa, um soneto. A insônia, musa de olhos arregalados, não me deixou dormir uma longa hora ou duas; as cócegas pediam-me unhas, e eu coçava-me com alma. Não escolhi logo, logo, o soneto; a princípio cuidei de outra forma, e tanto de rima como de verso solto, mas afinal ative-me ao soneto. Era um poema breve e prestadio. Quanto à ideia, o primeiro verso não era ainda uma ideia, era uma exclamação; a ideia viria depois. Assim na cama, envolvido no lençol, tratei de poetar. Tinha o alvoroço da mãe que sente o filho, e o primeiro filho. Ia ser poeta, ia competir com aquele monge da Bahia,, pouco antes revelado, e então na moda; eu, seminarista, diria em versos as minhas tristezas como ele dissera as suas no claustro. decorei bem o verso, e repetia-o em voz baixa, aos lençóis; francamente, achava-o bonito, e ainda agora não me parece mau:
Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura!
Quem era a flor? Capitu, naturalmente: mas podia ser a virtude, a poesia, a religião, qualquer outro conceito a que coubesse a metáfora da flor, e flor do céu. Aguardei o resto, recitando sempre o verso, e deitado ora sobre o lado direito, ora sobre o esquerdo, afinal deixei-me estar de costas, com os olhos no teto, mas nem assim vinha mais nada. Então adverti que os sonetos mais gabados eram os que concluíam com chave de ouro, isto é, um desses versos capitais no sentido e na forma. Pensei em forjar uma de tais chaves, considerando que o verso final, saindo cronologicamente dos treze anteriores, com dificuldade traria a perfeição louvada; imaginei que tais chaves eram fundidas antes da fechadura. Assim foi que determinei a compor o último verso do soneto, e, depois de muito suar, saiu este:
Perde-se a vida, ganha-se a batalha!
Sem vaidade, e falando como se fosse de outro, era um verso magnífico. Sonoro, não há dúvida. E tinha um pensamento, a vitória ganha à custa da própria vida, pensamento alevantado e nobre. Que não fosse novidade, é possível, mas também não era vulgar; e ainda agora não explico por que via misteriosa entrou numa cabeça de tão poucos anos. Naquela ocasião achei-o sublime. Recitei uma e muitas vezes a chave de ouro; depois repeti os dois versos seguidamente, e dispus-me a ligá-los pelos doze centrais. A ideia agora, à vista do último verso, pareceu-me melhor não ser Capitu; seria justiça. Era mais próprio dizer que, na pugna pela justiça, perder-se-ia acaso a vida, mas a batalha ficava ganha. Também me ocorreu aceitar a batalha, no sentido natural, e fazer dela luta pela pátria, por exemplo; nesse caso a flor do céu seria a liberdade. Esta acepção, porém, sendo o poeta um seminarista, podia não caber tanto como a primeira, e gastei alguns minutos em escolher uma ou outra. Achei melhor a justiça, mas afinal aceitei definitivamente uma ideia nova, a caridade, e recitei os dois versos, cada um a seu modo, um languidamente:
Oh! flor do céu! oh! flor Cândida e pura!
e o outro com grande brio:
Perde-se a vida, ganha-se a batalha!
A sensação que tive é que ia sair um soneto perfeito. Começar bem e acabar bem não era pouco. Para me dar um banho de inspiração, evoquei alguns sonetos célebres, e notei que os mais deles eram facílimos, os versos saíam uns dos outros, com ideia em si, tão naturalmente, que se não acabava de crer se ela é que os fizera, se eles é que a suscitavam. Então tornava ao meu soneto, e novamente repetia o primeiro verso e esperava o segundo; o segundo não vinha, nem o terceiro, nem quarto, não vinha nenhum. Tive alguns ímpetos de raiva, e mais de uma vez pensei em sair da cama e ir ver tinta e papel; pode ser que, escrevendo, os versos acudissem, mas...
Cansado de esperar, lembrou-me alterar o sentido do último verso, com a simples transposição de duas palavras, assim:
Ganha-se a vida, perde-se a batalha!
O sentido vinha a ser justamente o contrário, mas talvez isso mesmo trouxesse a inspiração. Neste caso, era uma ironia: não exercendo a caridade, pode-se ganhar a vida, mas perde-se a batalha do céu. Criei forças novas e esperei. Não tinha janela; se tivesse, é possível que fosse pedir uma ideia à noite. E quem sabe se os vaga-lumes luzindo cá embaixo não seriam para mim como rimas das estrelas, e esta viva metáfora não me daria os versos esquivos, com os seus consoantes e sentidos próprios?
Trabalhei em vão, busquei, catei, esperei, não vieram os versos. Pelo tempo adiante escrevi algumas páginas em prosa e agora estou compondo esta narração, não achando maior dificuldade que escrever, bem ou mal. Pois, senhores, nada me consola daquele soneto que não fiz. Mas, como eu creio que os sonetos existem feitos, como as odes e os dramas, e as demais obras de arte, por uma razão de ordem metafísica, dou esses dois versos ao primeiro desocupado que os quiser. Ao domingo, ou se estiver chovendo, ou na praça, em qualquer ocasião de lazer, pode tentar ver se o soneto sai. Tudo é dar-lhe uma ideia e encher o centro que falta.
Machado de Assis
Pois bem, senti-me mexido com tamanha doação, interrompi a leitura e fiquei inquieto, pensativo na grande lição que acabava de receber, talvez a maior lição da minha vida, no que tange à literatura. Machado estava me dando uma aula de como se faz um soneto. (Em outra oportunidade discorrerei melhor sobre esta aula.) E, num belo dia, dei uma ideia e preenchi o centro que estava faltando:
FLOR DO CÉU
Oh! Flor do céu! Oh! Flor cândida e pura!
Que iluminas a noite com teu lume
Se não vieres acender o cume
Tudo ao teu derredor se enclausura.
Oh! Flor do céu! Oh! Flor tímida e dura!
Habitas com a auréola de nume
Esparzes para longe esse negrume
Que a treva no seu habitar atura.
Oh! Flor do céu! Oh! Flor límpida e bela!
Que mais parece as cores em aquarela
No azul profundo dessa farta malha.
Oh! Flor do céu! Oh! Flor mística e acre!
Quando, das horas, rebentar-se o lacre
Perde-se a vida, ganha-se a batalha!
Miguel de Souza
Recebi o livro com alegria e entusiasmo, e guardei-o na estante como se ele estivesse na fila esperando a sua vez, pois tinha outros na sua frente para serem consumidos. Depois de um determinado tempo, chegou enfim, o momento dessa tão esperada leitura, afinal de contas, tratava-se de Machado de Assis.
Ao discorrer meus olhos ávidos, fui me empolgando com a história de Bentinho e Capitu. Imaginava como seria Bentinho... E Capitu... Machado parecia prender-me cada vez mais no seu enredo. Mas eis que chega o capítulo LV com o título: "um soneto" que me chamou atenção de cara! Pois no capítulo, Bentinho tenta escrever um soneto e não consegue:
CAPÍTULO LV / UM SONETO
(...) contarei a história de um soneto que nunca fiz; era no tempo do seminário, e o primeiro verso é o que ides ler:
Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura!
Como e por que me saiu este verso da cabeça, não sei; saiu assim, estando eu na cama, como uma exclamação solta, e, ao notar que tinha a medida de verso, pensei em compor com ele alguma coisa, um soneto. A insônia, musa de olhos arregalados, não me deixou dormir uma longa hora ou duas; as cócegas pediam-me unhas, e eu coçava-me com alma. Não escolhi logo, logo, o soneto; a princípio cuidei de outra forma, e tanto de rima como de verso solto, mas afinal ative-me ao soneto. Era um poema breve e prestadio. Quanto à ideia, o primeiro verso não era ainda uma ideia, era uma exclamação; a ideia viria depois. Assim na cama, envolvido no lençol, tratei de poetar. Tinha o alvoroço da mãe que sente o filho, e o primeiro filho. Ia ser poeta, ia competir com aquele monge da Bahia,, pouco antes revelado, e então na moda; eu, seminarista, diria em versos as minhas tristezas como ele dissera as suas no claustro. decorei bem o verso, e repetia-o em voz baixa, aos lençóis; francamente, achava-o bonito, e ainda agora não me parece mau:
Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura!
Quem era a flor? Capitu, naturalmente: mas podia ser a virtude, a poesia, a religião, qualquer outro conceito a que coubesse a metáfora da flor, e flor do céu. Aguardei o resto, recitando sempre o verso, e deitado ora sobre o lado direito, ora sobre o esquerdo, afinal deixei-me estar de costas, com os olhos no teto, mas nem assim vinha mais nada. Então adverti que os sonetos mais gabados eram os que concluíam com chave de ouro, isto é, um desses versos capitais no sentido e na forma. Pensei em forjar uma de tais chaves, considerando que o verso final, saindo cronologicamente dos treze anteriores, com dificuldade traria a perfeição louvada; imaginei que tais chaves eram fundidas antes da fechadura. Assim foi que determinei a compor o último verso do soneto, e, depois de muito suar, saiu este:
Perde-se a vida, ganha-se a batalha!
Sem vaidade, e falando como se fosse de outro, era um verso magnífico. Sonoro, não há dúvida. E tinha um pensamento, a vitória ganha à custa da própria vida, pensamento alevantado e nobre. Que não fosse novidade, é possível, mas também não era vulgar; e ainda agora não explico por que via misteriosa entrou numa cabeça de tão poucos anos. Naquela ocasião achei-o sublime. Recitei uma e muitas vezes a chave de ouro; depois repeti os dois versos seguidamente, e dispus-me a ligá-los pelos doze centrais. A ideia agora, à vista do último verso, pareceu-me melhor não ser Capitu; seria justiça. Era mais próprio dizer que, na pugna pela justiça, perder-se-ia acaso a vida, mas a batalha ficava ganha. Também me ocorreu aceitar a batalha, no sentido natural, e fazer dela luta pela pátria, por exemplo; nesse caso a flor do céu seria a liberdade. Esta acepção, porém, sendo o poeta um seminarista, podia não caber tanto como a primeira, e gastei alguns minutos em escolher uma ou outra. Achei melhor a justiça, mas afinal aceitei definitivamente uma ideia nova, a caridade, e recitei os dois versos, cada um a seu modo, um languidamente:
Oh! flor do céu! oh! flor Cândida e pura!
e o outro com grande brio:
Perde-se a vida, ganha-se a batalha!
A sensação que tive é que ia sair um soneto perfeito. Começar bem e acabar bem não era pouco. Para me dar um banho de inspiração, evoquei alguns sonetos célebres, e notei que os mais deles eram facílimos, os versos saíam uns dos outros, com ideia em si, tão naturalmente, que se não acabava de crer se ela é que os fizera, se eles é que a suscitavam. Então tornava ao meu soneto, e novamente repetia o primeiro verso e esperava o segundo; o segundo não vinha, nem o terceiro, nem quarto, não vinha nenhum. Tive alguns ímpetos de raiva, e mais de uma vez pensei em sair da cama e ir ver tinta e papel; pode ser que, escrevendo, os versos acudissem, mas...
Cansado de esperar, lembrou-me alterar o sentido do último verso, com a simples transposição de duas palavras, assim:
Ganha-se a vida, perde-se a batalha!
O sentido vinha a ser justamente o contrário, mas talvez isso mesmo trouxesse a inspiração. Neste caso, era uma ironia: não exercendo a caridade, pode-se ganhar a vida, mas perde-se a batalha do céu. Criei forças novas e esperei. Não tinha janela; se tivesse, é possível que fosse pedir uma ideia à noite. E quem sabe se os vaga-lumes luzindo cá embaixo não seriam para mim como rimas das estrelas, e esta viva metáfora não me daria os versos esquivos, com os seus consoantes e sentidos próprios?
Trabalhei em vão, busquei, catei, esperei, não vieram os versos. Pelo tempo adiante escrevi algumas páginas em prosa e agora estou compondo esta narração, não achando maior dificuldade que escrever, bem ou mal. Pois, senhores, nada me consola daquele soneto que não fiz. Mas, como eu creio que os sonetos existem feitos, como as odes e os dramas, e as demais obras de arte, por uma razão de ordem metafísica, dou esses dois versos ao primeiro desocupado que os quiser. Ao domingo, ou se estiver chovendo, ou na praça, em qualquer ocasião de lazer, pode tentar ver se o soneto sai. Tudo é dar-lhe uma ideia e encher o centro que falta.
Machado de Assis
Pois bem, senti-me mexido com tamanha doação, interrompi a leitura e fiquei inquieto, pensativo na grande lição que acabava de receber, talvez a maior lição da minha vida, no que tange à literatura. Machado estava me dando uma aula de como se faz um soneto. (Em outra oportunidade discorrerei melhor sobre esta aula.) E, num belo dia, dei uma ideia e preenchi o centro que estava faltando:
FLOR DO CÉU
Oh! Flor do céu! Oh! Flor cândida e pura!
Que iluminas a noite com teu lume
Se não vieres acender o cume
Tudo ao teu derredor se enclausura.
Oh! Flor do céu! Oh! Flor tímida e dura!
Habitas com a auréola de nume
Esparzes para longe esse negrume
Que a treva no seu habitar atura.
Oh! Flor do céu! Oh! Flor límpida e bela!
Que mais parece as cores em aquarela
No azul profundo dessa farta malha.
Oh! Flor do céu! Oh! Flor mística e acre!
Quando, das horas, rebentar-se o lacre
Perde-se a vida, ganha-se a batalha!
Miguel de Souza
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