domingo, 10 de julho de 2022

POSSÍVEL SONHO

Ando do lado oposto aos que se acham...
Aos que criticam, julgam todos, tudo.
Como se fossem insensíveis, rudos,
agem. E de beócio eles nos tacham.

Ando contrário a esses que o bico racham,
zombando de todos por serem mudos!
Iludir outros com falácia não iludo,
porque marcho para onde todos marcham.

Ando com os pés frágeis desse jeito, 
pagando o preço caro pelo feito
de ter posto no poder um dos nossos!

Ando com a esperança dessa volta, 
contra a realidade que revolta,
mas ao menos sonhar, acho que posso!

Miguel de Souza 

domingo, 3 de julho de 2022

O MENINO E O TEMPO

Um dia desses eu tive um sonho,
um sonho desses que já não se sonha mais... 
Um dia desses eu me senti menino.
Eu subi na árvore e fiz travessuras.
Um dia desses eu fiquei mais velho.
Eu desci da árvore. Eu deixei de sonhar.

Manoel Assis 


Discorrendo sobre o poema:

Vejo neste poema a árvore como metáfora da própria vida. Quando o poeta diz: "Eu me senti menino." Isto nada mais é do que o ato de nascer, de sentir o peso da matéria e alarmar ao mundo num choro, pedindo leite! "Eu subi na árvore e fiz travessuras.", em outras palavras: eu embarquei nesse transporte que é a vida. E fica nítida a ideia do poeta quando ele diz "e fiz travesduras", ora, senhores, quem faz travessuras, a não ser a criança? E o poema é duro e cruel como é a vida: "Um dia desses eu fiquei mais velho". Passagem do tempo, passagem da vida... em tão belos versos o poeta fala da velhice de uma forma tão doce que chega a emocionar! "Eu desci da árvore,". Eu deixei, por fim, esse meio de transporte que é a matéria, não se esqueçam que árvore e corpo são feitos da mesma matéria-prima, a terra. "Eu deixei de sonhar". A morte propriamente dita. O poeta não morreu, deixou de sonhar. Ora senhores, o poeta ameniza as dores da vida de uma forma tão romântica que chega a nos deliciar num ato tão dolorido para todos que é a própria morte.


domingo, 26 de junho de 2022

HAICAI-ACRÓSTICO

Cheiro muito forte
Invade o nariz do cão. 
Olor: sexo à vista!

Miguel de Souza 

P.S:. Haicai-acróstico é uma ideia minha que une dois tipos de textos. O haicai e o acróstico. Para quem quiser se aventurar nesse exercício, fiquem à vontade. Acho que vale a pena o desafio.

sábado, 4 de junho de 2022

COMO NASCEM OS SONHOS

Assim como Nascem as estrelas
e o que germina latente 
entre o líquen e o húmus 
e que será amanhã 
flor e fruto. 

Assim como Nascem as borboletas 
e o que gesta em casulo 
entre o breve e o sempre 
e que será amanhã 
belo e azul. 

Assim como Nascem as árias 
e o que busca em silêncio 
entre o  verbo e o verso 
e que será amanhã 
livre e livro. 

Assim como Nascem as emoções 
e o que plasma em amor 
entre o coração e a alma 
é o que será amanhã 
água e luz. 

Assim nascem os sonhos...

Nelson Castro 
In: A Quinta Estação 
P.191 

domingo, 29 de maio de 2022

Análise de poema

MUSA DO POETA

Sob um olhar distinto
faz-se um poeta.
Quebra a vidraça nata
de um ser desprendido.

Viaja sobre asas de luneta
com sua musa nua, crua
de essência
Busca elementos e a cada fragmento
vai compondo-a de alma, de vida.

É hora,
o canto é de liberdade
seu destino pousar na sensibilidade 
daqueles que têm sede ávida. 

E agora,
não existe mais medo retido,
desperta na aura um sorriso
de um êxtase rítmico. 

Gracinete Felinto

ANÁLISE 

O poema "MUSA DO POETA" se encaixa dentro da proposta modernista. Pois são versos de forma não fixas, isto é, livres: que não contém métricas. E brancos: que não contém rimas. A temática proposta pela poetisa é sobre o fazer poético ou do metapoema que trata da própria construção poética. Foi agrupado em quatro estrofes, sendo que a segunda estrofe contém seis versos e as demais são estâncias de quatro versos. A partir do título, a poetisa cria ou reinventa, já que aos olhos comuns, a musa do poeta é a mulher amada, desejada e tão inalcançada pelo poeta! Cria, portanto, a partir daí, a grande metáfora que irá perpassar todo o poema. Isto já é o suficiente para detectarmos poesia neste "Musa do poeta". Os dois primeiros versos, "Sob um olhar distinto/faz-se um poeta. (...) é o introito necessário para surpreender o leitor que se submete às análises mais críticas em prol dos estudos ou do seu conhecimento singular. Lembrando que o artigo no segundo verso está indefinido, /UM poeta/. Há nisso tudo aquela comunicação extra que dizem se tratar de entrelinhas, a poeta, muita sabiamente, deixa aí o seu ponto de vista, a sua ótica do que seria um poeta para ela. Ainda sobre os dois primeiros versos, "sob um olhar distinto / faz-se um poeta" (...) O poeta é aquele que extrai das coisas da vida a sua matéria prima, digamos assim, para o seu labor poético, enxerga coisas impossíveis a "seres normais" enxergarem e que estão aí tão à mercê de todos. E segue nos dois versos seguintes: "quebra a vidraça, nata  / de um ser desprendido." Reforçando a ideia do início do poema. A segunda estrofe ou estância, como queiram, é talvez, a mais importante do poema, porque é nela que o poeta insere o seu momento ápice, o cimo; é o arremate dos primeiros versos, em que a poetisa conceitua ou insinua a prática descrita. É de uma beleza ímpar: "Viaja sobre asas de luneta / Com sua musa nua,  crua / de essência / busca elementos é a cada fragmento / vai compondo-a de alma / de vida. (...) É a pura vivência transfigurada em palavras. A terceira estrofe surge como aquele momento em que a poeta sorveu as experiências necessárias, para enfim, deitá-la ao plano. O segundo verso dessa terceira estrofe: "O canto é de liberdade." É denunciador do momento atual que vivemos na literatura. Por fim, chegamos ao desfecho do poema. Nos dois últimos versos denota-se a sua existência palpável, pegável como uma caneta ou um copo. " desperta na aura um sorriso / de um êxtase rítmico.

quinta-feira, 26 de maio de 2022