sábado, 26 de março de 2016

ARTIGO


                                                           FARAUTO

(ARTIGO PUBLICADO POR MÁRIO DE ANDRADE NA REVISTA KLAXON)

Tive acesso às nove edições da revista “KLAXON”, Mensário de Arte Moderna. Um documento muito interessante para quem é bitolado em arte. Na edição número 7, de 30 de novembro de 1922, deparei-me com um artigo de Mário de Andrade chamado “FARAUTO”, sobre um poema dele publicado na edição anterior.
O poeta explica, no início do mencionado artigo que FARAUTO é um neologismo criado por ele, bem como o verbo FARAUTEAR, seu derivado. Etimologicamente ainda explica o nome: FARAUTO compõem-se de 2 substantivos, um abstrato, ou pelo menos espiritual, F.; outro concreto, ARAUTO, senhor que existe desde as eras verdes de além-Christo, (grafia da época)... trocando em miúdos: FARAUTOS são esses homens de casta bem determinada anonymos, inalteravelmente anonymos, por mais que assinem com todas as letras o nome; e aos quais a Fama (por não poder mais aparecer na Terra nesta época em que deuses entidades simbólicas morreram) destinou o ofício de proclamar a glória e o valor dos Klaxistas.
O FARAUTO, tenha 18 ou 74 anos, é velho e obediente. Mas tem voz altissonante, como os arautos medievais. Porque lhes engrandece a frágil tremura do grito porta-voz da cólera e da inveja.
FARAUTO! FARAUTO!... O verbo ainda é mais curioso. Só podem usal-o na primeira pessoa os amigos dos klaxistas, quando se refiram a estes. Ex: “Eu farauteio Menotti delPichia.” Na segunda e terceira pessoa só pode ser usado por Klaxistas. Ex: “Fulano me farauteia constantemente.” Tem três significações distintas: uma no passado, outra no presente, outra no futuro. FARAUTEAR no passado significa roer-se de inveja. Ex: “Um grupo de galos e galinhas farauteou durante toda a Semana de Arte Moderna.” No presente significa que o vulto, queira ou não queira, espalha nossa celebridade por toda parte. Ex: “Farauteio sempre os Klaxistas pelo jornal do Commercio. Quando no futuro, FARAUTEAR significa morrer de raiva ante a nossa fatal ascensão. Ex: “Quando virem certos jornaleiros que nosso grupo cada vez mais aumenta e só consolida, batendo a cabeça nos paralelepípedos, todos eles farautearão.” De forma que com este verbo camaleão, é perfeitamente admissível esta frase dum Klaxista, dirigida a qualquer das letras do alfabeto: “Farauteaste-me porquê eu era inteligente? Pois farauteia agora meu valor às gentes do Brasil! Mas tua inutilidade me for absoluta, farauteará ainda, mordendo o frio chão!”

Tudo isso para criticar os que não entenderam o seu poema publicado na edição anterior. (grifo meu)

Meu “Poema” publicado na KLAXON n. 6 não foi compreendido pelos farautos. Duas razões há para tal incompreensão: 1.0 são farautos, isto é, escravos obedientes. E nunca se imaginou que para o ato de obediência fosse necessário que os escravos compreendessem as ordens de seus donos. 2.0 a poesia foi escrita com sinceridade e modernidade. São duas coisas que não podem existir entre farautos – ovelhas velhas ignaras da psicologia acostumadas a entender só o que a métrica e a rima desfiguram. Mas porquê, como Bocage, um dia me achei mais pachorrento, procurei discorrer num soneto o que dissera num poema. Fiz isto:

Platão

Platão! Por te seguir, como eu quizera,
Da alegria e da dor me libertando,
Ser puro, igual aos deuses, que a quimera
Andou, além da vida, arquitetando!

Mas como gosar alegre, quando
Brilha esta áurea manhã de primavera
-Mulher sensual que, junto a mim passando,
Meu desejo de gosos exaspera?

A vida é boa! Inúteis as teorias!
Mil vezes a nudeza em que resplendo
À clámide da sciencia, austera e calma!

E caminho, entre odores e harmonias,
Amaldiçoando os sábios, bem dizendo
A divina impureza de minha alma!


Os farautos podem argumentar que também não compreenderam o soneto, pois desconhecem Platão. É verdade. Mas isso não impede que sejam obrigados a afirmar que o soneto é bom. E só dirão o contrário se estiverem no passado do verbo farautear, si lhes perturbar o juízo a inveja sanhuda e esverdeada. O soneto é bom, estás ouvindo? Farautos... É bom, mas é péssimo. É bom porque está bem feitinho (apesar daqueles três particípios presentes); não lhe falta sonoridade; é natural, não tem o ridículo de palavras e rimas emiliosas: e lá brilha a chave de oiro ao fim. Nem lhe falta mesmo aquela notazinha de sensualidade, aperitivos de velhos e crianças.
Pois é péssimo, porquê é insincero. Não foi aquilo que senti que deveria exprimir. (mas quem o saberia se eu não o afirmasse?) O que senti e exprimi está no poema: o soneto é a máscara de cera que tirei da sensação morta, e que arriei de joias e pintei de cores vivas conhecidas. O soneto é uma análise intelectual e mentirosa; o Poema síntese subconsciente e verdadeira. O soneto só diz o que nele está e que não estava propriamente em mim. O Poema diz um mundo de sensações, que estiveram todas em mim. No Poema, como no momento de vida que o inspirou, a relembrança da passagem de Platão tingiu-me apenas de leve melancolia. No soneto bem disse impureza de minha alma, benção que não pronuncio na realidade, mas... não podia perder a chave de oiro. Não é verdade que a manhã me desse a impressão de mulher sensual, tive impressão de manhã simplesmente, mas de manhã de sol (sol aqui é qualitativo) e por dilatação do prazer, de vida feliz, alegre, barulhenta (carnaval é também adjetivo).

Eis a remoção do (P)oema direto da revista KLAXON pra cá:

Poema

Meu gôso profundo ante a manhã Sol
a vida carnaval!
Amigos
Amores
Risadas
E as crianças emigrantes me rodeiam, pedindo
Retratinhos de artistas de cinema, desses que
Vêm nos maços de cigarros...
Sinto-me “Assunção” de Murilo!
Libertei-me da dor...
Mas todo vibro da alegria de viver!
Eis porquê minha alma ainda é impura.

                                 Mário de Andrade


E por associação de ideias por três palavras soltas, resumi expressionantemente, por deformação sintética, o que faz a felicidade de minha vida: “amigos, amores, risadas”. E coloquei essas palavras uma sob a outra, sem pontuação, porque agir como um acorde: não produzem sensações insuladas e seriadas, mas sensação complexa e total. E lá estão no poema os impagáveis italianinhos que nos cercavam todas essas manhãs de exercício militar, quando saiamos do quartel de Sant’Anna. “Moço, me dá um artista!” a assunção de Murillo veio-me por associação de imagens. Mas esta linda sensação não coube no soneto e menti ao momento de minha vida, omitindo as crianças que o tinham embelezado para não errar as dez sílabas dos versos. O que pus nas 54 palavras do verso livre na falta de perspectiva dum só plano intelectual modernista, não coube nas 78 palavras do soneto.
Sei bem que, com esforço Beneditino, poderia (talvez) encaixar tudo num soneto em alexandrinos. Mas arte é felicidade, é alegria, é brinquedo, não é misticismo nem sofrimento. E tenho pressa, farautos! Neste século quem se atarda, longe do estéril turbilhão da vida, a repolir seus metros, perde o bonde, perde o trem: não será pontual a abertura da bolsa ou das repartições. Mas diante da felicidade que sentia no momento que o poema sugere, observei que me libertara da dor... Imediato me veio à memória o passo de Platão em que ele diz que se nos libertamos da dor e da alegria, seremos puros, iguais aos deuses. Daí a razão da leve melancolia em que o Poema termina, sem verso de oiro natural, vivido expressivo.

                                                      **
 Nota

Ora meus caros leitores, sabemos todos que a importância do Modernismo para a cultura brasileira é de uma relevância impar. Eles romperam barreiras, trouxeram o novo, incutiram-no no seio deste povo tupiniquim. Mas alto lá, Sr. Mário de Andrade, a comparação menosprezando o Soneto sempre grafado com “s” minúsculo e a exaltação ao vosso poema com o “p” maiúsculo é de uma petulância fora do comum, sem contar com o conceito vosso de que o soneto é uma análise intelectual e mentirosa, e de que a arte é felicidade, alegria, brinquedo, etc.
O soneto é a forma mais expressiva quando se fala em poesia, e deverá servir de moldes para todas as outras construções possíveis, até mesmo o poema em versos livres e brancos. Nele, há toda uma estrutura formal que se encaixa perfeitamente dentro de qualquer mensagem que é o que realmente interessa ao tratarmos de poesia. É como diria uma ex-professora minha: “se você fez um soneto, você chegou lá!”. Portanto, se quem se predispôs a escrever um soneto, e o término não o satisfez, a culpa não está no soneto, e sim, com o seu manuseador que não o fez com a devida inspiração, ou faltou-lhe talento para tal.
Além do mais, soneto não é, Sr. Mário de Andrade, análise mentirosa, uma vez que a poesia tem compromisso com a verdade. É ela (a poesia) quem extrai da vida elementos suficientes para a reflexão sobre determinados assuntos, principalmente sobre as questões políticas, de cunho social que tanto assolam nosso país. O que há de mentira nisso? O poema de versos livres tem sua qualidade, não cabe aqui, o desprezo de maneira alguma, e que por incrível que possa parecer, mas para mim, torna-se mais difícil o manuseio de verso livre do que o decassílabo.
Em outra ótica, discordo mais uma vez da vossa senhoria, ao pronunciar sobre arte como sinônimo de felicidade. Muito pelo contrário! Arte é o descrever da infelicidade do mundo, da vida! Vejamos o exemplo do poema “O bicho” de Manuel Bandeira: “Vi ontem, um bicho/Na imundície do pátio/ Catando comida/ entre os detritos [...] O bicho, meu Deus, era um homem.” Ora, se a situação política do país naquele momento, estivesse as mil maravilhas, por que cargas d’água haveria de um homem catar comida no lixo?        

É por estas e outras questões lidas no seu artigo, que tomei a liberdade de não concordar. Sei da importância do Modernismo para a sociedade brasileira, mas acredito que alguns de seus membros extrapolaram um pouco, no que tange a se defender aos ataques daqueles que se puseram contra a tendência Modernista. 

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