segunda-feira, 30 de setembro de 2013

SOBRE POEMAS

A FARRA DO LEITE

No plebiscito para prefeito
do ano de 88.
Para conseguir qualquer voto
tinha um candidato afoito
ele prometia de tudo:
da rapadura ao biscoito.

Meu pai entrou numa fila
pra testar se era verdade
o candidato lhe prometeu
na maior facilidade
vinte sacos de cimento
falando só em amizade.

Quando passou a eleição
o tal candidato perdeu
porém, meu pai foi atrás
do que ele lhe prometeu
mas o cabra foi malandro
explicando que esqueceu.

E foi dizendo ao meu pai
que ele não era de covardia
que sempre na vida dele
pagava o que devia
falou: -amanhã, senhor
o cimento vai pra sua moradia.

No outro dia parou um carro
pai viu que o negócio era fraco
um sujeito arrancou pra fora
um único e mísero saco
pai viu que o papo de amizade
era mesmo só fiasco.

O cimento ficou guardado
lá no fundo do quintal
estava findado o ano
aproxima-se o natal
meu pai disse: na minha casa
vou fazer uma reforma geral.

Aí foi que veio a surpresa
pai abriu o saco com um estilete
quando viu o cimento branco
pensou que fosse de enfeite
depois viu que não era cimento
e sim, um saco de leite.

E lá em casa que não tinha nada
para a ceia de Natal
com aquele bendito leite
mamãe preparou mingau
e de tanto comer leite
nós até passamos mal.

Era leite no almoço
era leite no jantar
eu de tanto tomar leite
já estava para enjoar
meu pai disse: -só tem leite
então, leite vamos tomar.

Quando acabou o leite
pai foi visitar o candidato
levou até um docinho
ele agiu muito educado
meu pai falou: -seu doutor
ao senhor muito obrigado.

E nessa farra do leite
aqui eu coloco um fim
mas seu for à sua casa
já vou lhe dizendo assim:
ofereça-me qualquer coisa
mas afaste leite de mim.

                 Edivan Rafael


ANÁLISE

     Dentro do plano semântico que o poema nos oferece, a FARRA DO LEITE  traz no seu bojo um paralelo traçado entre o humor e a seriedade da situação. O poeta consegue nos transmitir de maneira bem humorada, uma situação cada vez mais frequente nos dias atuais. A troca de votos por favores, muita das vezes efêmeros, e que não vale a pena.
     O texto foi construído em sextilhas, embora o poeta, ao que parece, não tenha tido a preocupação com a métrica, mas há uma tendência para a redondilha maior, característica bem marcante nos nordestinos. Com palavras de fácil entendimento, sem muito rebuscamento, o texto vai se desenvolvendo com a preocupação, apenas, de informar à sua gente sobre o logro do personagem-vilão do poema, o candidato. O que caracteriza a função da linguagem do poema: informativa/poética.
     Na primeira sextilha temos a predominância da letra "i" que perpassa toda a estrofe: "plebiscito, prefeito, oitenta e oito, conseguir, tinha, afoito, prometia, biscoito"(...) dando um tom melancólico à introdução do poema, pois a letra "i" nos dá a sensação de som fechado, nos remetendo à tristeza da mensagem do texto. Forma e conteúdo, neste sentido, se encaixam perfeitamente.
     Na segunda estrofe, há alternância de vogais fechadas e abertas, o poeta, com isto, demonstra um pouco de alegria, pois há a expectativa de uma possível recompensa pela troca dos votos: "meu, pai, estar, verdade, prometeu, maior, vinte, sacos, falando, amizade"(...) Mais uma vez conteúdo e forma se acoplam perfeitamente.
     Na terceira sextilha, o poeta mais uma vez, parece brincar com a questão fônica do poema. Numa habilidade incrível, ele minuciosamente, a cada verso, vai alternando, conforme a mensagem do texto, a posição dos personagens. Num misto de alegria e tristeza, na fala dele próprio como narrador: "quando passou a eleição/o tal candidato perdeu/porém, meu pai foi atrás/do que ele lhe prometeu/mas o cabra foi malandro/explicando que esqueceu. (...)
     É por essas e outras que os poetas se comunicam com os leitores, não só através da mensagem explícita do poema, mais muita das vezes, por essas jogatinas que só a poesia tem para nos oferecer.
     A FARRA DO LEITE é daqueles textos que, infelizmente será sempre atual, apesar de pertencer ao século XXI, isto é, ter sido escrito no século XXI. Pois o desenrolar de seu enredo, já nos é conhecido desde os primórdios, bem o sabemos disso. O poeta Edivan Rafael ao compô-lo, consegue um feito bastante usado pelos poetas nordestinos, que é extrair humor das intempéries da vida, digamos assim, dando ao texto um sentido jocoso.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

SOBRE LIVROS

SEXAGESIMA STELLA

     Embora possa parecer contraditório, mas SEXAGESIMA STELLA é um livro de poemas românticos. O tão cantado e decantado amor mais uma vez vem à tona. Há poetas que ignoram este tema, como Augusto dos Anjos por exemplo, ao dizer: "O amor da humanidade é uma mentira..." E há outros que o engavetam e não publicam de jeito algum.
     Mas acredito que não é o tema em si, que vai julgar a qualidade do poeta, e, sim, a maneira como este tema é discorrido. Pois sabemos que tudo já foi dito, e a grande sacada, hoje, é dizer de novo de forma diferente. Partindo desse pressuposto, Anísio Mello, nos brinda com um fabuloso livro de poemas, "SEXAGESIMA STELLA".
     Vejamos o que Arthur Engrácio nos conta acerca desta obra de Anísio Mello: "Anísio Mello, com SEXAGESIMA STELLA, vem confirmar que o romantismo continua, realmente, vivo no espírito dos nossos poetas, pondo à mostra o romântico que mora nele, cantando em alto e bom som, o que lhe fala o coração. (...) Neste livro, o leitor vai deparar-se com um Anísio Mello mais apurado, mais senhor da sua técnica, a caminho, já, daquele estágio de perfeição que a arte confere aos seus eleitos. O acento lírico é mais forte, os versos fluem com mais espontaneidade, seus voos são mais seguros e ousados.
     Salve Petrarca! A maioria dos poetas, senão todos se curvaram à beleza e à perfeição desta forma poética que é o soneto, e com Anísio Mello, não foi diferente. O soneto vem atravessando escolas literárias, incólume no passar dos tempos, e ai de quem ousar modificá-lo! O poeta abre seu livro com chave de ouro, se é que permitem o trocadilho infame, vejamos:

LEMBRANÇAS

Na lembrança ficaste de permeio
a momentos de amor como te vi.
Foste rosa em meu peito e com receio
a primavera augusta então vivi.

Nos teus lábios agora me tonteio
e na luz dos teus olhos refleti
todo um sonho feliz e agora creio
que o amor é como o beijo que senti.  

Este amor que flutua mansamente
e encandece a manhã tão de repente,
mais parece o delírio de um adeus.

Um dia partirei, quem sabe quando?
Lembranças levarei sempre cantando,
com teus lábios impressos sobre os meus...

     A saudade é o tema que permeia todo o poema, o terceiro e quarto verso da primeira estrofe: "Foste rosa em meu peito e com receio/a primavera augusta então vivi." São reveladores desta afirmação. O último verso da segunda quadra: "que o amor é como o beijo que senti." evidencia bem, o todo do poema, embora seja, muita das vezes duradouro, quando termina. Como se fosse algo repentino há sempre o gostinho de quero mais. E por fim, a chave de ouro: " com teus lábios impressos sobre os meus..." É aquilo que podemos chamar de belo desfecho que desvenda todo o mistério do poema.

SUAVEMENTE

Um dia surgiste como estrela
no céu do firmamento dos meu dias
e tão branda chegaste, que doçura,
num sorriso de vestes cristalinas.
Te apertei em meus braços como um sonho,
naveguei em teus mares pelas noites,
sorvi o licor da tua loucura,
cantei a canção que flui dos lábios,
no calor dos teus desejos impossíveis.

Bendita noite de tua voz sorriso,
em que pousaste nos meus olhos
como um brilho de sol
ou de uma estrela...

     Neste poema, como bem nos informa o título, não há nada que venha se contrapôr à felicidade do poeta,
em "SUAVEMENTE", não encontramos aquela trama tão comum a tantos textos, e mesmo assim, o poeta consegue ser autêntico, há um casamento perfeito do título com o poema. Num discorrer suave, o poeta se regozija, o poema perfaz um caminho contrário de que textos famosos da nossa literatura trilharam! E Anísio Mello, prova, com isto, que podemos extrair poesia sim, de tudo, de todos os momentos da vida.

SONETO COLORIDO

Talvez não saibas tu quanta poesia
é capaz de ofertar um só artista.
Se é pintor e poeta, que alegria,
ter o dom de assistir o ser que avista,

o céu, a terra, o mar que ele recria
na tela ou no papel, sempre otimista,
em função do seu dom que lhe irradia
uma alvorada azul-a sua conquista!

Ser pintor e poeta a um só tempo,
é sentir duplamente o sofrimento,
as dores deste mundo, a alegria.

É dizer com o pincel a cor da vida
e pintar em seus versos, colorida,
as auroras de luz de uma poesia.

     Em SONETO COLORIDO, o poeta traz à luz dos olhos mais uma qualidade, a de ser pintor, artista plástico. E fala dessas dores por ser poeta em dose dupla, já que a pintura é conceituada por muitos como poesia para ser vista. fica bem evidente, no final do soneto essa afirmação, quando no desfecho ele diz: "É dizer com o pincel a cor da vida/e pintar em seus versos, colorida,/as auroras de luz de uma poesia.

ROSINHA INDO PRO CÉU

Em vida Rosinha passava pela rua
boinha boinha
olhava sempre o amanhã que deveria ser melhor.
Os olhares malandros do rapazil
imaginavam coisas
sonhavam Rosinha nuinha nuinha
gestos lentos
corpo moreno de amendoim
olhos de amêndoas doce
lábios com gosto de beijo.

(...)

     Em ROSINHA INDO PRO CÉU, fica no ar uma intriga sobre Rosinha, que poderia, pelo seu nome no diminutivo, ser uma criança, mas uma criança não apática aos olhares da matula que a imaginavam despida, mesmo morta indo para o céu!

    Em "CAFÉ DA MANHÃ", há certo teor de erotismo nunca antes neste livro, é um convite ao amor, aos prazeres da carne. Eis um fragmento do poema:

CAFÉ DA MANHÃ

Minha negra, com carinho,
mostra o café do teu corpo.
Faz no olhar dos olhos meus
as ondas do mar que tens.
que se confundem com estradas,
tão sinuosas, sombrias,
esquivas curvas do amor.

(...)

Mostra o café do teu corpo
no brilho do meu lençol,
mostra o amor que tens no peito
ao calor que trago eu,
se podes provar que és minha,
para provar que sou teu.


ORAÇÃO

Ave Maria
do céu e da terra
cheia de graça e de beleza,
o Senhor é convosco e conosco,
Bendita Sois Vós
e todas as mulheres
entre as quais Sois Rainha,
Bendito é o fruto do Vosso ventre,
Jesus!

     De repente, lá pelas tantas, o amor muda de figura, a religiosidade do poeta, assume o timão e surge um belíssimo poema à Nossa Senhora. A meu ver, uma crítica àqueles que lotam as igrejas e acham que sua salvação está lá, e esquecem muitas das vezes da sua própria vida.

DOCE MENTIRA

Oh! doce mentira aquela de teus olhos
quando lágrimas rolaram em teu rosto
e juraste amar eternamente
o teu poeta
e enganas tua alma com outros beijos.

     Em versos simples, sem rebuscamento algum, ou hermetismo, o poeta nos informa da perda de sua musa. DOCE MENTIRA pode ser visto como antítese, uma contraposição de ideias.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

INVENÇÃO E SONETO




                                                                   GRAHAM BELL


                                                                   O TELEFONE

                                                                   Ouvir a tua voz, de mim, distante,
                                                                   e, ao mesmo tempo, tão pertinho assim,
                                                                   carinhando meus tímpanos, a fim
                                                                   de estar aqui, presente, neste instante!

                                                                   E eu, a fim de estar aí, de ti, perante,
                                                                   após, do telefone, esse trriiimm!!!
                                                                   Para o diálogo, tintim por tintim,
                                                                   e, na retina, teu rosto marcante!

                                                                   Não sei bem, se malquisto ou benquisto,
                                                                   Graham Bell, por essa ideia, invenção
                                                                   de falar, um com o outro na distância!

                                                                   O que eu sei mesmo, é que tudo isto,
                                                                   faz a gente sofrer do coração,
                                                                   e aumenta ainda mais a nossa ânsia...

                                                                                        Miguel de Souza



domingo, 22 de setembro de 2013

HOMENAGEM

                                                                 






EVERALDO NASCIMENTO


CANTO

Vou tecer um soneto neste momento,
-e explicar o motivo deste canto!-
Ao meu amigo Everaldo Nascimento,
cujos versos são magias e encantos.

Agradeço também aos bons ventos,
que me trouxeram vates tantos, tantos...
Através do que estava no teu intento,
confortando-nos com o teu acalanto.

Foi por pensares sempre em conjunto,
que nesta caminhada estamos juntos,
para tentarmos publicar nossos versos.

E, quem sabe, no mais tardar dos anos,
possamos, ver enfim, os nossos planos,
realizados com bastante sucesso!

                  Miguel de Souza

sábado, 21 de setembro de 2013

HOMENAGEM AO DIA DA ÁRVORE




PAPEL

                                                    Sê como aquelas árvores antigas,
                                                    impolutas à beira do caminho...
                                                    Recebendo do vento tal carinho,
                                                    e oferecendo sombra a quem se abriga.

                                                    Ou companhia ao ser sempre sozinho,
                                                    a transitar por entre elas, amigas.
                                                    As árvores tão boas quanto antigas,
                                                    a esparzirem caridade p'lo caminho.

                                                    Sê como Elas, benéficas ao mundo,
                                                    ao saciar a fome do moribundo.
                                                    A reinar sobre a terra e sob o céu!

                                                    E mesmo empós, da serra, a ouvir-lhe o ronco,
                                                    a podar-lhe rés a terra pelo tronco...
                                                    Mesmo empós... Ela cumpre o seu papel!

                                                                           Miguel de Souza

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

MÚSICA E SONETO

                               
                             







FLOR QUALQUER
                                 
Nasceste na beirada do caminho,
quase que por acaso ou por encanto;
e se o tempo jorrava doce pranto,
era nas secas pétalas, carinho!

Assim, se desenvolveu a flor-espinho,
nos longes do jardim... a sós, portanto!
dando um tom de matiz ao verde-manto,
e aos olhares de quem vai sozinho!

Quando o tempo fechar as comportas,
e, escancarar pro mundo todas as portas,
de claridade, luz e calor...

Resta a esta flor, da noite, o úmido orvalho,
caído em gotícula, de algum galho,
para sobreviver desse horror!

                   Miguel de Souza

Inspirado na música "FLOR DE CHEIRO" de Nando Cordel:

DVD Nando Cordel - Flor de Cheiro